Monday, 4 October 2021
Imortal
"Sabes, acho que o amor nunca morre." - "Porque nunca esteve vivo?" - perguntas na tua chico-expertise de sempre, fugindo do romantismo para a semântica, escondendo o que sabes que disse na incerteza de todas as palavras. Sorrindo abano a cabeça devagarinho, e toco-te ao de leve no braço, apenas um fantasma de um carinho. "Sabes, acho que o amor nunca morre." - "Estás a repetir-te, já o disseste antes." - "Continuarei a repetir-me, há coisas que se devem dizer não uma nem duas mas incontáveis vezes, até que fiquem escritas na própria textura da realidade, uma mancha indelével na seda pura do existir." - "Mas nós morremos, somos apenas pessoas, um corpo que se gasta em cada dia" - Acendo um cigarro, puxo a minha morte uns minutos mais para perto de mim, e finjo que sei fazer anéis de fumo em vez de responder. Lá fora passam os carros e ladram os cães e escurece, devagar. "É noite cada vez mais cedo" - Apontas em direção ao sol que já desce, correndo, para o horizonte - "Amanhã ergue-se de novo, e será dia outra vez e outra e outra, um ciclo eterno de morte e renascimento. Mas o amor, esse nunca morre." - "Assim o dizes, mas não acredito." - "Então nunca amaste ninguém." - "Estou aqui nos teus braços." - "Lábios nos lábios, cabelo na minha boca, a tua pele na minha.. Mas isso não é amor, é corpo." - "E amor não é corpo também?" - "Amor é alma. Apenas e só alma, em fogo lavado de lágrimas." - "Só se torna amor com o sofrimento?" - "Só." - "Isso é ridículo! Há amores felizes, nós somos felizes!" - "Mas nós não nos amamos um ao outro, nós amamos quem somos um no outro." - "E eu é que me escondo na semântica?" - "Amor não têm semântica, nem léxico nem ortografia, amor é. Apenas é, imortalmente é." - Levanto-me, apago o meio fumado cigarro no cinzeiro e agarro nas minhas calças amarrotadas aos pé da cama - "Vais embora?" - Sinto o medo na tua voz, o medo do frio de um cama onde se dorme sozinho, o medo de uma manhã em que apenas a parede nos olha nos olhos - "Não sei." - Chegas-te a mim, o teu corpo ainda nu deslizando pela cama até que a tua mão me agarra o pulso - "Não vás. Não saberia suportar o amanhã sem ti aqui." - "Não vou. Já te disse que o amor não morre e também não saberia como existir sem o teu sorriso." - Puxas-me de volta à cama, não como quem têm fome de mim, apesar da insistência das tuas mãos, da forma dos teus seios que me apontam direitos ao coração, do remexer das tuas ancas nos lençóis, não, puxas-me com um calor que não é esse dos corpos que se conhecem e dançam juntos a mesma musica mas o calor de uma alma que já não existe fora de um nós que somos toda a existência num só beijo. Deixo-me arrastar para baixo, para junto de ti, pego-te, os braços de volta dos ombros, a minha pele parecendo que se estica para tocar em mais da tua, enfio o meu nariz no teu cabelo e choro, sem tristeza. "Não te vou deixar, és demasiado de mim." - "Amo-te" dizes, a tua boca colada ao meu peito - "Amo-te" - repetes, como se eu pudesse não ter ouvido, como se eu pudesse não o saber - "Amo-te" - respondo, e levo os meus lábios aos teus, tocando-os levemente e lentamente abrindo-os, beijando-te como se beijava no liceu, com fome de provar toda a tua boca, as minhas calças já nas tuas mãos, saindo antes sequer de terem sido postas completamente, os teus braços despindo-me e os teus lábios beijando-me e o teu respirar embalando-me para dentro de ti. Fizemos amor, com paixão, carinho, os nossos corpos suados numa perfeita sintonia de pequenos gemidos e respiração ofegante, dançando uma valsa a que só os deuses assistiram - "Amo-te" - digo de novo, e depois repito-o, duas, três, quatro vezes, a voz transformando-se num sussurro quase inaudível que acompanha o teu suave ressonar, a tua cabeça pousada no meu peito como se eu fosse uma almofada confortável, os teus olhos fechados e esse sorriso sempre na ponta dos teus lábios, dizendo-me - "Sabes, acho que o amor nunca morre."
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