Tuesday, 11 June 2019

cambaleante

...escorregava avenida abaixo, os passos tortos, trocados, cansados, gastos. Olhava em frente sem ver nada, os olhos perdidos num sonho embriagado e os lábios falando sozinhos, repetindo um nome, sempre o mesmo nome, vezes e vezes e vezes sem conta, como quem chama, como quem chora, como quem ama, como quem odeia, como quem canta, o mesmo nome, repetido em todas as entoações, sempre a meia voz, tão de surdina que quem por ele passava mal ouvia, ouvia apenas a sugestão do som do nome, mas ele não o dizia para quem passava mas sim para a face que via no seu sonho acordado. Era cedo e as pessoas transportavam aquela cara de segunda-feira de manhã, aquele peso de antecipação da semana inteira às costas. Desviavam-se dele, as pessoas, algumas por nojo mas outras demasiado automaticamente para sentirem o cheiro a urina seca, para repararem no vomitado que lhe cobria as pontas dos sapatos, nas folhas e flores enfiadas nos cabelos. Mas desviavam-se, deixavam-no prosseguir em direcção à miragem que apenas ele via, lá ao fundo da avenida e ele ia, escorregando alcatrão passeio alcatrão passeio abaixo.

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