Monday, 17 June 2019

luz

Não havia luz, só a escuridão que os envolvia num abraço que tudo apagava da existência que não fosse a pele dela nele a pele dele nela os lábios sedentos procurando onde lamber beijar trincar morder e as mãos, a agarrar, puxar, segurar, acariciar, arranhar. Não havia luz, na cama, no quarto, na casa, se lhes perguntassem diriam que não existia luz em lado nenhum que não os olhos um do outro, que não existia calor que não a pele do outro, que não existia universo que fosse mais longe do que o braço esticado do outro. Não havia luz, porem, eles olhavam-se, conhecendo-se já os segredos da cara e do corpo, sabendo os detalhes de cada curva, cada cova, cada dedo, cada um dos centímetros, triangulares, quadrados ou prísmeos dos seus corpos. Não havia luz mas ele estica a mão e acaricia-lhe a cara, um gentil, leve, suave, carinhoso gesto a que ela corresponde com um quase ronronar de gato um, impercetível para toda a gente menos ele, estremecer de corpo inteiro. Não havia luz mas ela rebola para cima dele e aterra perfeita nos braços dele, o cabelo repousado no peito como quem tenta ouvir o bater do coração e as mãos tocando-lhe em admiração. Não havia luz mas ele via-lhe o sorriso, sentia o peso da admiração do amor da paixão do calor que vinha dos olhos de ela, mesmo que não os conseguisse ver, sentia. Não havia luz, ali na escuridão do sonho onde tudo ainda é e para sempre é, perfeito.

Tuesday, 11 June 2019

cambaleante

...escorregava avenida abaixo, os passos tortos, trocados, cansados, gastos. Olhava em frente sem ver nada, os olhos perdidos num sonho embriagado e os lábios falando sozinhos, repetindo um nome, sempre o mesmo nome, vezes e vezes e vezes sem conta, como quem chama, como quem chora, como quem ama, como quem odeia, como quem canta, o mesmo nome, repetido em todas as entoações, sempre a meia voz, tão de surdina que quem por ele passava mal ouvia, ouvia apenas a sugestão do som do nome, mas ele não o dizia para quem passava mas sim para a face que via no seu sonho acordado. Era cedo e as pessoas transportavam aquela cara de segunda-feira de manhã, aquele peso de antecipação da semana inteira às costas. Desviavam-se dele, as pessoas, algumas por nojo mas outras demasiado automaticamente para sentirem o cheiro a urina seca, para repararem no vomitado que lhe cobria as pontas dos sapatos, nas folhas e flores enfiadas nos cabelos. Mas desviavam-se, deixavam-no prosseguir em direcção à miragem que apenas ele via, lá ao fundo da avenida e ele ia, escorregando alcatrão passeio alcatrão passeio abaixo.

Friday, 24 May 2019

título

 Nada devia à beleza, os traços de estátua grega da cara, o cabelo longo apanhado num rabo de cavalo que reflectia o brilho do sol e os olhos daquele verde azul acastanhado com laivos de amarelo, tão caóticos como tudo o resto nele. Mas os traços estavam carregados de mais, o cabelo começava a encher-se de branco e os olhos carregados fundo na cara, enterrando-se numa idade que ainda não tinham. Consumido pelo tempo, nele andava sempre aquele ar cansado e velho, como se o peso de cada ano houvesse sido o dobro de si mesmo.
 Tossia com frequência, aquelas tosses profundas que parecem ameaçar sempre a vinda de um pulmão atrás da expectoração, o seu corpo magro a torcer como uma toalha ao vento e a ameaça de lágrimas nos cantos dos olhos e o cigarro fortemente preso entre o indicador e o dedo médio carregados de manchas amarelas. A tosse passa, limpa os olhos com a manga esquerda do casaco e enfia de novo o cigarro na boca, puxa mais um bocado de alcatrão e nicotina e dióxidos e trióxidos de carbonos vários pela garganta abaixo.
 Os passos levam-no pela rua abaixo, em Lisboa é sempre rua abaixo ou rua acima, parece não existir uma única rua horizontal em toda a cidade, olhos escondidos debaixo das lentes pretas de uns óculos de sol desnecessários neste tempo sujo. Acaba o cigarro, atirando a beata para uma sarjeta, e levanta as lentes do chão, olhando em volta. Ao fundo, mais uns dez passos, um café. Dirige-se, com propósito, até lá e entra. O café está vazio, excepto um velho que lê o jornal a um canto e a senhora, meia idade, mais gorda que magra e com aquele corte de cabelo que já não é comprido mas ainda não é curto, que está atrás do balcão lavando, sabe deus por qual milésima vez, um copo de imperial.
 Ele tosse, como quem prepara a garganta para falar após um período de silencio, e pede um café e um copo de tinto. Agarra nos dois vai sentar-se na única mesa lá fora, olhando em direcção aos prédios que escondem o rio.
 Bebe o café de um trago, dá o ultimo bafo do cigarro que acendera ao chegar lá fora, apagando a beata no cinzeiro de metal. Levanta o copo, como quem faz um brinde e parece murmurar algo inaudível antes de o levar à boca e esvaziar num só movimento. Olhando para dentro repara na mulher olhando-o. Sorri e faz sinal, a apontar o copo vazio, pedindo mais um. Do bolso sai um pequeno caderno, de outro bolso uma caneta, da cara os óculos de sol. Tudo sobre a mesa enquanto recolhe da mão da senhora o novo copo. O caderno fica aberto sobre a mesa, uma folha branca à excepção de uma só palavra, ao topo, ao centro, um titulo. A caneta na mão as vezes descendo quase até à folha mas o movimento pára sempre antes que tinta e papel se juntem e a caneta sobe de novo e ele olha mais um pouco e frente e depois num gesto brusco, furioso, volta a cair quase até à folha e de novo detém-se, milímetros antes de a tocar.
 Ele suspira, pousa a caneta e fuma mais um cigarro, bebe mais um pouco do vinho, pela primeira vez como se o provasse. Acabado o cigarro e o copo, o caderno volta ao bolso, a caneta a outro bolso, o maço do tabaco a outro bolso. Entra, levando o copo sujo e pergunta quanto deve, qual a despesa. Paga com moedas, e vira costas e sai antes que a senhora tenha tempo de devolver os 10 cêntimos a mais que deixou. Olha de relance rua acima mas nem parece que os seus olhos se fixem em coisa nenhuma. Desce de novo, mais rápido que antes como se o vinho o tivesse recordado de algo urgente para fazer. Não fuma, as mãos vão enfiadas fundo nos bolsos, os óculos de sol de novo na cara, e vira a esquina e desaparece.
 Um dia talvez volte aquele café e peça mais um copo de vinho, um dia talvez acabe o que tentava escrever, um dia talvez apareça com um sorriso na cara ao fundo da rua e o transporte consigo, usando-o com mais orgulho ainda que aquele com que usa os óculos e o cabelo.

Thursday, 2 May 2019

Ressaca

Largou a bebida mas a ressaca, essa nunca o largou. O sabor a deserto na boca, o peso dos anos no corpo, a cabeça a latejar arrebentando de tudo. Todos os dias se erguia a custo da cama, atropelado pela vida e pelo peso dos anos, as pernas parecendo-lhe elefantinas os braços de chumbo, o peito como que rijo, diafragma solidificado no lugar até que o primeiro ataque de tosse comece e o liberte espasmodicamente.
 Respira a custo, inspira umas quatro oito vezes e regulariza-se o input/output de ar lembrando-o do resto das dores, as pernas, finas como estacas, pesadas como colunatas gregas, músculos doridos e movimentos fracos descoordenados: senta-se na cama e enrola um cigarro, de olhos quase fechados, tacteando à procura das coisas na semiluz que escapa dos estores tão fechados quanto os longos anos sem reparações os permitem estar.
  De pés no chão e cigarro na boca, aceso, empurra-se para fora da cama, para longe do único sitio onde ainda se sente realmente bem. Arrasta-se até a cozinha, prepara uma caneca de café, forte, sem açúcar, bebe-o de um trago ainda antes de acabar o cigarro. Deixa a beata caída na sanita e passa a cara por água fria para limpar os medos e suores e frios da noite de pesadelos. Quando acaba de se vestir, não fora as olheiras e ninguém o consideraria menos do que um membro respeitável da sociedade. Certos dias isso diverte-o, noutros irrita-o ou entristece-o mas na maior parte dos dias, nem pensa nessas coisas. Aparar a barba, pentear o cabelo, remover os pelos do nariz e das orelhas, vestir o fato e gravata da praxe. Tudo isso é automático, tão parte do ritual matinal como as dores e o cigarro. Faz outro, em casa fuma sempre de enrolar para poupar dinheiro, porque gosta do controlo que tem sobre a quantidade e o tamanho ou apenas porque gosta do sabor. Cigarro no canto da boca, agarra as chaves, mete os óculos de sol, olha em volta do quarto para ter a certeza de não se ter esquecido de nada e sai casa fora, passeando a ressaca e o cansaço que já fazem parte de si.
 Amanhã, acordará de novo de ressaca e fumará mais um cigarro após o ataque de tosse e no dia seguinte e no dia seguinte  e no dia seguinte, até que um dia não acordará ou o ataque será tão forte que tossirá até os pulmões ou não chegará sequer a casa, interrompido o seu sofrimento por um autocarro conduzido por um motorista que, ao contrario dele, nunca largou a bebida e por isso nunca encontrou a ressaca de existir.

Wednesday, 27 March 2019

homem

vemos-nos todos os dias no autocarro. Quase todos. Há uns dias em que não o vejo e pergunto-me sempre se ele terá sido despedido, sempre com aquele fato velho, coçado, gasto. Enrola sempre um cigarro ao passar pelas ruínas da velha fábrica. Seria uma fábrica de que, não sei, já eram ruínas antes de lá passar pela primeira vez. Ele levanta-se, sempre na mesma altura, como se fosse um ritual que têm de cumprir, cigarro recém-feito, perfeitamente feito, parecendo quase um daqueles de maço, ele deve fumar tabaco de enrolar há muitos anos. Não sei dizer-lhe a idade, andará talvez pelos trinta, mas poderá ser mais um pouco ou menos um pouco. Nunca lhe ouvi a voz, está quase sempre ao telefone, quando não lê um livro velho qualquer, mas só escreve. Há dias em que tenho a certeza que troca mensagens com alguém que ama, os olhos dele sorriem nesses dias, sorriem cheios de luz e eu sinto uma inveja desmedida ao vê-lo assim, porque nenhuns olhos se iluminam assim quando lhes mando mensagens. Porque nunca fiz ninguém sorrir como ele sorri quando o telefone dele vibra, quase silenciosamente, na sua mão. Levanta-se, como sempre, o cigarro nos lábios, as mãos segurando os postes, o cabelo desalinhado caindo sobre os ombros, a mochila meio a tiracolo sempre a um milímetro de cair braço abaixo, aquele sorriso que tanto invejo nos olhos. O autocarro pára, ele aproxima-se da porta em pequenos passos largos e assim que ela se abre, ele dá um pequeno salto, pára logo ali na paragem e procura um isqueiro no bolso. Raramente o vejo a acender o cigarro, o autocarro acaba sempre por partir antes disso. E eu, olhando-o e invejando-o, esse homem que nunca conheci mas vejo todos os dias, fico a olhar para a feia paisagem industrial, a caminho do trabalho e a sonhar com um dia ter um sorriso como o que ele carrega naquele dias bons.

Monday, 4 March 2019

saudades

Escrevo-te as minhas saudades onde nunca as irás ler, poemas para que a página os tenha e não para que alguém os leia. Deixo-te beijos em todo o lado, sabendo que não os irás ver. Pinto flores no teu cabelo, vejo-as florir, desabrochar, rebentar numa explosão de cores e cheiros, murchar, cair, desaparecerem. Sonho o teu sorriso, com outros ao meu lado, toco-te a pele nas bochechas de outra face, beijo-te os lábios, sofregamente, ardente, apaixonado. Mas ao abrir os olhos outros me olham e a vergonha ganha-me, a tristeza de me saber ainda teu quando tu não és minha. Quanto custa ter-te apenas como a memória de ti... Existes em tudo o que faço, oxigénio da minha atmosfera, casa, castelo do meu pensar. Quero esquecer-te, apago os traços da tua cara com outras caras, o sabor do teu nome com carnais oralidades, o toque da tua pele com mamas e caralhos e conas, mas debaixo de fluídos e suor e os gemidos de prazer, ainda te sinto subcutânea, entranhada em mim, a correr nas minhas veias e a fazer bater o meu coração. Vejo-te, saia preta, top simples, sem maquilhagem a esconder as pequenas rugas, a tua cara tal como foi oferecida ao mundo. Vestes, mais do que a roupa no corpo, o sorriso. Aquele maldito sorriso. Aquela luz que ilumina a mais escura das escuridões que há em mim. Aquele abismo onde me perdi e perderei e perco ainda só de o sentir longe de mim. Chamo-te, a essa visão de ti, fantasma insubstancial que parece perseguir-me para todo o lado, pelo teu nome, esse que não gostas e no entanto é tão doce nos meus lábios. Aquele que me ensinaste, qual código secreto, password de prazer em ti. Oiço-te responder, mas a tua voz é sempre triste, carregada de toda a beleza das ruínas, e o meu nome que nos teus lábios já me levou ao êxtase, arrasta-me para longe da ilusão, esbofeteia-me no amor que ainda te guardo, pontapeia-me na esperança e pega fogo à paz que a tanto custo consegui resgatar para mim nuns braços que não teus, numa cama que não a nossa, num beijo que quase me faz esquecer que é a ti, e apenas a ti, que desejo beijar.
 Escrevo-te aqui, onde nunca me irás ler, as tuas batalhas são tuas para travar e nas minhas só eu posso lutar.

Sunday, 17 February 2019

método

o poeta, para escrever-se triste necessita de sentir essa tristeza. E para isso relê uma carta de rompimento de noivado, enquanto escuta musica melancólica a tocar em quase altos berros para que lhe afogue a mente com o sentimento e pensa em todas as lágrimas que derramou e conta-as! uma a uma, fecha os olhos para a ver cair : uma gota transparente de agua salgada correndo face abaixo, e o poeta aproxima-se da gota e vê no reflexo a miragem de um momento. Abrindo suavemente a boca, recolhe a lágrima na língua e saboreia-a, sentindo uns lábios há muito perdidos, o sabor da brisa marinha na cara, uma ultima refeição frente a frente... E nova lágrima cai, assim que o poeta deglute a primeira, e ele olha-a, cheira-a, prova-a, retira dela tristeza como nutriente para alimentar a tristeza que quer escrever. E uma lágrima lhe dirá, ao ouvido, sussurrante e sedutora : usa-me. Espalha-me no papel. Faz de mim um poema. E o poeta acede, e o poeta corre frenético em busca de um papel, de uma caneta, de um computador, de maquina de escrever, de uma tabuleta de pedra e de um cinzel. E, focando todo o seu ser naquela lágrima, o poeta fecha os olhos e escreve. E escreve-se triste, porque quando o poeta escreve aquela lágrima, o poeta vive-a de novo, sente em si toda a alegria cujo vazio criou a lágrima e todo o vazio o enche de palavras e ele escreve. E escreve até se esquecer das horas da comida da agua do dia da semana ou do mês do ano, só existe aquela lágrima e a amostra de mundo que existe dentro dela. Um ciclo de fotografias sobre uma voz que narra em versos que o poeta escreve, de tal modo possuído pela lembrança da tristeza que ele já não é o poeta mas a tristeza, ele já não escreve, existe-se a si mesmo como tristeza e derrama-se como lágrimas de palavras sobre o papel. Abandonada a sua alma e o seu corpo, o poeta voa sobre as palavras e como deus arranja e rearranja-as e corre em redor do tudo até que a lágrima se parte como espelho contra a parede e no meio do quarto, suado, transpirado e perspirado volta a si, a musica silenciada e de dentro da poça de lágrimas que lhe banha os pés nasce uma fina mesa de pé, e lá, pousado sobre ela, o Poema nascente.

Friday, 8 February 2019

inexistimos

no empalar das horas, estrebuchando no chão, víamos passar o que nunca fomos.
Sem o saber, fomos cuspidos para o chão por uma qualquer diva de um tempo perdido, como um espaço em branco entre duas notas. Sonhávamos com aquilo que nunca poderíamos ter, sabendo que, certamente, o iríamos conseguir alcançar. Não encontrando em nós forças para continuar a ser, decidimos desistir de toda e qualquer tentativa de sonhar. Hoje, vivemos apenas para pagar as dividas que nossos pais nos deixaram e aumentar aquelas que deixaremos aos nossos filhos. Ah o mal do mundo é ser mundo, tal como o mal do homem, é ser homem. Se nada fossemos, nada nos afectaria, e poderíamos, livres, estrebuchar no alheamento inerente à condição de nada sermos. A fama, meus amigos, é algo que se conquista. A dor, meus inimigos, é algo que oferecemos livremente a quem a quiser aceitar. Lembrai-vos, bíblicos seres que habitam este mundo cruel, que a dor é nossa, apenas se a quisermos. Nada que não desejemos nos poderá fazer sofrer. Ah quão bom é achar na dor apenas um estado de espírito e não ver nela a sua verdadeira essência : um modo de vida. Consumidos pela ganancia verde, somos cinzentos ao passar pela estrada negra da vida.(e aqui eis a verdadeira razão por detrás de tudo. Nada ser é tudo quanto faz tudo o que é, ser.).
Não, nunca fomos de verdade. No entanto, e sabendo quão frágil é a realidade, nada do que se diz pode fazer sentido. Eu não sou mais do que a sombra dos sonhos que tive num passado distante, e não desejo mais do que um dia, vir a fazer sombra aos sonhos que sonhei. Num mundo gélido, apenas o sol tocando-nos, quase eroticamente, nas costas, é real. Acreditem-me. Eu sei. E o amor. O amor.. Que dizer dele? É um Deus, num mundo onde os deuses morreram, um sonho, num mundo que perdeu o dom de sonhar, dinheiro para um pobre, e alegria para um rico. Sou feliz apenas por saber que poderia ser bem mais infeliz, ou serei infeliz apenas por saber que poderia ser bem mais feliz? Nada importa, bem vistas as coisas, porque no fundo, bem lá no fundo, onde realmente interessa:
não fomos.

[18|05|2006]

Tuesday, 5 February 2019

existência

eu não existo, sou apenas o passar do vento nas tuas folhas, o cair da noite de fora dos estores já fechados, o arrepio que te passa na espinha quando estás à porta de um cemitério, a outra pessoa que já não importa. Eu não existo, sou a cerveja que já esteve num copo agora vazio, a cinza que já foi um cigarro, o invólucro de um preservativo caído algures atrás de um armário. Eu não existo, sou o fosso entre duas escarpas, as flores debaixo do cimento de um parque de estacionamento, todas as palavras do dicionário que nunca são usadas. Eu não existo, fui o último dos sois nascentes antes da morte do universo, fui o poema que ninguém escreveu e ninguém irá escrever, fui Genghis Khan no leito de morte, fui o testamento de Napoleão, rasgado na hora da sua morte. Eu não existo, sou o 6o cavaleiro do apocalipse, sou  6o elemento, a 6a quina na bandeira de Portugal. Eu não existo, sou aquele match sem resposta no tinder, aquele pedido de amizade enviado há anos, um 404 na página que procuras. Eu não existo, mas há dias que sofro porque já acreditei que existia.

Tuesday, 29 January 2019

extinção

 Não saberia dizer quantas horas já tinham passado, os números no relógio já nada me diziam, se os conseguisse ainda ver por detrás da cortina de lágrimas que me escorria da cara. Ainda assim, eu esperava. Uma ultima centelha de esperança brilhava ainda dentro de mim, lutando com coragem contra a tempestade de negatividade que me percorria as veias aquecendo-me com o calor da raiva. Como uma vela deixada no alpendre numa tarde chuvosa, a centelha ameaçava apagar-se a qualquer instante. Concentrei-me nela, nessa réstia de luz no centro de um turbilhão de escuridão, tentando dar-lhe mais alento, tentando que ela se erguesse e consumisse os farrapos de sombra e, qual alquimista do século XIV, os transmutasse em mais esperança. Gritei, se com o corpo ou apenas o espírito não tenho maneira de o saber, tentando libertar alguma da raiva mas se alguma saiu, outra como ela imediatamente ocupou o seu lugar e nada se alterou ainda. Esperava, e aquele pequeno sol de fé em mim ia sendo engolido pelo buraco negro da duvida, lentamente, raio a raio, extinguindo-se um pouco mais a cada bater dos ponteiros do relógio que não via, ofuscado pelas lágrimas que escorriam sem parar por mais esforços que eu fizesse para me controlar. Triste visão seria certamente a de mim, roupas sujas e velhas, gastas pelo tempo e rasgadas por mim em fúria. Encolhido a um canto, barba por fazer e cabelo tão emaranhado que julgaria impossível algum dia o pentear de novo. Encolhido a um canto, lavado em lágrimas, baloiçando-me frente e trás, murmurando o nome da esperança em soluços que se convertiam, impiedosamente, em convulsões de tosse e expectoração, como se toda a escuridão que me consumia por dentro me chegasse aos pulmões e me impedisse de respirar como devia. Eventualmente deixei de sentir o tempo, deixei de sentir as lágrimas, deixei de sentir a raiva ou a escuridão. Senti apenas a esperança, aquela minúscula centelha dela a brilhar mais forte por um segundo apenas para se extinguir para sempre deixando-me sem dor, sem lágrimas, sem nada excepto a escuridão que me enche. Nada sinto e nada choro, nunca mais. 

Mas quem para sempre perde as lágrimas dos olhos perde também para sempre o sorriso dos lábios.