Thursday, 12 September 2024

Invicto

 naquele ponto onde a ilha se chegava mais próximo do pôr do sol, o trilho terminava numa monumental porta, duas colunas de pedra trabalhada apontando ao céu e o caminho de pedra construído sobre a água, símbolo do poder do Homem sobre o mar que rodeava tudo, entrando pela água adentro, centopeia artificial que fugia da ilha em direção ao horizonte, como que tentando correr para o sol que fugia. No fim do caminho, a cabeça da centopeia era marcada por um trono de ébano e os dois cornos, construídos ao longo dos séculos, as espadas e escudos de todos os que haviam morrido em nome da Noite, fundidas e transformadas em mais um pedaço dos grandes cornos. 

 Ao início, conta-se, eram apenas duas as espadas que protegiam o sacerdote da Noite, empunhadas por homens que haviam devotado a sua vida ao serviço da Negra Senhora. Mas hoje os cornos continham gerações de soldados devotos, cada um deles dois tijolos de metal com o seu nome inscrito nas letras sagradas das escrituras.

 O rapaz que caminhava em frente ao resto dos sacerdotes e soldados parou ao chegar ao corno, e esticando a mão esquerda passou os dedos pelo nome do seu pai. Velhas de três anos as runas ainda lhe pareciam ferver ao toque, como se tivesse sido ainda ontem que tinham sido feitas pela sua mão trémula, dorida, inexperiente. Os seus dedos agora estavam calejados de experiência. Demasiada experiência, demasiados nomes oferecidos à Mãe Escura, demasiadas mortes, demasiada guerra.

 Mas o rei assim decide, o Sol Invicto, Pai Conquistador, a Luz do Mundo que quer chegar a todas as costas, brilhar sobre toda a terra. E por isso ele estava ali de novo, sentado no negro trono, ladeado pelas almas que lutaram pela Noite Eterna e assim se tornaram eles também eternos, enquanto Dia se punha detrás dele, a sua cabeça um halo de luz, nas suas mãos os símbolos de poder, ajoelhado a seus pés o rei e dizendo palavras mais antigas até que o trono onde se sentava, abençoando o rei, a ilha, os soldados, o povo. Dando graças às Noite por voltar a cair sobre eles e pelo Seu abraço materno e protector. 

  Em poucas horas aquela centena de pessoas irá entrar nos longos barcos sem velas e remar em direção à batalha à guerra à morte.

  

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