Sunday, 17 February 2019
método
o poeta, para escrever-se triste necessita de sentir essa tristeza. E para isso relê uma carta de rompimento de noivado, enquanto escuta musica melancólica a tocar em quase altos berros para que lhe afogue a mente com o sentimento e pensa em todas as lágrimas que derramou e conta-as! uma a uma, fecha os olhos para a ver cair : uma gota transparente de agua salgada correndo face abaixo, e o poeta aproxima-se da gota e vê no reflexo a miragem de um momento. Abrindo suavemente a boca, recolhe a lágrima na língua e saboreia-a, sentindo uns lábios há muito perdidos, o sabor da brisa marinha na cara, uma ultima refeição frente a frente... E nova lágrima cai, assim que o poeta deglute a primeira, e ele olha-a, cheira-a, prova-a, retira dela tristeza como nutriente para alimentar a tristeza que quer escrever. E uma lágrima lhe dirá, ao ouvido, sussurrante e sedutora : usa-me. Espalha-me no papel. Faz de mim um poema. E o poeta acede, e o poeta corre frenético em busca de um papel, de uma caneta, de um computador, de maquina de escrever, de uma tabuleta de pedra e de um cinzel. E, focando todo o seu ser naquela lágrima, o poeta fecha os olhos e escreve. E escreve-se triste, porque quando o poeta escreve aquela lágrima, o poeta vive-a de novo, sente em si toda a alegria cujo vazio criou a lágrima e todo o vazio o enche de palavras e ele escreve. E escreve até se esquecer das horas da comida da agua do dia da semana ou do mês do ano, só existe aquela lágrima e a amostra de mundo que existe dentro dela. Um ciclo de fotografias sobre uma voz que narra em versos que o poeta escreve, de tal modo possuído pela lembrança da tristeza que ele já não é o poeta mas a tristeza, ele já não escreve, existe-se a si mesmo como tristeza e derrama-se como lágrimas de palavras sobre o papel. Abandonada a sua alma e o seu corpo, o poeta voa sobre as palavras e como deus arranja e rearranja-as e corre em redor do tudo até que a lágrima se parte como espelho contra a parede e no meio do quarto, suado, transpirado e perspirado volta a si, a musica silenciada e de dentro da poça de lágrimas que lhe banha os pés nasce uma fina mesa de pé, e lá, pousado sobre ela, o Poema nascente.
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