Nada devia à beleza, os traços de estátua grega da cara, o cabelo longo apanhado num rabo de cavalo que reflectia o brilho do sol e os olhos daquele verde azul acastanhado com laivos de amarelo, tão caóticos como tudo o resto nele. Mas os traços estavam carregados de mais, o cabelo começava a encher-se de branco e os olhos carregados fundo na cara, enterrando-se numa idade que ainda não tinham. Consumido pelo tempo, nele andava sempre aquele ar cansado e velho, como se o peso de cada ano houvesse sido o dobro de si mesmo.
Tossia com frequência, aquelas tosses profundas que parecem ameaçar sempre a vinda de um pulmão atrás da expectoração, o seu corpo magro a torcer como uma toalha ao vento e a ameaça de lágrimas nos cantos dos olhos e o cigarro fortemente preso entre o indicador e o dedo médio carregados de manchas amarelas. A tosse passa, limpa os olhos com a manga esquerda do casaco e enfia de novo o cigarro na boca, puxa mais um bocado de alcatrão e nicotina e dióxidos e trióxidos de carbonos vários pela garganta abaixo.
Os passos levam-no pela rua abaixo, em Lisboa é sempre rua abaixo ou rua acima, parece não existir uma única rua horizontal em toda a cidade, olhos escondidos debaixo das lentes pretas de uns óculos de sol desnecessários neste tempo sujo. Acaba o cigarro, atirando a beata para uma sarjeta, e levanta as lentes do chão, olhando em volta. Ao fundo, mais uns dez passos, um café. Dirige-se, com propósito, até lá e entra. O café está vazio, excepto um velho que lê o jornal a um canto e a senhora, meia idade, mais gorda que magra e com aquele corte de cabelo que já não é comprido mas ainda não é curto, que está atrás do balcão lavando, sabe deus por qual milésima vez, um copo de imperial.
Ele tosse, como quem prepara a garganta para falar após um período de silencio, e pede um café e um copo de tinto. Agarra nos dois vai sentar-se na única mesa lá fora, olhando em direcção aos prédios que escondem o rio.
Bebe o café de um trago, dá o ultimo bafo do cigarro que acendera ao chegar lá fora, apagando a beata no cinzeiro de metal. Levanta o copo, como quem faz um brinde e parece murmurar algo inaudível antes de o levar à boca e esvaziar num só movimento. Olhando para dentro repara na mulher olhando-o. Sorri e faz sinal, a apontar o copo vazio, pedindo mais um. Do bolso sai um pequeno caderno, de outro bolso uma caneta, da cara os óculos de sol. Tudo sobre a mesa enquanto recolhe da mão da senhora o novo copo. O caderno fica aberto sobre a mesa, uma folha branca à excepção de uma só palavra, ao topo, ao centro, um titulo. A caneta na mão as vezes descendo quase até à folha mas o movimento pára sempre antes que tinta e papel se juntem e a caneta sobe de novo e ele olha mais um pouco e frente e depois num gesto brusco, furioso, volta a cair quase até à folha e de novo detém-se, milímetros antes de a tocar.
Ele suspira, pousa a caneta e fuma mais um cigarro, bebe mais um pouco do vinho, pela primeira vez como se o provasse. Acabado o cigarro e o copo, o caderno volta ao bolso, a caneta a outro bolso, o maço do tabaco a outro bolso. Entra, levando o copo sujo e pergunta quanto deve, qual a despesa. Paga com moedas, e vira costas e sai antes que a senhora tenha tempo de devolver os 10 cêntimos a mais que deixou. Olha de relance rua acima mas nem parece que os seus olhos se fixem em coisa nenhuma. Desce de novo, mais rápido que antes como se o vinho o tivesse recordado de algo urgente para fazer. Não fuma, as mãos vão enfiadas fundo nos bolsos, os óculos de sol de novo na cara, e vira a esquina e desaparece.
Um dia talvez volte aquele café e peça mais um copo de vinho, um dia talvez acabe o que tentava escrever, um dia talvez apareça com um sorriso na cara ao fundo da rua e o transporte consigo, usando-o com mais orgulho ainda que aquele com que usa os óculos e o cabelo.
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