Thursday, 27 December 2018

lágrima

Ontem, quando ainda era inverno, deixei-te deitada na cama dormindo descansada e levantei-me, lavei-me limpei em mim o cheiro da noite e sai porta fora rumo ao dia que nascia. Hoje regresso e a primavera já se fez homem, a cama está vazia e a roupa que vestias atirada a um canto. Dentro do armário apenas aquela camisola que te ofereci, há tantos anos atrás, quando o verão ainda o era e o outono não ameaçava chegar ainda. Cheira ainda a ti, sinto o perfume do outro lado da porta de madeira e a acidez do tempo cai-me dos olhos, uma poça de arrependimentos no chão a meus pés. Deito-me sem me despir na cama que tão bem conhecia o teu corpo e fico a ver as horas a passarem lentamente no tecto do quarto, coberto apenas por esta fina camada de não estares aqui. O teu fantasma paira sobre a cama e não sei se te sonho ou se ainda te tenho aqui incorpórea e ausente mas aqui, bailando como quem não me vê, os teus pés de fumo massajando-me o peito. Acordo, sobressaltado, olhos bem abertos para ver o vazio que enche a cama, a ausência com tanto peso que me esmaga e prende aos lençóis encharcados de suor. Arrasto-me para fora da cama e tiro a roupa, ritualmente vou pousando peça atrás de peça na cadeira, tudo perfeitamente dobrado. Sigo, nu, pela casa adentro como que num trance, até me descobrir dentro da banheira, água correndo sobre o meu corpo que esfrego e esfrego e esfrego até que a pele se rasgue e saia sangue. A banheira muda de cor e eu esfrego-me ainda, sobre o coração, tentando chegar lá dentro e limpa-lo também, remover-te de lá qual mancha radioactiva que me consome. Não dou por mim mesmo a morrer, sinto que fiquei a eternidade inteira a esfregar-me e que ainda o faço, apesar de olhar de cima para o meu corpo inerte na banheira que transborda da água vermelha que ira furar por entre as tábuas de madeira velha do chão e alertar os vizinhos. Em breve, tudo é rápido e instantâneo para quem já está fora do tempo, alguém telefonará à policia, os bombeiros virão e deitarão a baixo a porta e verão o meu corpo como o vejo agora. Talvez alguém te ligue, para que saibas o que aconteceu. Talvez já me tenhas esquecido e nem saberás de quem falam quando te contarem a minha morte. Talvez celebres, um copo daquele champanhe de que tanto gostas e umas fatias de um qualquer queijo importado que o teu novo namorado, rico, te comprou. Talvez derrames uma lágrima, uma apenas, em memória de todas as vezes que sorrimos um para o outro. Eu não estarei lá para ver.