Friday, 18 April 2025

bárbaro

 Algures, por detrás do véu que separa as realidades, há um planeta em muito semelhante ao nosso: também ele carregado de muito mais água do que terra firme, também ele abençoado por uma lua morta e também ele habitado por criaturas várias e entre elas uma raça de primatas dotados de inteligência em tudo irmãos dos que escrevem e leem estas historias. Mas aqui começam a terminar as semelhanças e surgem as diferenças. Como se milhares de milhões de anos mais novo ou quem sabe eras mais velho, os seus continentes formam ainda uma pangea gigante, terra imensa que se estica no meio dos quatro mares que os sábios dessa terra sabem existir e para além deste apenas ilhas de diversos tamanhos lhes são conhecidas.

 Junto aos portos do mar do Este erguem-se os muitos castelos e torres de ErevZá, e é dentro de uma destas torres, ainda que debaixo do andar térreo, que dorme descansadamente na sua esparsa cela um jovem bárbaro, vestindo apenas uma curta saia que poderia ser de bisonte ou outro animal do seu tipo e das tatuagens vermelhas que lhe cobriam grande parte da pele. 

 O seu nome iremos descobrir em breve, mas a razão que aqui o trouxe é facilmente adivinhavel pelo sangue na espada que lhe pertence e pelos ricos farrapos de seda desse vermelho fluido encharcado que ninguém limpara ainda, encostada a uma mesa onde, adormecida, repousa a cabeça, elmo de metal e armadura completa, de um guarda. Junto à espada, em cima da mesma mesa, um punhal e uma bolsa de pele que presumivelmente andaria num dia normal a tiracolo do bárbaro.

 O sangue na grande espada de duas mãos e meia pertence, se é que os mortos podem ainda ter posses, a um nobre que cometeu o erro de insultar a coragem de um jovem guerreiro das tribos centrais em plena avenida principal. Pesará a favor do jovem o facto de não ter morto - ou sequer atacado - nenhum dos guardas que imediatamente correram para o prender, num futuro julgamento. A seu favor também as imensas testemunhas, todas elas cortesãs (que no nosso mundo seria um ponto contra mas neste em que as leis de honra variam bastante, um ponto a favor), que jurariam debaixo de uma égide da sua deusa do amor que o jovem havia dado tempo e hipótese ao nobre de se desculpar antes de defender o seu bom nome com dois grandes semicirculos da sua espada que cortaram, por esta ordem, o estômago e o pescoço do nobre, deixando-lhe ainda o sorriso que se achava superior nos lábios pintados, mesmo depois do corpo cair, de um modo quase plebeu, de costas no chão. 

 Foi já dois dias depois, passados entre dormir, comer o pão seco com água quase limpa e exercícios que deixariam um qualquer personal trainer do nosso mundo inchado de orgulho, que o jovem bárbaro foi levado a tribunal, arrastando consigo ainda o mesmo sorriso meio maroto meio inocente com que ele mesmo havia sido arrastado para dentro da cela que havia sido a sua casa no último par de noites. A nós, que lemos este relato deste lado do véu, o nome tribunal pode evocar certas imagens que não poderiam estar mais longe dá realidade de um tribunal em ErevZá. Esqueçam o juri sentado ordenamente a um lado, esqueçam um qualquer juiz de toga negra e ar sério: este tribunal é apenas uma sala bafienta no interior da torre da prisão, um guarda de capacete dourado - única insígnia do seu posto, sentado preguiçosamente de perna aberta ao lado de uma mesa carregada de papéis chama pelo próximo e o jovem bárbaro entra, sorrindo ainda e ladeado por dois guardas que carregavam nos olhos o medo de saber que teriam de o restringir se este discordasse do julgamento. 

 Sem olhar para o trio, mas antes com os olhos enfiados na folha que havia puxado do topo da pilha lê, de uma só assentada a acusação - morte sem provocação - e a defesa - o nobre havia insultado, em frente a testemunhas, o jovem bárbaro - e por fim movendo os olhos para longe do papel e na direcção do acusado diz: "É meu julgamento que a morte foi provocada e como tal não irei aplicar qualquer pena a Torl. O próximo!" - esta última palavra um grito já. Torl, pois é esse o nome do jovem bárbaro, sorri tão gentilmente quanto as suas feições o permitem e faz uma pequena vénia, deixando-se ser levado pelos guardas até aos seus pertences e dos para fora da torre e colocado, sem grande cerimónia ou pedido de desculpa, na ponta da grande praça central. 

 Horas mais tarde, na lampreia de ouro, uma taverna de aspecto sujo, cujas paredes os archotes haviam tingido de preto, sentado a um canto, de frente para a porta e com um jarro de cerveja quente à sua frente, Torl parecia imerso em meditação, os seus cabelos louros escorrendo pelos ombros quase até ao umbigo e os olhos semi-cerrados, os lábios finos e secos afunilados num esgar de concentração e a testa franzida. Com o afastar da imagem vemos nas suas mãos um cubo disforme de madeira que ele dextramente rodava entre os dedos puxando e empurrando as pequenas saliências, testando o puzzle das ilhas do sul. A sua concentração foi interrompida por duas vozes quase gritando "PERO COÑO, QUE DISSES?" "HOSTIA, QUE LOS DRAGONES SON ROJOS, CABRON"

 Torl suspirou e disse entre dentes "Orcs.." meio exasperado. Na sua terra acreditava-se que os orcs haviam sido homens antigamente, uma tribo nomada inteira amaldiçoada - por haver acordado do seu sono um poderoso feiticeiro - com as suas feições repugnantes e a incapacidade de baixar a voz por um segundo que fosse. E na realidade eram ainda visíveis, por debaixo dos olhos encolhidos e do narriz atarracados por causa da boca grotescamente alargada, parecenças claras com um humano : os braços ligeiramente mais compridos, as costas encurvadas como um corcunda e pernas que pareciam demasiado curtas para um tronco tão largo mas claramente humanoide. 

"NO ME TOQUES LOS COJOÑES!" A voz de um orc era como um trovão e apenas recentemente haviam sido considerados dignos de entrar em cidades, e mesmo assim não em todas. Estes interromperam a discussão para procurar alguém entre os clientes e Torl viu com desagrado que era ele quem procuravam quando se dirigiram até à sua mesa e, deixando a língua negra pela primeira vez desde que haviam entrado, lhe disseram, num ErveZaés passavel "Tu Torl barbaro? Nós emissários de JUAN CARLOS" - o nome do imperador orc soava abrasivo aos ouvidos de Torl -"e vir pedir ajuda" - incaracteristicamente calaram-se e olharam-no em silêncio. O bárbaro fixou os olhos no que parecia mais velho e grunhiu um "sim" inquisitivo. "JUAN CARLOS precisar FILIPÕLAS forte" - o termo usado era depreciativo mas Torl deixou passar com apenas um franzir de olhos - "para devolver nosso ídolo que tribos roubarem. Tu vir com nós e ir atacar eles." - A conversa terminada, tanto quanto lhes interessava, os orcs nem esperaram para ver se ele os seguia e saíram porta fora. O jovem bárbaro observou-os a sair, encolheu os ombros e enfiando o cubo numa bolsa, agarrou o jarro com as duas mãos e bebeu o conteúdo em três grandes golos. Atirando uma moeda de cobre para cima mesa agarrou a espada e saiu atrás dos orcs.

 Três dias depois, já ErveZa ficara há muito para trás e cavalgavam pelos campos de agricultura que alimentavam a grande cidade. Cruzavam carroças algumas vezes ao dia e viam familias a tratar da terra, mas a grande estrada estava deserta a maior parte do tempo. Os orcs, Pablo e Esteban, como qualquer outros da sua raça raramente se calavam entre si mas Torl pouco mais aprendeu sobre a missão excepto que quem roubara o idolo foram membros de uma outra tribo orc, Andales, das montanhas a norte. O jovem mantinha a pretensa de não falar a suja língua negra e cavalgava uns metros atrás para descansar os ouvidos quando subitamente os seus companheiros se calaram. Apesar da maldição os orcs eram guerreiros temidos e Torl seguiu-lhes a deixa quando os viu a soltar as espadas e preparar-se para a batalha. Metros a frente deles um pequeno bosque rodeava a estrada e quando Torl os apanhou eles apontaram para um rastro quase invisível a correr para dento das árvores. Surpreendentemente Pablo, o único dos dois que falava ErveZaniano, sussurou "salteadores" e desmontou em silêncio. Esteban e Torl fizeram o mesmo e os três seguiram o rastro até darem com as costas de um rapaz que não teria mais de 14 anos e que apontava uma besta em direcção à estrada. Pablo levantou a espada como para matar o jovem mas Torl segurou-lhe o braço e sacou de uma faca que encostou ao pescoço do salteador e sussurou-lhe ao ouvido "não grites e ainda podes voltar a casa". Levantando-o gentilmente levou-o até a estrada e disse em voz alta "Apenas queremos passagem segura e se isso acontecer soltamos aqui o rapazinho" - este, indignado, disse "sou um homem e o meu nome é Brendil Tirocerto!" 

 Dois homens vestidos da cor das arvores sairam de braços levantados e um deles respondeu ao barbaro "Tens a minha palavra que ninguém vos atacara enquanto tiveres o meu filho refem. E que se o libertares sem mazelas não vos atacaremos hoje. Juro pelos deuses que a terra guardam." Assim que Torl soltou o jovem, após passarem as árvores este pegou na sua besta e disparou, atingindo um passaro que passava a dezenas de metros de altura, sorriu tão arrogantemente quanto pode uma cara de adolescente sorrir e voltou a passos largos para junto do seu pai. O barbaro gritou-lhe "Fazes jus ao teu nome, Brendil Tirocerto! Da próxima vez que nos encontrarmos, que estejamos do mesmo lado!" e montando o cavalo fez sinal aos orcs para seguirem viagem. 

 Já tinha passado uma semana desde que saíram de ErveZa antes de encontrarem os rastos dos Andales: a relva pisada e restos de comida atirada ao calhas a volta da fogueira. Pablo, após inspeccionar os restos e conferenciar na língua negra com Esteban, disse "Ontem estarem aqui, hoje ali" - apontou na direcção do sol que ainda se erguia -"se rápido ainda apanhar hoje". A única resposta de Torl foi soltar a espada na bainha e dar a trote na direcção apontada. Os orcs seguiram logo atrás, berrando obscenidades na sua língua negra, até que o jovem bárbaro os silenciou, querendo apanhar os Andales de surpresa. Não foi muito depois que ouviram a tribo nómada, ainda antes de os conseguirem ver, berrando na sua versão da língua negra parecida mas ainda assim diferente da que Pablo e Estevan usavam entre si. Por gestos, pois a audição dos orcs era quase tão boa como a sua voz, Torl indicou um plano de ataque simples: seguir os nómadas até que a noite caísse (um círculo que os indicava aos três, uma mão aberta de lado na direcção pretendida e o símbolo universal do por do sol, uma mão aberta fechando-se) e depois atacar, um de cada lado (apontou cada um deles e três lados diferentes e depois fez como se desembainhasse a espada e com ela rachasse uma cabeça). Pablo respondeu em alta voz, como todos da sua raça falam "SIM FAZER ISSO".

 Suspirando Torl desbainhou a espada de verdade, agarrou o machado na mão esquerda e firmou os pés no chão, preparado para o inevitável ataque. Segundos depois os Andales estavam em cima do monte que os separara dos seus perseguidores, espadas em punho e gritos de morte nas bocas. Os companheiros do bárbaro perceberam rapidamente que os seus planos haviam sido frustrados e também eles se colocaram em posição para lutar. Mais de 20 Andales desceram a crista do monte mas nenhum a voltou a subir, quase metade cortada pelos golpes certeiros de Torl, a sua espada girando e espalhando sangue por todo o lado, o seu machado enfiado no crânio de um Andale especialmente grande. Quando se viu sem inimigos à sua volta o jovem olhou para os seus companheiros que, apesar de alguns cortes, provaram pertencer à elite de Juan Carlos, o maior dos reis dos orcs, ao dizimarem entre si 11 orcs Andales. Esteban sorria e Torl quase temeu os olhos sedentos de sangue deste mas os sons que vinham do outro lado da colina chamaram-lhe a atenção. Lá, os sobreviventes, diplomatas e mulheres, começavam a compreender que a sua escolta não tinha sido bem sucedida. Tentavam ferneticamente discutir o que fazer em tons que para orc eram quase sussurros mas claramente audíveis para Torl que entretanto subira à crista do monte e os olhava. 

'Eu aconselharia que devolvessem o ídolo e fugissem. Não é do meu interesse matar mulheres, velhos, cobardes e crianças". Se os Andales já estavam assustados ainda mais ficaram quando ao lado do bárbaro com a sua espada pingando sangue apareceram dois orcs usando as cores da corte, as caras pintadas com o sangue dos que haviam protegido a caravana. Sem grande debate um dos diplomatas, um velho de grandes barbas, retirou da sua bolsa uma imagem de uma mulher com uma criança aos braços, aparentemente feita de ouro puro, pousou-a no chão e apressadamente empurrou o resto da comitiva na direcção contrária dos guerreiros cobertos de sangue, gritando na sua variante da língua negra que bem tinha avisado que nunca deviam ter roubado o ídolo. 

 Cinco dias depois Torl recebeu das mãos do rei Orc em pessoa o seu pagamento e recusando delicadamente os avanços de várias mulheres orc, cavalgou do Castelo de MeahdRid para nunca mais lá voltar. 

Thursday, 12 September 2024

Invicto

 naquele ponto onde a ilha se chegava mais próximo do pôr do sol, o trilho terminava numa monumental porta, duas colunas de pedra trabalhada apontando ao céu e o caminho de pedra construído sobre a água, símbolo do poder do Homem sobre o mar que rodeava tudo, entrando pela água adentro, centopeia artificial que fugia da ilha em direção ao horizonte, como que tentando correr para o sol que fugia. No fim do caminho, a cabeça da centopeia era marcada por um trono de ébano e os dois cornos, construídos ao longo dos séculos, as espadas e escudos de todos os que haviam morrido em nome da Noite, fundidas e transformadas em mais um pedaço dos grandes cornos. 

 Ao início, conta-se, eram apenas duas as espadas que protegiam o sacerdote da Noite, empunhadas por homens que haviam devotado a sua vida ao serviço da Negra Senhora. Mas hoje os cornos continham gerações de soldados devotos, cada um deles dois tijolos de metal com o seu nome inscrito nas letras sagradas das escrituras.

 O rapaz que caminhava em frente ao resto dos sacerdotes e soldados parou ao chegar ao corno, e esticando a mão esquerda passou os dedos pelo nome do seu pai. Velhas de três anos as runas ainda lhe pareciam ferver ao toque, como se tivesse sido ainda ontem que tinham sido feitas pela sua mão trémula, dorida, inexperiente. Os seus dedos agora estavam calejados de experiência. Demasiada experiência, demasiados nomes oferecidos à Mãe Escura, demasiadas mortes, demasiada guerra.

 Mas o rei assim decide, o Sol Invicto, Pai Conquistador, a Luz do Mundo que quer chegar a todas as costas, brilhar sobre toda a terra. E por isso ele estava ali de novo, sentado no negro trono, ladeado pelas almas que lutaram pela Noite Eterna e assim se tornaram eles também eternos, enquanto Dia se punha detrás dele, a sua cabeça um halo de luz, nas suas mãos os símbolos de poder, ajoelhado a seus pés o rei e dizendo palavras mais antigas até que o trono onde se sentava, abençoando o rei, a ilha, os soldados, o povo. Dando graças às Noite por voltar a cair sobre eles e pelo Seu abraço materno e protector. 

  Em poucas horas aquela centena de pessoas irá entrar nos longos barcos sem velas e remar em direção à batalha à guerra à morte.

  

Monday, 4 October 2021

Imortal


"Sabes, acho que o amor nunca morre." - "Porque nunca esteve vivo?" - perguntas na tua chico-expertise de sempre, fugindo do romantismo para a semântica, escondendo o que sabes que disse na incerteza de todas as palavras. Sorrindo abano a cabeça devagarinho, e toco-te ao de leve no braço, apenas um fantasma de um carinho. "Sabes, acho que o amor nunca morre." - "Estás a repetir-te, já o disseste antes." - "Continuarei a repetir-me, há coisas que se devem dizer não uma nem duas mas incontáveis vezes, até que fiquem escritas na própria textura da realidade, uma mancha indelével na seda pura do existir." - "Mas nós morremos, somos apenas pessoas, um corpo que se gasta em cada dia" - Acendo um cigarro, puxo a minha morte uns minutos mais para perto de mim, e finjo que sei fazer anéis de fumo em vez de responder. Lá fora passam os carros e ladram os cães e escurece, devagar. "É noite cada vez mais cedo" - Apontas em direção ao sol que já desce, correndo, para o horizonte - "Amanhã ergue-se de novo, e será dia outra vez e outra e outra, um ciclo eterno de morte e renascimento. Mas o amor, esse nunca morre." - "Assim o dizes, mas não acredito." - "Então nunca amaste ninguém." - "Estou aqui nos teus braços." - "Lábios nos lábios, cabelo na minha boca, a tua pele na minha.. Mas isso não é amor, é corpo." - "E amor não é corpo também?" - "Amor é alma. Apenas e só alma, em fogo lavado de lágrimas." - "Só se torna amor com o sofrimento?" - "Só." - "Isso é ridículo! Há amores felizes, nós somos felizes!" - "Mas nós não nos amamos um ao outro, nós amamos quem somos um no outro." - "E eu é que me escondo na semântica?" - "Amor não têm semântica, nem léxico nem ortografia, amor é. Apenas é, imortalmente é." - Levanto-me, apago o meio fumado cigarro no cinzeiro e agarro nas minhas calças amarrotadas aos pé da cama - "Vais embora?" - Sinto o medo na tua voz, o medo do frio de um cama onde se dorme sozinho, o medo de uma manhã em que apenas a parede nos olha nos olhos - "Não sei." - Chegas-te a mim, o teu corpo ainda nu deslizando pela cama até que a tua mão me agarra o pulso - "Não vás. Não saberia suportar o amanhã sem ti aqui." - "Não vou. Já te disse que o amor não morre e também não saberia como existir sem o teu sorriso." - Puxas-me de volta à cama, não como quem têm fome de mim, apesar da insistência das tuas mãos, da forma dos teus seios que me apontam direitos ao coração, do remexer das tuas ancas nos lençóis, não, puxas-me com um calor que não é esse dos corpos que se conhecem e dançam juntos a mesma musica mas o calor de uma alma que já não existe fora de um nós que somos toda a existência num só beijo. Deixo-me arrastar para baixo, para junto de ti, pego-te, os braços de volta dos ombros, a minha pele parecendo que se estica para tocar em mais da tua, enfio o meu nariz no teu cabelo e choro, sem tristeza. "Não te vou deixar, és demasiado de mim." - "Amo-te" dizes, a tua boca colada ao meu peito - "Amo-te" - repetes, como se eu pudesse não ter ouvido, como se eu pudesse não o saber - "Amo-te" - respondo, e levo os meus lábios aos teus, tocando-os levemente e lentamente abrindo-os, beijando-te como se beijava no liceu, com fome de provar toda a tua boca, as minhas calças já nas tuas mãos, saindo antes sequer de terem sido postas completamente, os teus braços despindo-me e os teus lábios beijando-me e o teu respirar embalando-me para dentro de ti. Fizemos amor, com paixão, carinho, os nossos corpos suados numa perfeita sintonia de pequenos gemidos e respiração ofegante, dançando uma valsa a que só os deuses assistiram - "Amo-te" - digo de novo, e depois repito-o, duas, três, quatro vezes, a voz transformando-se num sussurro quase inaudível que acompanha o teu suave ressonar, a tua cabeça pousada no meu peito como se eu fosse uma almofada confortável, os teus olhos fechados e esse sorriso sempre na ponta dos teus lábios, dizendo-me - "Sabes, acho que o amor nunca morre."

Friday, 15 January 2021

manhã [incompleto]

 fomos uma manhã de segunda-feira, desperdiçada em cafés e fingir que estávamos acordados que chegue para trabalhar. Devíamos ter sido uma tarde de sexta, para aproveitarmos toda aquela força de ter o fim de semana a chegar mas não. 

Já era quase de noite, quando tropecei no teu riso quase estridente numa rua perdida no meio da aldeia e as horas não perdoaram o espaço que demorou o meu passo a encontrar o teu. Tivesse eu voltado atrás quando pelo ombro te vi os olhos a brilharem à luz meio enevoada do sol, em vez de ter seguido por aquela rua idiota, mão dada com um espantalho, e teria sido tudo diferente. Pergunto-me que foi que viste em mim, no meu andar, no meu olhar, no meu ser que te puxou, que te fez olhar na minha direcção enquanto eu olhava na tua, aquele primeiro cruzar de olhos que tão fatídico se tornou meses depois.


Wednesday, 5 August 2020

último

Alberto nunca mais escreveu um poema. Claro que o hábito de anos aparecia volta e meia e Alberto tinha de puxar do caderninho e de uma caneta para apontar três ou quatro palavras, soltas ou não, mas resistia sempre ao impulso de continuar e escrever uma quadra que depressa se tornariam duas três e por aí fora à medida que o poema deixava de ser seu e passava a existir como se tivesse vida própria.
 Algumas vezes acordou a meio da noite, encharcado em suor e com um verso a bater dentro da cabeça e combatendo valorosamente o desejo foi até à bacia enfiar a cara bem fundo na água gelada, até que o poema nascente se aborta-se em si.
 Anos mais tarde perguntaram-lhe uma vez se ele seria o mesmo Aberto Sobral que tinha escrito _aquele_ poema, _aquelas_ palavras que ressoavam ainda dentro de algumas almas mas ele fingia sempre que não, com algum embaraço por mentir das primeiras vezes, mas depois habituou-se a mais essa pequena traição à sua alma de poeta que tanto sofrimento lhe causara.
 Tinha começado como um amor de verão, daqueles que se querem sem consequência nem sequela, conhecerá o rapaz, como sempre acontece nestas coisas, por acaso. Umas amigas tinham-lhe marcado um encontro com um conhecido delas, crítico de literatura e professor de uma qualquer universidade, Alberto se alguma vez chegou a decorar qual há muito que o esquecera, recentemente solteiro e saído da prisão de um casamento sem amor e sem desejo. Alberto tinha-se banhado e vestido em tempo quase recorde com a excitação de ir conhecer alguém novo e, tudo apontava, interessante e deu por si fora da porta de casa horas antes do suposto, e por isso deambulou pelas ruas um pouco até parar numa esplanada junto à marginal para beber um café ou uma aguardente ou ambos. Nem tinha reparado no rapaz sentado na cadeira ao lado até depois de beber o café e estar a preparar um cigarro para fumar, quando ao seu ouvido sentiu uma voz que o fez estremecer por dentro, ou pelo menos ele assim o conta, pedindo-lhe educadamente a gentileza de um isqueiro para acender o seu cigarro.
 Não chegou a ir ao encontro e não voltou a casa nos próximos cinco dias, embrenhado em paixão e poesia, o rapaz era, nas suas próprias palavras, o maior fã de Alberto de todos e atingia um auge quase sexual só de o ver a escrever. Por sua vez Alberto sentia que tinha encontrado a sua musa, como se Renato tivesse saído directamente das águas de um qualquer rio grego para os seus braços, carregando em si a água ainda nova que os poetas clássicos haviam bebido. Debitava sonetos com uma agressividade quase bruta, chegando mesmo a rasgar algumas folhas na pressa de fazer chegar ao papel tudo quanto lhe transbordava. Renato atendia a todas as suas necessidades e só lhe permitia abandonar as folhas de papel para que ele fosse até à cama, e assim que Alberto se libertava da tensão erótica, voltava ao papel e escrevia, verso atrás de verso atrás de verso, comendo e bebendo apenas nos intervalos entre um poema e o próximo. Trocaram juras de amor eterno e fizeram planos para um futuro a dois, assim que a sociedade os deixasse fazê-lo, com direito a uma casinha nos montes e um pequeno cão que os seguiria para todo o lado.
  Ao sexto dia, quando as férias de Renato acabaram, voltou a casa com 600 páginas que nem chegou a rever antes de as enfiar num envelope para que fossem tipografadas e as poder entregar para publicação. 
  Voltou ao fim do dia e manteve essa rotina durante mais uma semana. Um sábado Renato avisou-o que nessa tarde teria de tratar de uns assuntos e por isso Alberto teria de ir para casa mas prometeu que lhe ligaria depois a combinar o próximo encontro. Alberto estava já a meio caminho de casa quando se apercebeu que deixará a sua caneta preferida em casa de Renato e voltou atrás. Quis o destino que chegasse ao portão à mesma altura que a mulher e a filha de Renato, que estavam a ser comprimentadas com um beijo cada. Alberto tentou ser pragmático, e pediu educadamente a Renato para lhe dar uma palavra rápida. Renato virou-lhe as costas e Alberto ouviu dizer à mulher :
   "É um paneleirote a quem cometi o erro de pedir lume no café o outro dia, o idiota deve ter achado que pego de empurrão como ele, não me largou durante o resto do tempo".
   Alberto chorou copiosamente até casa e dois meses depois quando recebeu a carta aceitando para publicação o Paraíso dos Sentidos, respondeu que o nome teria de ser mudado para Inferno da Emoção e exigiu que na última página antes do índice fosse incluindo um outro poema, intitulado "o fim". O editor não acreditou no que Alberto prometera nessas curtas cinco linhas, tão diferentes do estilo de tudo o resto e aceitou, relutante, as alterações de última hora achando que acabara de publicar o primeiro de muitos outros clássicos modernos da poesia, mas Alberto manteve-se fiel às suas palavras:

último:
(a R.)

no teu peito ergui meu castelo
mas tu o desmoronas em egoísmo
cabe-te então carregar a cruz
de saber que depois de te perder
não voltarei a escrever.

Friday, 26 June 2020

Colher

Havia uma colher de sopa que detestava sopa. A textura e o sabor da sopa, qualquer sopa, quando ela lhe passava sobre a pele metálica fazia-lhe.. Confusão, irritação, asco, nojo, impressão.. Ela nunca conseguiu decidir qual a palavra certa para descrever a sensação (o que não é de todo estranho ou incomum numa colher, não são e nunca foram conhecidos por ser especialmente fluentes ou dotados de vasto vocabulário. A uma colher não se quer nem deseja particular capacidade intelectual).
Soubesse a pequena placa de metal que seria prensada numa colher antes de o ser (algo no complicado processo de abençoamento reage melhor a matéria prima, nos casos de objectos compostos de um só material (várias tentativas foram realizadas para juntar mais de uma alma num só objecto, mas até coisas simples como um lápis eventualmente quebravam e rebentavam em revoluções internas, inutilizando-se no processo)) e ter-se-ia revoltado, berrado tão alto quanto possível. Mas não soube. Sabia que odiava sopa ainda antes de a provar, mas só percebeu que sentimento era esse que quase a corroía meses mais tarde (meses mais tarde pois passou ainda bastante tempo numa prateleira de um qualquer supermercado regional à espera de um cliente que a levasse (vários grupos de Direitos dos Objetos Abençoados Com Alma tinham já longamente chamado a atenção tanto para o direito à escolha de todos os O.A.C.A.s monomateriais a serem o que desejam ser como para a injustiça que era os OACA-mms Talheres (a nomenclatura usada para falar de objectos abençoados com alma era ainda extremamente recente, até poucos anos antes nunca ninguém havia tido tempo para se preocupar com eles o suficiente para os distinguir dos objetos sem alma) serem todos vendidos numa grande caixa com separadores individuais, obrigando-os a sofrerem sós o período que a recem-criada nomenclatura designara de "Período de Espera Pré-Escravatura", o PEPE, lê-se pêpe)).
 Durante todo o seu PEPE solitário a já colher sofreu uma ansiedade imensa, porque algo que sabia ser importante, grave, pesado (mais uma vez era uma palavra que ela não conseguia escolher) lhe doía mesmo no fundo da alma. De certa forma ela até agradeceu quando pela primeira vez, quase uma semana depois de ter sido comprada, foi pela primeira vez usada. Foi o pior momento da sua vida, saber que iria para sempre detestar a razão da sua existência mas ao menos tempo sentiu algo que não saberia dizer ser alívio (vocabulário curto, uma vez mais) mas que o era, finalmente percebeu que dor sentia, o que era aquele sofrimento que lhe esmagava a alma desde que primeiro fora abençoada.

Thursday, 20 February 2020

freedom

He runs, vigorously through the plantation's fields. The clock just banged six and the train will be passing the deep woods soon. He has but one chance, tomorrow the master will have returned and found the dead foreman, he will be lashed if not hanged for certain. The master always punishes him first. Thoughts run through his mind as he runs through the corn knobs, the first trees approaching and freedom just a train ride away. It has been planned, it has been decided, it has been prepared, all will happen as the Lord wills it, and the Lord surely wants his freedom. The trees grow less sparse and the ground more uneven, less than a mile to the tracks, he runs faster if faster is even possible, jumping logs and roots, dodging branches and looking always forward, towards the tracks he can't see, only sense. The night is calm all around him, no sounds but his footsteps on the dead leaves, the air feels paralyzed as he cuts it with his lean, muscular, well shaped body, years of work on it. The old used shirt hides the scars of the beatings, master always was careful not to hit his slaves on any visible place as that would lower their market value, he used to say, he will still say. He runs no more, the tracks are at his feet, the log he cut at his side. Pushing it into the track is no great workout for someone as used to carrying burdens as him, hiding on the right tree also a easy task, the hardest part was already behind him, now he only has to wait and jump. He thinks of all those he will leave behind. Maybe he can return, the war is approaching soon and he will be on the right side of it. His fantasies of killing master, dressed in the pretty uniforms of the Northern soldiers are interrupted by the long awaited trepidation of the tracks, the train comes finally, the five-thirty-five cargo is soaring through the endless plantations, the fields where uncountable brothers and sisters of his lost their lives, their dignity, their humanity. Soon he will be free. The white round light of hope starts shinning down the tracks, ir screams of freedom, his voice a mechanical thundering roar. The train is now within eyesight and he lets a small prayer out that the driver sees the log, and God answers in the form of a miracle, the miracle of freedom, he thinks, as the train comes to a full stop. In the dark he runs towards a carriage, slowly opening a door and jumping inside. He closes the door, careful not to make noise, even if the roaring of the great steam engine silences anything. He hides behind the crates and, for the first time in hours, breathes easily, his freedom a few stops away.

Monday, 17 June 2019

luz

Não havia luz, só a escuridão que os envolvia num abraço que tudo apagava da existência que não fosse a pele dela nele a pele dele nela os lábios sedentos procurando onde lamber beijar trincar morder e as mãos, a agarrar, puxar, segurar, acariciar, arranhar. Não havia luz, na cama, no quarto, na casa, se lhes perguntassem diriam que não existia luz em lado nenhum que não os olhos um do outro, que não existia calor que não a pele do outro, que não existia universo que fosse mais longe do que o braço esticado do outro. Não havia luz, porem, eles olhavam-se, conhecendo-se já os segredos da cara e do corpo, sabendo os detalhes de cada curva, cada cova, cada dedo, cada um dos centímetros, triangulares, quadrados ou prísmeos dos seus corpos. Não havia luz mas ele estica a mão e acaricia-lhe a cara, um gentil, leve, suave, carinhoso gesto a que ela corresponde com um quase ronronar de gato um, impercetível para toda a gente menos ele, estremecer de corpo inteiro. Não havia luz mas ela rebola para cima dele e aterra perfeita nos braços dele, o cabelo repousado no peito como quem tenta ouvir o bater do coração e as mãos tocando-lhe em admiração. Não havia luz mas ele via-lhe o sorriso, sentia o peso da admiração do amor da paixão do calor que vinha dos olhos de ela, mesmo que não os conseguisse ver, sentia. Não havia luz, ali na escuridão do sonho onde tudo ainda é e para sempre é, perfeito.

Tuesday, 11 June 2019

cambaleante

...escorregava avenida abaixo, os passos tortos, trocados, cansados, gastos. Olhava em frente sem ver nada, os olhos perdidos num sonho embriagado e os lábios falando sozinhos, repetindo um nome, sempre o mesmo nome, vezes e vezes e vezes sem conta, como quem chama, como quem chora, como quem ama, como quem odeia, como quem canta, o mesmo nome, repetido em todas as entoações, sempre a meia voz, tão de surdina que quem por ele passava mal ouvia, ouvia apenas a sugestão do som do nome, mas ele não o dizia para quem passava mas sim para a face que via no seu sonho acordado. Era cedo e as pessoas transportavam aquela cara de segunda-feira de manhã, aquele peso de antecipação da semana inteira às costas. Desviavam-se dele, as pessoas, algumas por nojo mas outras demasiado automaticamente para sentirem o cheiro a urina seca, para repararem no vomitado que lhe cobria as pontas dos sapatos, nas folhas e flores enfiadas nos cabelos. Mas desviavam-se, deixavam-no prosseguir em direcção à miragem que apenas ele via, lá ao fundo da avenida e ele ia, escorregando alcatrão passeio alcatrão passeio abaixo.

Friday, 24 May 2019

título

 Nada devia à beleza, os traços de estátua grega da cara, o cabelo longo apanhado num rabo de cavalo que reflectia o brilho do sol e os olhos daquele verde azul acastanhado com laivos de amarelo, tão caóticos como tudo o resto nele. Mas os traços estavam carregados de mais, o cabelo começava a encher-se de branco e os olhos carregados fundo na cara, enterrando-se numa idade que ainda não tinham. Consumido pelo tempo, nele andava sempre aquele ar cansado e velho, como se o peso de cada ano houvesse sido o dobro de si mesmo.
 Tossia com frequência, aquelas tosses profundas que parecem ameaçar sempre a vinda de um pulmão atrás da expectoração, o seu corpo magro a torcer como uma toalha ao vento e a ameaça de lágrimas nos cantos dos olhos e o cigarro fortemente preso entre o indicador e o dedo médio carregados de manchas amarelas. A tosse passa, limpa os olhos com a manga esquerda do casaco e enfia de novo o cigarro na boca, puxa mais um bocado de alcatrão e nicotina e dióxidos e trióxidos de carbonos vários pela garganta abaixo.
 Os passos levam-no pela rua abaixo, em Lisboa é sempre rua abaixo ou rua acima, parece não existir uma única rua horizontal em toda a cidade, olhos escondidos debaixo das lentes pretas de uns óculos de sol desnecessários neste tempo sujo. Acaba o cigarro, atirando a beata para uma sarjeta, e levanta as lentes do chão, olhando em volta. Ao fundo, mais uns dez passos, um café. Dirige-se, com propósito, até lá e entra. O café está vazio, excepto um velho que lê o jornal a um canto e a senhora, meia idade, mais gorda que magra e com aquele corte de cabelo que já não é comprido mas ainda não é curto, que está atrás do balcão lavando, sabe deus por qual milésima vez, um copo de imperial.
 Ele tosse, como quem prepara a garganta para falar após um período de silencio, e pede um café e um copo de tinto. Agarra nos dois vai sentar-se na única mesa lá fora, olhando em direcção aos prédios que escondem o rio.
 Bebe o café de um trago, dá o ultimo bafo do cigarro que acendera ao chegar lá fora, apagando a beata no cinzeiro de metal. Levanta o copo, como quem faz um brinde e parece murmurar algo inaudível antes de o levar à boca e esvaziar num só movimento. Olhando para dentro repara na mulher olhando-o. Sorri e faz sinal, a apontar o copo vazio, pedindo mais um. Do bolso sai um pequeno caderno, de outro bolso uma caneta, da cara os óculos de sol. Tudo sobre a mesa enquanto recolhe da mão da senhora o novo copo. O caderno fica aberto sobre a mesa, uma folha branca à excepção de uma só palavra, ao topo, ao centro, um titulo. A caneta na mão as vezes descendo quase até à folha mas o movimento pára sempre antes que tinta e papel se juntem e a caneta sobe de novo e ele olha mais um pouco e frente e depois num gesto brusco, furioso, volta a cair quase até à folha e de novo detém-se, milímetros antes de a tocar.
 Ele suspira, pousa a caneta e fuma mais um cigarro, bebe mais um pouco do vinho, pela primeira vez como se o provasse. Acabado o cigarro e o copo, o caderno volta ao bolso, a caneta a outro bolso, o maço do tabaco a outro bolso. Entra, levando o copo sujo e pergunta quanto deve, qual a despesa. Paga com moedas, e vira costas e sai antes que a senhora tenha tempo de devolver os 10 cêntimos a mais que deixou. Olha de relance rua acima mas nem parece que os seus olhos se fixem em coisa nenhuma. Desce de novo, mais rápido que antes como se o vinho o tivesse recordado de algo urgente para fazer. Não fuma, as mãos vão enfiadas fundo nos bolsos, os óculos de sol de novo na cara, e vira a esquina e desaparece.
 Um dia talvez volte aquele café e peça mais um copo de vinho, um dia talvez acabe o que tentava escrever, um dia talvez apareça com um sorriso na cara ao fundo da rua e o transporte consigo, usando-o com mais orgulho ainda que aquele com que usa os óculos e o cabelo.

Thursday, 2 May 2019

Ressaca

Largou a bebida mas a ressaca, essa nunca o largou. O sabor a deserto na boca, o peso dos anos no corpo, a cabeça a latejar arrebentando de tudo. Todos os dias se erguia a custo da cama, atropelado pela vida e pelo peso dos anos, as pernas parecendo-lhe elefantinas os braços de chumbo, o peito como que rijo, diafragma solidificado no lugar até que o primeiro ataque de tosse comece e o liberte espasmodicamente.
 Respira a custo, inspira umas quatro oito vezes e regulariza-se o input/output de ar lembrando-o do resto das dores, as pernas, finas como estacas, pesadas como colunatas gregas, músculos doridos e movimentos fracos descoordenados: senta-se na cama e enrola um cigarro, de olhos quase fechados, tacteando à procura das coisas na semiluz que escapa dos estores tão fechados quanto os longos anos sem reparações os permitem estar.
  De pés no chão e cigarro na boca, aceso, empurra-se para fora da cama, para longe do único sitio onde ainda se sente realmente bem. Arrasta-se até a cozinha, prepara uma caneca de café, forte, sem açúcar, bebe-o de um trago ainda antes de acabar o cigarro. Deixa a beata caída na sanita e passa a cara por água fria para limpar os medos e suores e frios da noite de pesadelos. Quando acaba de se vestir, não fora as olheiras e ninguém o consideraria menos do que um membro respeitável da sociedade. Certos dias isso diverte-o, noutros irrita-o ou entristece-o mas na maior parte dos dias, nem pensa nessas coisas. Aparar a barba, pentear o cabelo, remover os pelos do nariz e das orelhas, vestir o fato e gravata da praxe. Tudo isso é automático, tão parte do ritual matinal como as dores e o cigarro. Faz outro, em casa fuma sempre de enrolar para poupar dinheiro, porque gosta do controlo que tem sobre a quantidade e o tamanho ou apenas porque gosta do sabor. Cigarro no canto da boca, agarra as chaves, mete os óculos de sol, olha em volta do quarto para ter a certeza de não se ter esquecido de nada e sai casa fora, passeando a ressaca e o cansaço que já fazem parte de si.
 Amanhã, acordará de novo de ressaca e fumará mais um cigarro após o ataque de tosse e no dia seguinte e no dia seguinte  e no dia seguinte, até que um dia não acordará ou o ataque será tão forte que tossirá até os pulmões ou não chegará sequer a casa, interrompido o seu sofrimento por um autocarro conduzido por um motorista que, ao contrario dele, nunca largou a bebida e por isso nunca encontrou a ressaca de existir.

Wednesday, 27 March 2019

homem

vemos-nos todos os dias no autocarro. Quase todos. Há uns dias em que não o vejo e pergunto-me sempre se ele terá sido despedido, sempre com aquele fato velho, coçado, gasto. Enrola sempre um cigarro ao passar pelas ruínas da velha fábrica. Seria uma fábrica de que, não sei, já eram ruínas antes de lá passar pela primeira vez. Ele levanta-se, sempre na mesma altura, como se fosse um ritual que têm de cumprir, cigarro recém-feito, perfeitamente feito, parecendo quase um daqueles de maço, ele deve fumar tabaco de enrolar há muitos anos. Não sei dizer-lhe a idade, andará talvez pelos trinta, mas poderá ser mais um pouco ou menos um pouco. Nunca lhe ouvi a voz, está quase sempre ao telefone, quando não lê um livro velho qualquer, mas só escreve. Há dias em que tenho a certeza que troca mensagens com alguém que ama, os olhos dele sorriem nesses dias, sorriem cheios de luz e eu sinto uma inveja desmedida ao vê-lo assim, porque nenhuns olhos se iluminam assim quando lhes mando mensagens. Porque nunca fiz ninguém sorrir como ele sorri quando o telefone dele vibra, quase silenciosamente, na sua mão. Levanta-se, como sempre, o cigarro nos lábios, as mãos segurando os postes, o cabelo desalinhado caindo sobre os ombros, a mochila meio a tiracolo sempre a um milímetro de cair braço abaixo, aquele sorriso que tanto invejo nos olhos. O autocarro pára, ele aproxima-se da porta em pequenos passos largos e assim que ela se abre, ele dá um pequeno salto, pára logo ali na paragem e procura um isqueiro no bolso. Raramente o vejo a acender o cigarro, o autocarro acaba sempre por partir antes disso. E eu, olhando-o e invejando-o, esse homem que nunca conheci mas vejo todos os dias, fico a olhar para a feia paisagem industrial, a caminho do trabalho e a sonhar com um dia ter um sorriso como o que ele carrega naquele dias bons.

Monday, 4 March 2019

saudades

Escrevo-te as minhas saudades onde nunca as irás ler, poemas para que a página os tenha e não para que alguém os leia. Deixo-te beijos em todo o lado, sabendo que não os irás ver. Pinto flores no teu cabelo, vejo-as florir, desabrochar, rebentar numa explosão de cores e cheiros, murchar, cair, desaparecerem. Sonho o teu sorriso, com outros ao meu lado, toco-te a pele nas bochechas de outra face, beijo-te os lábios, sofregamente, ardente, apaixonado. Mas ao abrir os olhos outros me olham e a vergonha ganha-me, a tristeza de me saber ainda teu quando tu não és minha. Quanto custa ter-te apenas como a memória de ti... Existes em tudo o que faço, oxigénio da minha atmosfera, casa, castelo do meu pensar. Quero esquecer-te, apago os traços da tua cara com outras caras, o sabor do teu nome com carnais oralidades, o toque da tua pele com mamas e caralhos e conas, mas debaixo de fluídos e suor e os gemidos de prazer, ainda te sinto subcutânea, entranhada em mim, a correr nas minhas veias e a fazer bater o meu coração. Vejo-te, saia preta, top simples, sem maquilhagem a esconder as pequenas rugas, a tua cara tal como foi oferecida ao mundo. Vestes, mais do que a roupa no corpo, o sorriso. Aquele maldito sorriso. Aquela luz que ilumina a mais escura das escuridões que há em mim. Aquele abismo onde me perdi e perderei e perco ainda só de o sentir longe de mim. Chamo-te, a essa visão de ti, fantasma insubstancial que parece perseguir-me para todo o lado, pelo teu nome, esse que não gostas e no entanto é tão doce nos meus lábios. Aquele que me ensinaste, qual código secreto, password de prazer em ti. Oiço-te responder, mas a tua voz é sempre triste, carregada de toda a beleza das ruínas, e o meu nome que nos teus lábios já me levou ao êxtase, arrasta-me para longe da ilusão, esbofeteia-me no amor que ainda te guardo, pontapeia-me na esperança e pega fogo à paz que a tanto custo consegui resgatar para mim nuns braços que não teus, numa cama que não a nossa, num beijo que quase me faz esquecer que é a ti, e apenas a ti, que desejo beijar.
 Escrevo-te aqui, onde nunca me irás ler, as tuas batalhas são tuas para travar e nas minhas só eu posso lutar.

Sunday, 17 February 2019

método

o poeta, para escrever-se triste necessita de sentir essa tristeza. E para isso relê uma carta de rompimento de noivado, enquanto escuta musica melancólica a tocar em quase altos berros para que lhe afogue a mente com o sentimento e pensa em todas as lágrimas que derramou e conta-as! uma a uma, fecha os olhos para a ver cair : uma gota transparente de agua salgada correndo face abaixo, e o poeta aproxima-se da gota e vê no reflexo a miragem de um momento. Abrindo suavemente a boca, recolhe a lágrima na língua e saboreia-a, sentindo uns lábios há muito perdidos, o sabor da brisa marinha na cara, uma ultima refeição frente a frente... E nova lágrima cai, assim que o poeta deglute a primeira, e ele olha-a, cheira-a, prova-a, retira dela tristeza como nutriente para alimentar a tristeza que quer escrever. E uma lágrima lhe dirá, ao ouvido, sussurrante e sedutora : usa-me. Espalha-me no papel. Faz de mim um poema. E o poeta acede, e o poeta corre frenético em busca de um papel, de uma caneta, de um computador, de maquina de escrever, de uma tabuleta de pedra e de um cinzel. E, focando todo o seu ser naquela lágrima, o poeta fecha os olhos e escreve. E escreve-se triste, porque quando o poeta escreve aquela lágrima, o poeta vive-a de novo, sente em si toda a alegria cujo vazio criou a lágrima e todo o vazio o enche de palavras e ele escreve. E escreve até se esquecer das horas da comida da agua do dia da semana ou do mês do ano, só existe aquela lágrima e a amostra de mundo que existe dentro dela. Um ciclo de fotografias sobre uma voz que narra em versos que o poeta escreve, de tal modo possuído pela lembrança da tristeza que ele já não é o poeta mas a tristeza, ele já não escreve, existe-se a si mesmo como tristeza e derrama-se como lágrimas de palavras sobre o papel. Abandonada a sua alma e o seu corpo, o poeta voa sobre as palavras e como deus arranja e rearranja-as e corre em redor do tudo até que a lágrima se parte como espelho contra a parede e no meio do quarto, suado, transpirado e perspirado volta a si, a musica silenciada e de dentro da poça de lágrimas que lhe banha os pés nasce uma fina mesa de pé, e lá, pousado sobre ela, o Poema nascente.

Friday, 8 February 2019

inexistimos

no empalar das horas, estrebuchando no chão, víamos passar o que nunca fomos.
Sem o saber, fomos cuspidos para o chão por uma qualquer diva de um tempo perdido, como um espaço em branco entre duas notas. Sonhávamos com aquilo que nunca poderíamos ter, sabendo que, certamente, o iríamos conseguir alcançar. Não encontrando em nós forças para continuar a ser, decidimos desistir de toda e qualquer tentativa de sonhar. Hoje, vivemos apenas para pagar as dividas que nossos pais nos deixaram e aumentar aquelas que deixaremos aos nossos filhos. Ah o mal do mundo é ser mundo, tal como o mal do homem, é ser homem. Se nada fossemos, nada nos afectaria, e poderíamos, livres, estrebuchar no alheamento inerente à condição de nada sermos. A fama, meus amigos, é algo que se conquista. A dor, meus inimigos, é algo que oferecemos livremente a quem a quiser aceitar. Lembrai-vos, bíblicos seres que habitam este mundo cruel, que a dor é nossa, apenas se a quisermos. Nada que não desejemos nos poderá fazer sofrer. Ah quão bom é achar na dor apenas um estado de espírito e não ver nela a sua verdadeira essência : um modo de vida. Consumidos pela ganancia verde, somos cinzentos ao passar pela estrada negra da vida.(e aqui eis a verdadeira razão por detrás de tudo. Nada ser é tudo quanto faz tudo o que é, ser.).
Não, nunca fomos de verdade. No entanto, e sabendo quão frágil é a realidade, nada do que se diz pode fazer sentido. Eu não sou mais do que a sombra dos sonhos que tive num passado distante, e não desejo mais do que um dia, vir a fazer sombra aos sonhos que sonhei. Num mundo gélido, apenas o sol tocando-nos, quase eroticamente, nas costas, é real. Acreditem-me. Eu sei. E o amor. O amor.. Que dizer dele? É um Deus, num mundo onde os deuses morreram, um sonho, num mundo que perdeu o dom de sonhar, dinheiro para um pobre, e alegria para um rico. Sou feliz apenas por saber que poderia ser bem mais infeliz, ou serei infeliz apenas por saber que poderia ser bem mais feliz? Nada importa, bem vistas as coisas, porque no fundo, bem lá no fundo, onde realmente interessa:
não fomos.

[18|05|2006]

Tuesday, 5 February 2019

existência

eu não existo, sou apenas o passar do vento nas tuas folhas, o cair da noite de fora dos estores já fechados, o arrepio que te passa na espinha quando estás à porta de um cemitério, a outra pessoa que já não importa. Eu não existo, sou a cerveja que já esteve num copo agora vazio, a cinza que já foi um cigarro, o invólucro de um preservativo caído algures atrás de um armário. Eu não existo, sou o fosso entre duas escarpas, as flores debaixo do cimento de um parque de estacionamento, todas as palavras do dicionário que nunca são usadas. Eu não existo, fui o último dos sois nascentes antes da morte do universo, fui o poema que ninguém escreveu e ninguém irá escrever, fui Genghis Khan no leito de morte, fui o testamento de Napoleão, rasgado na hora da sua morte. Eu não existo, sou o 6o cavaleiro do apocalipse, sou  6o elemento, a 6a quina na bandeira de Portugal. Eu não existo, sou aquele match sem resposta no tinder, aquele pedido de amizade enviado há anos, um 404 na página que procuras. Eu não existo, mas há dias que sofro porque já acreditei que existia.

Tuesday, 29 January 2019

extinção

 Não saberia dizer quantas horas já tinham passado, os números no relógio já nada me diziam, se os conseguisse ainda ver por detrás da cortina de lágrimas que me escorria da cara. Ainda assim, eu esperava. Uma ultima centelha de esperança brilhava ainda dentro de mim, lutando com coragem contra a tempestade de negatividade que me percorria as veias aquecendo-me com o calor da raiva. Como uma vela deixada no alpendre numa tarde chuvosa, a centelha ameaçava apagar-se a qualquer instante. Concentrei-me nela, nessa réstia de luz no centro de um turbilhão de escuridão, tentando dar-lhe mais alento, tentando que ela se erguesse e consumisse os farrapos de sombra e, qual alquimista do século XIV, os transmutasse em mais esperança. Gritei, se com o corpo ou apenas o espírito não tenho maneira de o saber, tentando libertar alguma da raiva mas se alguma saiu, outra como ela imediatamente ocupou o seu lugar e nada se alterou ainda. Esperava, e aquele pequeno sol de fé em mim ia sendo engolido pelo buraco negro da duvida, lentamente, raio a raio, extinguindo-se um pouco mais a cada bater dos ponteiros do relógio que não via, ofuscado pelas lágrimas que escorriam sem parar por mais esforços que eu fizesse para me controlar. Triste visão seria certamente a de mim, roupas sujas e velhas, gastas pelo tempo e rasgadas por mim em fúria. Encolhido a um canto, barba por fazer e cabelo tão emaranhado que julgaria impossível algum dia o pentear de novo. Encolhido a um canto, lavado em lágrimas, baloiçando-me frente e trás, murmurando o nome da esperança em soluços que se convertiam, impiedosamente, em convulsões de tosse e expectoração, como se toda a escuridão que me consumia por dentro me chegasse aos pulmões e me impedisse de respirar como devia. Eventualmente deixei de sentir o tempo, deixei de sentir as lágrimas, deixei de sentir a raiva ou a escuridão. Senti apenas a esperança, aquela minúscula centelha dela a brilhar mais forte por um segundo apenas para se extinguir para sempre deixando-me sem dor, sem lágrimas, sem nada excepto a escuridão que me enche. Nada sinto e nada choro, nunca mais. 

Mas quem para sempre perde as lágrimas dos olhos perde também para sempre o sorriso dos lábios.

Thursday, 27 December 2018

lágrima

Ontem, quando ainda era inverno, deixei-te deitada na cama dormindo descansada e levantei-me, lavei-me limpei em mim o cheiro da noite e sai porta fora rumo ao dia que nascia. Hoje regresso e a primavera já se fez homem, a cama está vazia e a roupa que vestias atirada a um canto. Dentro do armário apenas aquela camisola que te ofereci, há tantos anos atrás, quando o verão ainda o era e o outono não ameaçava chegar ainda. Cheira ainda a ti, sinto o perfume do outro lado da porta de madeira e a acidez do tempo cai-me dos olhos, uma poça de arrependimentos no chão a meus pés. Deito-me sem me despir na cama que tão bem conhecia o teu corpo e fico a ver as horas a passarem lentamente no tecto do quarto, coberto apenas por esta fina camada de não estares aqui. O teu fantasma paira sobre a cama e não sei se te sonho ou se ainda te tenho aqui incorpórea e ausente mas aqui, bailando como quem não me vê, os teus pés de fumo massajando-me o peito. Acordo, sobressaltado, olhos bem abertos para ver o vazio que enche a cama, a ausência com tanto peso que me esmaga e prende aos lençóis encharcados de suor. Arrasto-me para fora da cama e tiro a roupa, ritualmente vou pousando peça atrás de peça na cadeira, tudo perfeitamente dobrado. Sigo, nu, pela casa adentro como que num trance, até me descobrir dentro da banheira, água correndo sobre o meu corpo que esfrego e esfrego e esfrego até que a pele se rasgue e saia sangue. A banheira muda de cor e eu esfrego-me ainda, sobre o coração, tentando chegar lá dentro e limpa-lo também, remover-te de lá qual mancha radioactiva que me consome. Não dou por mim mesmo a morrer, sinto que fiquei a eternidade inteira a esfregar-me e que ainda o faço, apesar de olhar de cima para o meu corpo inerte na banheira que transborda da água vermelha que ira furar por entre as tábuas de madeira velha do chão e alertar os vizinhos. Em breve, tudo é rápido e instantâneo para quem já está fora do tempo, alguém telefonará à policia, os bombeiros virão e deitarão a baixo a porta e verão o meu corpo como o vejo agora. Talvez alguém te ligue, para que saibas o que aconteceu. Talvez já me tenhas esquecido e nem saberás de quem falam quando te contarem a minha morte. Talvez celebres, um copo daquele champanhe de que tanto gostas e umas fatias de um qualquer queijo importado que o teu novo namorado, rico, te comprou. Talvez derrames uma lágrima, uma apenas, em memória de todas as vezes que sorrimos um para o outro. Eu não estarei lá para ver.

Friday, 7 September 2018

bala

Uma bala. Provavelmente no coração, ela sempre foi muito boa no tiro ao alvo e apesar de me apontar agora a arma que me vai matar em breve, afirma que gosta da minha cara e não acredito que ela me desfigure com o tiro entre os olhos. Não importa, para dizer a verdade. É assim que eu morro, aqui, agora. Gostava de ter tempo de me despedir de toda a gente, mas não vou conseguir. Estamos a quilómetros de toda a civilização, e duvido que mesmo fora deste armazém abandonado, penso que seria uma antiga fabrica de tijolos ou telhas ou ambas, se irá ouvir o tiro. A arma não tem silenciador, não faria sentido ter considerando que é suposto ser usada mais como uma ameaça do que uma arma, e se não fizesse barulho de um tiro ao disparar para ao céu, seria inútil. Não sei se ela irá chorar depois. Acredito, quero acreditar, que sim. Chorar um pouco, limpar as impressões digitais da arma e depois atirar a mesma para o pântano por onde ainda há pouco passamos a caminho daqui. Foi pelo menos esse o conselho que eu lhe dei. Talvez não o siga, só para ser do contra. Sempre foi muito. Quantas vezes não tive de pegar numa enciclopédia para lhe provar que estava errada! E nalguns casos acabei por me provar a mim mesmo que quem estava errado era eu. Devo ter sorrido ao lembrar-me disto porque ela olhou-me com um ar estranho durante uns instantes, antes de timidamente, sorrir de volta. Até aqui, agora com a arma apontada a mim, o sorriso me enche o coração.
 "Estás pronto?"
 A voz dela treme ligeiramente, e a minha deve tremer também quando respondo
 "Tanto quanto possível, diria eu."
 "Desculpa, eu..."
 "Não fales. Não vale a pena. Eu sei. E sim, também eu te amo."
 Ela dispara. Tudo fica lento, vejo a bala a ser ejectada em fúria do cano da arma e lentamente a dirigir-se a mim, e sinto que um milhão de anos separam o clarão do estrondo e outro isso de sentir a bala a tocar-me a pele. Sinto-me penetrado, "acho que nunca fui tão mulher como agora" penso. Assim que a bala passar a pele e os ossos, e como dói!, ira bater no coração e numa fracção de segundo, estarei morto. Tento sorrir, não sei se o consegui, mas tentei. Gostava que ela se lembrasse de mim assim, a sorrir-lhe. Ah, a bala chega e eu..
vou.

Tuesday, 14 August 2018

Fábrica

uma parede de pequenas janelas, não maiores que vigias de um navio, em silêncio imóvel enquanto o sol nasce lentamente, enchendo de luz as sombrias ruas, quarteirões atrás de quarteirões de pequenas vigias em grandes paredes de cimento nu. trezentas vigias em cada parede, 150 para cada lado, 10 paredes por quarteirão, 20 quarteirões por bairro. O sol vai a meio caminho do céu e a sirene ouve-se, correndo à frente da luz. A primeira fila de cada parede abre-se, e de lá cambaleia para fora uma pessoa por vigia, arrastando-se até a estrutura branca que existe em frente a cada parede. Lá dentro enfiam-se noutra caixa e são lavados, esfregados, curados de ressacas constipações prisões de ventre e outras pequenas imperfeições no seu bem estar físico. Lá fora as paredes já puxaram as cápsulas casas vazias para cima e quando saiem, vestidos, banhados, injeção de cafeína tomada, barbados, os habitantes das mesmas das wcs matinais já a próxima leva entra por lá a dentro. O processo continua durante meia hora, até que todas as 60.000 pessoas que ali vivem estejam nas passadeiras que os levam até à fábrica. Grupos de 4000 chegam de cada vez e dirigem-se as suas bancas de trabalho, sentando-se, ligando-se ao seu terminal, pousando os feios, toscos capacetes de plástico na cabeça. Tudo é feito quase automaticamente por cada uma das pessoas. A grande maioria deles não disse ainda uma só palavra desde que acordou, e irá passar o dia assim. Quando começam a tocar as sirenes de turno, uma a cada 15 minutos, as luzes das bancas acendem-se e dentro do mundo virtual, cada uma das pessoas começa a existir realmente. Alguns passeiam pelas praias paradisíacas que já não existem na Terra, outros em históricos monumentos que foram cuidadosa e metódicamente fotografados, registados e guardados no virtual antes de demolidos para criar mais fábricas e mais muros. Outros passeiam pelas grandes cidades, incertos sobre a realidade daquelas casas em que cabia mais de uma pessoa, sobre aquelas ruas em que as pessoas não podiam andar por lá passarem carros. Outros navegavam nos mares de iodo de um qualquer planeta recém descoberto, outros jogam em casinos do tamanho de cidades. Outros outros, outros tantos outros como possibilidades. Cada fábrica emprega 240000 pessoas, 4 bairros por fábrica. Toda a terra, quase, uma fábrica gigante e pouco mais. Lá fora, em satélites mais ou menos naturais, alguém há de se aproveitar desse dinheiro que é criado, sem que ninguém saiba muito bem como, porque ou para que. Mas as pessoas continuam a acordar com a sirene, trabalhar até à próxima sirene, dormir e repetir.

Tuesday, 7 August 2018

férias

mas sem criar. absorver, esponja de histórias e conhecimentos e locais e sítios e estórias e factos e mitos, comer de tudo isso um pouco e deixar que a cabeça repousada os mastigue e rumine e digira, um caldo primordial, sopa da pedra de ideias e sons e palavras que serviremos no fim da refeição, empratada em papel sujo de pó de um qualquer caderno que conosco viajou.
descrever cada metro de linha do comboio como se o tivesse visto, como se tivesse olhado-o horas a fio contando as lâminas de relva, apontadas ao Céu, esperando talvez por aqueles que caem. escreverei-os exactamente como são, na minha memória que tenha deles, fraca, apagada, escura, cheia de detalhes quê não existiam lá e que por isso mesmo me são muito mais reais. contarei cada episódio, todos os montes subidos e os descidos, todos os mergulhos e todas as refeições! não esquecerei um único detalhe, até à cor dos olhos do quarto pescador (de lampreias) à esquerda na fila de baixo na foto pendurada no café da vila que não chegamos a encontrar. absorvemos então tudo, e mais tarde, suaremos e salivaremos sobre secretas sebentas sedentas de saber. come tudo o que te aparecer, vive o resto do ano inteiro nestas semanas, aproveita cada segundo e suga-lhe todos os milímetros de felicidade que neles encontrares, mas sem criar.

Wednesday, 14 March 2018

Mãe

Olho-me neste espelho de água, e ao focar os meus olhos no reflexo, vejo-te, mãe. Vejo-me tu, como sei que serei. Não quero ser tu, mãe, mas não posso fugir de ti em mim. A água treme, um pequeno suspiro hidráulico no espelho e volto a ser eu, reflectida. As rugas desaparecem e o meu sorriso nasce de novo dos cantos descaídos dos teus lábios. Já não sou tu, mãe, mas serei, em breve. Olharei-me noutro espelho e o peso dos anos será meu de novo, uma e outra e outra vez terei eu esse ar gasto, esses olhos tristes.  Não queira ser tu, mãe, não quero carregar também esse sofrimento que me dizes ser tudo o que te sobra, mãe. Essas rugas que exibes quase com orgulho, o orgulho de quem aguentou. Esse esgar de desafio com que cumprimentas o mundo, mãe, será meu também, ao olhar-me num espelho. Mas eu, mãe, quero ser eu e não tu. Eu quero ser a pessoa que sou e não o teu reflexo, mãe. Quero ser os meus lábios arqueados num sorriso e não abobadados num trejeito de infelicidade. Quero ser a minha testa lisa e não essa tiara de rugas. Quero ser o meu cabelo longo, escuro, solto, não esse carrapito branco no topo da cabeça, mãe. Quero não sofrer o mundo como tu o sofres, mãe. Quero olhar-me numa poça de água e ver-me a mim olhando-me de volta. Não quero ser tu mãe, quero ser eu, quero ver tudo com os meus olhos e não os teus, mãe. Mas, mãe, estarás sempre em todos os meus reflexos, como se fosse a tua a minha verdadeira cara, como se por debaixo do que sou eu existisse o que és tu, como se eu fosse nada, para além da imagem reflectida de ti, uma imagem que ficou presa dentro do tempo até que eu a olhei. Mãe, sei que serei tu, que eu não ficarei por aqui muito mais, já te sinto puxando-me o sorriso, enrugando-me a pele, as minhas mãos já custam a abrir e fechar, mãe, é assim que doem as tuas mãos? É assim, desfocado, assim cinzento, assim frio, que vês o mundo, mãe? Este frio que sinto, mãe, é teu também ou sou eu a fugir daquilo que sou? Mãe! Não quero ser tu, quero ser eu! Mas não me serve de nada lutar, mãe, sei que não posso fugir, não consigo fugir, estás dentro de mim e em breve, mãe, eu serei tu, o meu corpo estará velho e cansado como o teu, o meu cabelo branco e frágil, os meus olhos velhos, sem cor e sem brilho, a minha testa enrugada, as mãos fracas, os dentes caídos, as costas arqueadas e este sorriso quer me dizem ser eu, vai desaparecer. Mãe, quero fugir de ti, do futuro, do destino fado maldição mas, mãe, não posso fugir de ti porque já sou tu.

Tuesday, 6 March 2018

Do espaço entre as palavras


 é neste espaço, neste vazio que fica entre a letra que acaba uma palavra e a letra que começa a próxima, que existe o significado daquilo que se escreve. É o vazio entre os sons, o silêncio entre fonemas, que está realmente carregado de sentido. As palavras são, em si, ocas, sem qualquer peso ou substância, só letras atiradas ao papel que de nada servem e para nada servem. Mas nos espaços entre elas existe todo o universo. Um silêncio entre duas palavras comporta uma enciclopédia de possibilidades, uma possibilidade de tudo que uma palavra colapsará numa certeza de tão pouco quando ela abraçar.

Monday, 26 February 2018

Profeta

Há quem o chame de profeta, há quem o chame de herege. Há quem o considere louco e há quem nele veja o único que não o é. Ele diz-se Quid'Est, Aquele-Que-Está e pensa-se, alternativamente, Deus, anjo, profeta, demónio ou apenas maluco.

 Começara anos antes. Talvez cinco, dez ou vinte ninguém sabia ao certo. A quem vivia perto do monte parecia-lhe que ele sempre ali estivera, com a sua roupa velha mas ainda impecável, a sua barba comprida e os longos cabelos soltos, a sua voz calma e pesada murmurando e rezando. As crianças temiam-no, os adultos ignoravam-no e os idosos respeitavam-no, levando-lhe oferendas de comida semanalmente. Bom, alguns. Outros escreviam ao presidente da câmara pedindo-lhe que removesse dali o mendigo. Infelizmente para eles, o monte era propriedade privada e os donos do mesmo nunca fizeram qualquer questão de o remover de lá. Talvez por gostarem da ideia de ter um místico na sua propriedade ou porque com ele lá, ninguém se atrevia a assaltar a casa quase abandonada que lá mantinham. Os donos do terreno nunca confessaram a ninguém em qual das facções se encontravam, nem após a revelação, quando entrevistados por uma qualquer cadeia de televisão. Limitaram-se a dizer que como nunca tinham tido nenhuma razão de queixa com ele, o deixaram por lá ficar. Esse mesmo canal de televisão que tinha entrevistado, sem conseguir dai retirar grande coisa para uma manchete bombástica, os donos do terreno, em busca de um escândalo ou de uma tragédia para um cabeçalho daqueles que ficam em rodapé 90% do telejornal prendendo as pessoas ao ecrã na esperança de o entender, fizeram uma investigação a fundo (más línguas falam de contactos dentro da policia que teriam fornecido informação que deveria ser confidencial) e descobriram a história dele.

 Conseguiram, para grande felicidade do director de programação, não só um escândalo como também uma tragédia. O que, obviamente, levou a acesas discussões sobre qual o ângulo que deveriam explorar. Eventualmente o lado da tragédia ganhou, e o cabeçalho de rodapé foi "Passado trágico leva homem para o monte durante 10 anos". Na realidade, 10 anos foi uma invenção (ou para ser mais simpático, uma aproximação) feita a partir das datas da tragédia. Podiam ser até 15 anos. Ou apenas 5. O 10 foi escolhido por ser um numero bonito e como ninguém sabia de qualquer modo não lhes pareceu importante a exactidão. Anos mais tarde, ao analisar a situação com a sabedoria da idade avançada, o director de programas admitiria que "dezenas de anos" ou mesmo apenas "durante anos" mas também que era indiferente. A audiência desse telejornal fora a melhor do mês e esteve no topo das do ano, só batida pelas eleições.

 Não interessa qual a tragédia e muito menos qual o escândalo, basta saber que ele perdeu tudo o que tinha, família, bens, emprego, futuro. E ao encontrar-se assim, só, desesperado e sem muitas hipóteses de voltar a fazer parte da sociedade, graças ao escândalo, ele fugiu. Fugiu a pé, pelo pais adentro. E encontrou, num monte algures uma caverna onde se escondeu de tudo : da sociedade, da policia, dos jornais, até do seu nome. Se ele contasse algo sobre os primeiros tempos do seu exílio, contaria como passou os primeiros meses lavado em lágrimas, tremendo de medo e frio, amaldiçoando deuses e deusas em que nunca acreditou, rezando aos mesmos que tinha amaldiçoado e a outros novos que havia inventado só para os poder amaldiçoar de novo. Disse, berrando por vezes, sussurrando ou chorando noutras, todas as heresias quê conseguiu imaginar e recitou orações atrás de orações, umas curtas, de uma frase apenas, outras imensas de tal maneira que precisou de passar dias inteiros sem dormir para as terminar.

 ‎ Um dia, contaria ele se relatasse alguma vez os seus tormentos no exílio, acorda no silêncio eterno da caverna, olha o sol subindo devagar no céu e na sua cabeça, no seu coração corpo alma já nada dói. Existe apenas um vazio, um buraco de nada que lhe enche o tudo, um silêncio tão grande e eterno dentro como o de fora. Nesse dia, e naqueles que se seguiram, não se mexeu mais do que uma curta viagem até ao topo do monte, onde se senta, pernas cruzadas "à chinês" como convém a qualquer místico que se preze, e deixa-se ficar, esperando algo que nem ele sabia o quê. Passa uma semana assim, comendo apenas ao fim do dia um pedaço das suas cada vez mais parcas reservas. Contou 7 nascimentos e 7 mortes do sol antes que algo acontecesse. Ao acordar com o oitavo nascimento, no vazio absoluto que carregava em si, a primeira palavra apareceu : "Deus". Repetiu os dias anteriores e a cada nascimento uma nova palavra "sou", "eu", "em", "mim", "está". Ao décimo quarto dia nenhuma nova palavra se juntou as outras, nem ao décimo quinto. Ao décimo sexto morrer do sol percebeu que não viriam mais palavras assim e após um breve período em que sentiu algo que antes teria sabido identificar como frustração mas para que agora já não tinha palavra que descrevesse, meditou sobre a frase que se tinha tornado o total do seu conhecimento : "Deus sou eu, em mim está". "O que está?" Perguntou-se, vezes e vezes sem conta até que, com uma gargalhada que ecoou na caverna percebeu : "em mim está tudo. O princípio, o fim, o conhecimento e a ignorância, a sabedoria e a ingenuidade, a dor e o prazer, a luz e a escuridão". Repetiu este mantra na sua cabeça vezes sem conta e depois, roucamente como quem reaprende a falar, em voz alta. E, de cada vez que o repetia, o seu vazio enchia-se um pouco mais de memórias, de coisas que soubera e esquecera, do nome das coisas, fórmulas, algoritmos, cores, sabores, imagens, sentimentos. Eventualmente o seu vazio estava cheio com tudo o que alguma vez soubera (e era muito esse tudo, fora sempre estudioso e curioso antes, daquelas crianças que se fechavam na biblioteca a decorar a enciclopédia enquanto as outras se divertiram jogando à apanhada ou à macaca ou à bola ou ao bate-pé ou a qualquer um desses jogos infantis) mas continuou a entoar o seu novo mantra e parecia-lhe que agora aprendia coisas que nunca havia aprendido, que conhecia, intimamente, sensações que nunca experimentara, livros que nunca lera, todo o curso da história de países dos quais nem o nome alguma vez ouvira. Parou apenas ao desmaiar de exaustão, não saberia dizer quanto tempo depois de ter começado. Ao acordar, ainda no topo do monte, a sensação de vazio que antes o enchera, fazendo-o sentir que poderia a qualquer instante colapsar sobre si mesmo, como um prédio a implodir, fora substituída pela sensação inversa; sentia-se cheio ao ponto de rebentar com tanta coisa. Desceu à caverna e comeu a última das suas refeições, sem medo de passar fome pois sabia, sem que conseguisse explicar porque, que em breve teria mais comida.

 Nesse dia entreteve-se a percorrer os novos labirintos intermináveis da sua mente, tentado chegar ao fim do que agora sabia, mas por mais corredores pelos quais corresse, não encontrou nenhum fim. Nesse dia os idosos vieram pela primeira vez. Uma senhora, nos seus noventa e poucos anos (ele sabia dizer quantos mas não o fez) explicou que tinha tido um sonho em que uma luz descera do céu e incendiara o monte num fogo sem chama e, nesse sonho, uma voz lhe havia falado pedindo, "educada e formalmente" que levasse ao monte comida pois Deus escolhera aí habitar. Contou, a nonagenária, o sonho as suas amigas que a sabiam sensível a essas coisas (não havia ela sentido já anjos sobrevoando a pacata aldeia antes, no dia da morte de alguém?) e elas ajudaram-na, fazendo um cesto de comida e partilhando com ela o fardo de a levar até ao topo do monte.

Ele ouviu a idosa senhora e prostrou-se de joelhos ao agradecer. Soube, nesse instante, que a senhora morreria no seu sono nessa mesma noite, uma morte pacífica, uma viagem esperada até ao seu merecido descanso, e assim lhe o disse. A idosa, apesar de assustada a início, quando se lembrou de quanto já sofrera e de quanto já perdera (tendo sobrevivido aos filhos e aos netos) sorriu e agradeceu. Ele, mais por sentir que ela assim o desejava do que por vontade própria, abençoou-a, dizendo "vai em paz para junto daqueles que te ainda te amam até depois da morte".

Foi esse o primeiro sinal da sua divindade. Nessa noite, a idosa morreu em paz. Os mais cépticos dos aldeões disseram que adivinhar a morte de alguém com aquela idade não era nada de miraculoso ou fantástico, especialmente sabendo que ela tinha feito muito mais exercício que aquilo a que estava habituada. Entre os menos cépticos houve aqueles que começaram a tradição de todos os três dias levar uma cesta de comida ao sagrado homem do monte, como começaram a chamar-lhe.

 Passou meses ou mesmo anos a catalogar, organizar, arquivar e memorizar cada cantinho do seu saber. Começou por libertar uma sala inteira e com o poder infinito que se têm nos sonhos, fez dela um gigante arquivo, à antiga, fileiras intermináveis de pequenos armários empilhados de metal, cada gaveta contendo uma centena de pequenos cartões com uma palavra seguida de números. Ou ficaram assim mais tarde, naquele momento estavam vazios, mas à medida que os dias meses anos foram passando ele ia escrevendo. Alguns genéricos "Alquimia, 23-26" outros mais específicos "Mercúrio no termómetro, 72, 33, 13, 88, 33-35": Alquimia da sala 23 à sala 26. Mercúrio, no termómetro: sala 72, estante 33, prateleira 13, livro 88, páginas 33-35.

 ‎No iniciou demorava um dia para conseguir encontrar e arquivar cada palavra mas a medida que foi avançando no labirinto da sua mente foi-se tornando mais eficaz e para o fim já enchia um armário inteiro num só dia. Quando sentiu que tinha terminado voltou ao topo do monte, pensando "e agora?". Da vez seguinte que os idosos apareceram com a comida fez um pedido: que lhe trouxessem meios para escrever. Um deles, ex-poeta, procurou na sua arrecadação por umas máquina de escrever e juntos compraram resmas de papel, que foram entregues três dias depois. Ele agradeceu, aconselhando ao ex-poeta que tentasse de novo publicar aquele livro que escrevera 20 anos antes, porque agora o mundo estaria preparado para o ler (o livro, "Sensações do Mar" foi publicado quase imediatamente e, ironia das ironias, o velho de quase oitenta anos foi considerado o melhor novo poeta do ano).

 Ele começou a escrever. Folhas atrás de folhas atrás de folhas. A início ideias soltas que não tinham entre si qualquer ligação, tanto compunha uma ópera sobre uma fábrica de automóveis como uma dissertação sobre o verdadeiro significado da palavra "sentir" como um novo algoritmo para calcular números primos. Depois de retirar do seu sistema toda essa informação que considerava inútil, começou com os escritos místicos que eventualmente fariam dele o profeta de uma nova religiosidade.

 Parábola do homem cansado, alegoria da fé impossível, metáfora do sono do demónio, hipérbole do deus ausente. Tudo isto ele escreveu nesses primeiros dias, batendo furiosamente nas teclas rijas da velha máquina de escrever, quase em transe, inundado de uma vontade de tudo dizer. Nunca fora escritor, mesmo na escola sempre detestara os exercícios de escrita de composições, sendo uma pessoa com pouco ou nenhum jeito para transpor em palavras o que sentia, e por isso esta nova sensação de quase dor que lhe apertava o coração se não escrevesse a cada segundo era para ele nova. Escrevia e, amarrotando as folhas atirava-as para um caixote de lixo (metafórico, na realidade um canto da caverna onde empilhava os restos e as caixas de ração), achando tudo digno apenas de se juntar ao esgoto. Infelizmente, um dos idosos que dali levava todo o lixo, guardou todos os escritos dele é, religiosamente os guardava numa pequena arca de madeira que estava em sua casa e só por isso sabemos hoje o que ele escreveu antes de finalmente se decidir a escrever aquela que seria a sua obra prima, a sua magnus opus, "de Deus".



[este texto encontra-se incompleto. É da natureza de todas as coisas humanas, e tendo sido escrito por um humano é humano também o texto, serem sempre incompletas até quando chegam a um fim. E seria divina blasfémia dar um fim a um texto que não o têm. Por isso acaba aqui, no meio de nada, entre uma ideia e a próxima, o relato de Quid'Est, aquele que é. Sem que se tenha aprofundado nada sobre a sua vida, a sua obra, a sua mensagem ou a sua história. De certa forma, ele próprio preferiria assim : que os outros que vierem depois se dêem ao trabalho de a acabar na sua mente se assim o desejarem. Que cada um busque e encontre em si o verdadeiro fim das palavras e da vida dele.]

Friday, 16 February 2018

Se..

E se na noite, fria, as minhas mãos tocarem o teu corpo e te abraçarem o peito, não me afastes. E se no calor da cama, o meu peito se encostar as tuas costas, não me afastes. E se, durante o sono, os meus lábios procurarem a tua pele, não me afastes. E se, enquanto nos amarmos, dos meus olhos lágrimas brotarem, serão de felicidade ou de medo e não te saberei dizer qual, que ambas sabem a sal. E se, durante um beijo, eu suspirar, não me afastes, suspiro por saber que um dia te perderei. E se, durante um abraço, sentires um toque de água nos ombros, não me afastes, choro por te ter. Porque aquilo que é nosso podemos perder. E se num dia, de manhã, me expulsares da cama e eu for sentar-me no chão olhando-te, não me ralhes, estarei apenas a fixar eternamente o teu sorriso pacifico no meu coração onde ele já vive.