Há quem o chame de profeta, há quem o chame de herege. Há quem o considere louco e há quem nele veja o único que não o é. Ele diz-se Quid'Est, Aquele-Que-Está e pensa-se, alternativamente, Deus, anjo, profeta, demónio ou apenas maluco.
Começara anos antes. Talvez cinco, dez ou vinte ninguém sabia ao certo. A quem vivia perto do monte parecia-lhe que ele sempre ali estivera, com a sua roupa velha mas ainda impecável, a sua barba comprida e os longos cabelos soltos, a sua voz calma e pesada murmurando e rezando. As crianças temiam-no, os adultos ignoravam-no e os idosos respeitavam-no, levando-lhe oferendas de comida semanalmente. Bom, alguns. Outros escreviam ao presidente da câmara pedindo-lhe que removesse dali o mendigo. Infelizmente para eles, o monte era propriedade privada e os donos do mesmo nunca fizeram qualquer questão de o remover de lá. Talvez por gostarem da ideia de ter um místico na sua propriedade ou porque com ele lá, ninguém se atrevia a assaltar a casa quase abandonada que lá mantinham. Os donos do terreno nunca confessaram a ninguém em qual das facções se encontravam, nem após a revelação, quando entrevistados por uma qualquer cadeia de televisão. Limitaram-se a dizer que como nunca tinham tido nenhuma razão de queixa com ele, o deixaram por lá ficar. Esse mesmo canal de televisão que tinha entrevistado, sem conseguir dai retirar grande coisa para uma manchete bombástica, os donos do terreno, em busca de um escândalo ou de uma tragédia para um cabeçalho daqueles que ficam em rodapé 90% do telejornal prendendo as pessoas ao ecrã na esperança de o entender, fizeram uma investigação a fundo (más línguas falam de contactos dentro da policia que teriam fornecido informação que deveria ser confidencial) e descobriram a história dele.
Conseguiram, para grande felicidade do director de programação, não só um escândalo como também uma tragédia. O que, obviamente, levou a acesas discussões sobre qual o ângulo que deveriam explorar. Eventualmente o lado da tragédia ganhou, e o cabeçalho de rodapé foi "Passado trágico leva homem para o monte durante 10 anos". Na realidade, 10 anos foi uma invenção (ou para ser mais simpático, uma aproximação) feita a partir das datas da tragédia. Podiam ser até 15 anos. Ou apenas 5. O 10 foi escolhido por ser um numero bonito e como ninguém sabia de qualquer modo não lhes pareceu importante a exactidão. Anos mais tarde, ao analisar a situação com a sabedoria da idade avançada, o director de programas admitiria que "dezenas de anos" ou mesmo apenas "durante anos" mas também que era indiferente. A audiência desse telejornal fora a melhor do mês e esteve no topo das do ano, só batida pelas eleições.
Não interessa qual a tragédia e muito menos qual o escândalo, basta saber que ele perdeu tudo o que tinha, família, bens, emprego, futuro. E ao encontrar-se assim, só, desesperado e sem muitas hipóteses de voltar a fazer parte da sociedade, graças ao escândalo, ele fugiu. Fugiu a pé, pelo pais adentro. E encontrou, num monte algures uma caverna onde se escondeu de tudo : da sociedade, da policia, dos jornais, até do seu nome. Se ele contasse algo sobre os primeiros tempos do seu exílio, contaria como passou os primeiros meses lavado em lágrimas, tremendo de medo e frio, amaldiçoando deuses e deusas em que nunca acreditou, rezando aos mesmos que tinha amaldiçoado e a outros novos que havia inventado só para os poder amaldiçoar de novo. Disse, berrando por vezes, sussurrando ou chorando noutras, todas as heresias quê conseguiu imaginar e recitou orações atrás de orações, umas curtas, de uma frase apenas, outras imensas de tal maneira que precisou de passar dias inteiros sem dormir para as terminar.
Um dia, contaria ele se relatasse alguma vez os seus tormentos no exílio, acorda no silêncio eterno da caverna, olha o sol subindo devagar no céu e na sua cabeça, no seu coração corpo alma já nada dói. Existe apenas um vazio, um buraco de nada que lhe enche o tudo, um silêncio tão grande e eterno dentro como o de fora. Nesse dia, e naqueles que se seguiram, não se mexeu mais do que uma curta viagem até ao topo do monte, onde se senta, pernas cruzadas "à chinês" como convém a qualquer místico que se preze, e deixa-se ficar, esperando algo que nem ele sabia o quê. Passa uma semana assim, comendo apenas ao fim do dia um pedaço das suas cada vez mais parcas reservas. Contou 7 nascimentos e 7 mortes do sol antes que algo acontecesse. Ao acordar com o oitavo nascimento, no vazio absoluto que carregava em si, a primeira palavra apareceu : "Deus". Repetiu os dias anteriores e a cada nascimento uma nova palavra "sou", "eu", "em", "mim", "está". Ao décimo quarto dia nenhuma nova palavra se juntou as outras, nem ao décimo quinto. Ao décimo sexto morrer do sol percebeu que não viriam mais palavras assim e após um breve período em que sentiu algo que antes teria sabido identificar como frustração mas para que agora já não tinha palavra que descrevesse, meditou sobre a frase que se tinha tornado o total do seu conhecimento : "Deus sou eu, em mim está". "O que está?" Perguntou-se, vezes e vezes sem conta até que, com uma gargalhada que ecoou na caverna percebeu : "em mim está tudo. O princípio, o fim, o conhecimento e a ignorância, a sabedoria e a ingenuidade, a dor e o prazer, a luz e a escuridão". Repetiu este mantra na sua cabeça vezes sem conta e depois, roucamente como quem reaprende a falar, em voz alta. E, de cada vez que o repetia, o seu vazio enchia-se um pouco mais de memórias, de coisas que soubera e esquecera, do nome das coisas, fórmulas, algoritmos, cores, sabores, imagens, sentimentos. Eventualmente o seu vazio estava cheio com tudo o que alguma vez soubera (e era muito esse tudo, fora sempre estudioso e curioso antes, daquelas crianças que se fechavam na biblioteca a decorar a enciclopédia enquanto as outras se divertiram jogando à apanhada ou à macaca ou à bola ou ao bate-pé ou a qualquer um desses jogos infantis) mas continuou a entoar o seu novo mantra e parecia-lhe que agora aprendia coisas que nunca havia aprendido, que conhecia, intimamente, sensações que nunca experimentara, livros que nunca lera, todo o curso da história de países dos quais nem o nome alguma vez ouvira. Parou apenas ao desmaiar de exaustão, não saberia dizer quanto tempo depois de ter começado. Ao acordar, ainda no topo do monte, a sensação de vazio que antes o enchera, fazendo-o sentir que poderia a qualquer instante colapsar sobre si mesmo, como um prédio a implodir, fora substituída pela sensação inversa; sentia-se cheio ao ponto de rebentar com tanta coisa. Desceu à caverna e comeu a última das suas refeições, sem medo de passar fome pois sabia, sem que conseguisse explicar porque, que em breve teria mais comida.
Nesse dia entreteve-se a percorrer os novos labirintos intermináveis da sua mente, tentado chegar ao fim do que agora sabia, mas por mais corredores pelos quais corresse, não encontrou nenhum fim. Nesse dia os idosos vieram pela primeira vez. Uma senhora, nos seus noventa e poucos anos (ele sabia dizer quantos mas não o fez) explicou que tinha tido um sonho em que uma luz descera do céu e incendiara o monte num fogo sem chama e, nesse sonho, uma voz lhe havia falado pedindo, "educada e formalmente" que levasse ao monte comida pois Deus escolhera aí habitar. Contou, a nonagenária, o sonho as suas amigas que a sabiam sensível a essas coisas (não havia ela sentido já anjos sobrevoando a pacata aldeia antes, no dia da morte de alguém?) e elas ajudaram-na, fazendo um cesto de comida e partilhando com ela o fardo de a levar até ao topo do monte.
Ele ouviu a idosa senhora e prostrou-se de joelhos ao agradecer. Soube, nesse instante, que a senhora morreria no seu sono nessa mesma noite, uma morte pacífica, uma viagem esperada até ao seu merecido descanso, e assim lhe o disse. A idosa, apesar de assustada a início, quando se lembrou de quanto já sofrera e de quanto já perdera (tendo sobrevivido aos filhos e aos netos) sorriu e agradeceu. Ele, mais por sentir que ela assim o desejava do que por vontade própria, abençoou-a, dizendo "vai em paz para junto daqueles que te ainda te amam até depois da morte".
Foi esse o primeiro sinal da sua divindade. Nessa noite, a idosa morreu em paz. Os mais cépticos dos aldeões disseram que adivinhar a morte de alguém com aquela idade não era nada de miraculoso ou fantástico, especialmente sabendo que ela tinha feito muito mais exercício que aquilo a que estava habituada. Entre os menos cépticos houve aqueles que começaram a tradição de todos os três dias levar uma cesta de comida ao sagrado homem do monte, como começaram a chamar-lhe.
Passou meses ou mesmo anos a catalogar, organizar, arquivar e memorizar cada cantinho do seu saber. Começou por libertar uma sala inteira e com o poder infinito que se têm nos sonhos, fez dela um gigante arquivo, à antiga, fileiras intermináveis de pequenos armários empilhados de metal, cada gaveta contendo uma centena de pequenos cartões com uma palavra seguida de números. Ou ficaram assim mais tarde, naquele momento estavam vazios, mas à medida que os dias meses anos foram passando ele ia escrevendo. Alguns genéricos "Alquimia, 23-26" outros mais específicos "Mercúrio no termómetro, 72, 33, 13, 88, 33-35": Alquimia da sala 23 à sala 26. Mercúrio, no termómetro: sala 72, estante 33, prateleira 13, livro 88, páginas 33-35.
No iniciou demorava um dia para conseguir encontrar e arquivar cada palavra mas a medida que foi avançando no labirinto da sua mente foi-se tornando mais eficaz e para o fim já enchia um armário inteiro num só dia. Quando sentiu que tinha terminado voltou ao topo do monte, pensando "e agora?". Da vez seguinte que os idosos apareceram com a comida fez um pedido: que lhe trouxessem meios para escrever. Um deles, ex-poeta, procurou na sua arrecadação por umas máquina de escrever e juntos compraram resmas de papel, que foram entregues três dias depois. Ele agradeceu, aconselhando ao ex-poeta que tentasse de novo publicar aquele livro que escrevera 20 anos antes, porque agora o mundo estaria preparado para o ler (o livro, "Sensações do Mar" foi publicado quase imediatamente e, ironia das ironias, o velho de quase oitenta anos foi considerado o melhor novo poeta do ano).
Ele começou a escrever. Folhas atrás de folhas atrás de folhas. A início ideias soltas que não tinham entre si qualquer ligação, tanto compunha uma ópera sobre uma fábrica de automóveis como uma dissertação sobre o verdadeiro significado da palavra "sentir" como um novo algoritmo para calcular números primos. Depois de retirar do seu sistema toda essa informação que considerava inútil, começou com os escritos místicos que eventualmente fariam dele o profeta de uma nova religiosidade.
Parábola do homem cansado, alegoria da fé impossível, metáfora do sono do demónio, hipérbole do deus ausente. Tudo isto ele escreveu nesses primeiros dias, batendo furiosamente nas teclas rijas da velha máquina de escrever, quase em transe, inundado de uma vontade de tudo dizer. Nunca fora escritor, mesmo na escola sempre detestara os exercícios de escrita de composições, sendo uma pessoa com pouco ou nenhum jeito para transpor em palavras o que sentia, e por isso esta nova sensação de quase dor que lhe apertava o coração se não escrevesse a cada segundo era para ele nova. Escrevia e, amarrotando as folhas atirava-as para um caixote de lixo (metafórico, na realidade um canto da caverna onde empilhava os restos e as caixas de ração), achando tudo digno apenas de se juntar ao esgoto. Infelizmente, um dos idosos que dali levava todo o lixo, guardou todos os escritos dele é, religiosamente os guardava numa pequena arca de madeira que estava em sua casa e só por isso sabemos hoje o que ele escreveu antes de finalmente se decidir a escrever aquela que seria a sua obra prima, a sua magnus opus, "de Deus".
[este texto encontra-se incompleto. É da natureza de todas as coisas humanas, e tendo sido escrito por um humano é humano também o texto, serem sempre incompletas até quando chegam a um fim. E seria divina blasfémia dar um fim a um texto que não o têm. Por isso acaba aqui, no meio de nada, entre uma ideia e a próxima, o relato de Quid'Est, aquele que é. Sem que se tenha aprofundado nada sobre a sua vida, a sua obra, a sua mensagem ou a sua história. De certa forma, ele próprio preferiria assim : que os outros que vierem depois se dêem ao trabalho de a acabar na sua mente se assim o desejarem. Que cada um busque e encontre em si o verdadeiro fim das palavras e da vida dele.]
Monday, 26 February 2018
Friday, 16 February 2018
Se..
E se na noite, fria, as minhas mãos tocarem o teu corpo e te abraçarem o peito, não me afastes. E se no calor da cama, o meu peito se encostar as tuas costas, não me afastes. E se, durante o sono, os meus lábios procurarem a tua pele, não me afastes. E se, enquanto nos amarmos, dos meus olhos lágrimas brotarem, serão de felicidade ou de medo e não te saberei dizer qual, que ambas sabem a sal. E se, durante um beijo, eu suspirar, não me afastes, suspiro por saber que um dia te perderei. E se, durante um abraço, sentires um toque de água nos ombros, não me afastes, choro por te ter. Porque aquilo que é nosso podemos perder. E se num dia, de manhã, me expulsares da cama e eu for sentar-me no chão olhando-te, não me ralhes, estarei apenas a fixar eternamente o teu sorriso pacifico no meu coração onde ele já vive.
Wednesday, 7 February 2018
Ampulheta
Uma a uma as estrelas caiem, passando pela borda afunilada da ampulheta universal, como se grãos de areia. Deuses, sentados num chão inexistente, formam um circulo que olha fixamente para o centro, para o tempo que passa. "Repara nesta!" um dos Deuses diz, tocando ao de leve o que seria o ombro do outro se os seus corpos fossem. É uma estrela vermelha, ardendo com fúria, e dela ergue-se uma aura carregada de ódio, ouve-se quase uma voz, uníssona de biliões de inteligências que num piscar de olhos deixaram de existir, graças aos caprichos insondáveis de Deuses invisíveis. A voz berra, num sussurro, de medo e resignação, de dor e perda. Uníssona e dissonante, sem palavras perceptíveis, estendendo-se por centenas de anos e durando apenas um piscar de olhos. A estrela parece parar na garganta de vidro, como que resistindo à pressão inexorável do tempo, desafiando Deuses e a inevitabilidade do tudo, um último acto de força e coragem antes que o esquecimento a engula a ela e a todas as suas vozes. Um dos Deuses sorri, talvez o mesmo que há pouco falou, e num pequeno sopro empurra a estrela para o vazio que se estende sob a garganta de vidro da ampulheta. As vozes calam-se, calaram-se há centenas de milhões de anos mas só agora chegaram aqui e só agora se extinguiram. Um dos Deuses, talvez aquele que teria sido tocado no ombro se ombro tivesse, suspira uma palavra apenas, igual em todas as línguas e diferente em todas elas, forte, pesada, leve. Elogio e insulto ao mesmo tempo: "Linda". Como se a morte de biliões fosse uma obra de arte, como se as vidas e existências de todo um planeta nada mais fosse do que uma tinta, acrílica ou de óleo, que certo pintor demente espalha sobre uma tela. Esse dos Deuses que primeiro falara vira as costas à ampulheta e desaparece ainda mais. Nada mais existe que ele queira ver, o seu trabalho começou antes do universo mas acabou antes que este acabe e agora, cansado e velho e cheio de orgulho pelo que fez e cheio de remorso pelo que fez e cheio de si mesmo, ele deita-se sobre o nada e deixa-se dormir, eternamente dormir. Lentamente, as estrelas acabam : não há mais fogos no universo, não há mais vida nem Deuses. E, finalmente, em paz, o vazio é tudo e tudo é vazio e a existência pode recomeçar se assim desejar, para que tudo seja de novo como já foi. Deuses e estrelas morrem da mesma maneira, escorregando para o nada.
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