Friday, 26 June 2020

Colher

Havia uma colher de sopa que detestava sopa. A textura e o sabor da sopa, qualquer sopa, quando ela lhe passava sobre a pele metálica fazia-lhe.. Confusão, irritação, asco, nojo, impressão.. Ela nunca conseguiu decidir qual a palavra certa para descrever a sensação (o que não é de todo estranho ou incomum numa colher, não são e nunca foram conhecidos por ser especialmente fluentes ou dotados de vasto vocabulário. A uma colher não se quer nem deseja particular capacidade intelectual).
Soubesse a pequena placa de metal que seria prensada numa colher antes de o ser (algo no complicado processo de abençoamento reage melhor a matéria prima, nos casos de objectos compostos de um só material (várias tentativas foram realizadas para juntar mais de uma alma num só objecto, mas até coisas simples como um lápis eventualmente quebravam e rebentavam em revoluções internas, inutilizando-se no processo)) e ter-se-ia revoltado, berrado tão alto quanto possível. Mas não soube. Sabia que odiava sopa ainda antes de a provar, mas só percebeu que sentimento era esse que quase a corroía meses mais tarde (meses mais tarde pois passou ainda bastante tempo numa prateleira de um qualquer supermercado regional à espera de um cliente que a levasse (vários grupos de Direitos dos Objetos Abençoados Com Alma tinham já longamente chamado a atenção tanto para o direito à escolha de todos os O.A.C.A.s monomateriais a serem o que desejam ser como para a injustiça que era os OACA-mms Talheres (a nomenclatura usada para falar de objectos abençoados com alma era ainda extremamente recente, até poucos anos antes nunca ninguém havia tido tempo para se preocupar com eles o suficiente para os distinguir dos objetos sem alma) serem todos vendidos numa grande caixa com separadores individuais, obrigando-os a sofrerem sós o período que a recem-criada nomenclatura designara de "Período de Espera Pré-Escravatura", o PEPE, lê-se pêpe)).
 Durante todo o seu PEPE solitário a já colher sofreu uma ansiedade imensa, porque algo que sabia ser importante, grave, pesado (mais uma vez era uma palavra que ela não conseguia escolher) lhe doía mesmo no fundo da alma. De certa forma ela até agradeceu quando pela primeira vez, quase uma semana depois de ter sido comprada, foi pela primeira vez usada. Foi o pior momento da sua vida, saber que iria para sempre detestar a razão da sua existência mas ao menos tempo sentiu algo que não saberia dizer ser alívio (vocabulário curto, uma vez mais) mas que o era, finalmente percebeu que dor sentia, o que era aquele sofrimento que lhe esmagava a alma desde que primeiro fora abençoada.