Alberto nunca mais escreveu um poema. Claro que o hábito de anos aparecia volta e meia e Alberto tinha de puxar do caderninho e de uma caneta para apontar três ou quatro palavras, soltas ou não, mas resistia sempre ao impulso de continuar e escrever uma quadra que depressa se tornariam duas três e por aí fora à medida que o poema deixava de ser seu e passava a existir como se tivesse vida própria.
Algumas vezes acordou a meio da noite, encharcado em suor e com um verso a bater dentro da cabeça e combatendo valorosamente o desejo foi até à bacia enfiar a cara bem fundo na água gelada, até que o poema nascente se aborta-se em si.
Anos mais tarde perguntaram-lhe uma vez se ele seria o mesmo Aberto Sobral que tinha escrito _aquele_ poema, _aquelas_ palavras que ressoavam ainda dentro de algumas almas mas ele fingia sempre que não, com algum embaraço por mentir das primeiras vezes, mas depois habituou-se a mais essa pequena traição à sua alma de poeta que tanto sofrimento lhe causara.
Tinha começado como um amor de verão, daqueles que se querem sem consequência nem sequela, conhecerá o rapaz, como sempre acontece nestas coisas, por acaso. Umas amigas tinham-lhe marcado um encontro com um conhecido delas, crítico de literatura e professor de uma qualquer universidade, Alberto se alguma vez chegou a decorar qual há muito que o esquecera, recentemente solteiro e saído da prisão de um casamento sem amor e sem desejo. Alberto tinha-se banhado e vestido em tempo quase recorde com a excitação de ir conhecer alguém novo e, tudo apontava, interessante e deu por si fora da porta de casa horas antes do suposto, e por isso deambulou pelas ruas um pouco até parar numa esplanada junto à marginal para beber um café ou uma aguardente ou ambos. Nem tinha reparado no rapaz sentado na cadeira ao lado até depois de beber o café e estar a preparar um cigarro para fumar, quando ao seu ouvido sentiu uma voz que o fez estremecer por dentro, ou pelo menos ele assim o conta, pedindo-lhe educadamente a gentileza de um isqueiro para acender o seu cigarro.
Não chegou a ir ao encontro e não voltou a casa nos próximos cinco dias, embrenhado em paixão e poesia, o rapaz era, nas suas próprias palavras, o maior fã de Alberto de todos e atingia um auge quase sexual só de o ver a escrever. Por sua vez Alberto sentia que tinha encontrado a sua musa, como se Renato tivesse saído directamente das águas de um qualquer rio grego para os seus braços, carregando em si a água ainda nova que os poetas clássicos haviam bebido. Debitava sonetos com uma agressividade quase bruta, chegando mesmo a rasgar algumas folhas na pressa de fazer chegar ao papel tudo quanto lhe transbordava. Renato atendia a todas as suas necessidades e só lhe permitia abandonar as folhas de papel para que ele fosse até à cama, e assim que Alberto se libertava da tensão erótica, voltava ao papel e escrevia, verso atrás de verso atrás de verso, comendo e bebendo apenas nos intervalos entre um poema e o próximo. Trocaram juras de amor eterno e fizeram planos para um futuro a dois, assim que a sociedade os deixasse fazê-lo, com direito a uma casinha nos montes e um pequeno cão que os seguiria para todo o lado.
Ao sexto dia, quando as férias de Renato acabaram, voltou a casa com 600 páginas que nem chegou a rever antes de as enfiar num envelope para que fossem tipografadas e as poder entregar para publicação.
Voltou ao fim do dia e manteve essa rotina durante mais uma semana. Um sábado Renato avisou-o que nessa tarde teria de tratar de uns assuntos e por isso Alberto teria de ir para casa mas prometeu que lhe ligaria depois a combinar o próximo encontro. Alberto estava já a meio caminho de casa quando se apercebeu que deixará a sua caneta preferida em casa de Renato e voltou atrás. Quis o destino que chegasse ao portão à mesma altura que a mulher e a filha de Renato, que estavam a ser comprimentadas com um beijo cada. Alberto tentou ser pragmático, e pediu educadamente a Renato para lhe dar uma palavra rápida. Renato virou-lhe as costas e Alberto ouviu dizer à mulher :
"É um paneleirote a quem cometi o erro de pedir lume no café o outro dia, o idiota deve ter achado que pego de empurrão como ele, não me largou durante o resto do tempo".
Alberto chorou copiosamente até casa e dois meses depois quando recebeu a carta aceitando para publicação o Paraíso dos Sentidos, respondeu que o nome teria de ser mudado para Inferno da Emoção e exigiu que na última página antes do índice fosse incluindo um outro poema, intitulado "o fim". O editor não acreditou no que Alberto prometera nessas curtas cinco linhas, tão diferentes do estilo de tudo o resto e aceitou, relutante, as alterações de última hora achando que acabara de publicar o primeiro de muitos outros clássicos modernos da poesia, mas Alberto manteve-se fiel às suas palavras:
último:
(a R.)
no teu peito ergui meu castelo
mas tu o desmoronas em egoísmo
cabe-te então carregar a cruz
de saber que depois de te perder
não voltarei a escrever.
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