Wednesday, 14 March 2018
Mãe
Olho-me neste espelho de água, e ao focar os meus olhos no reflexo, vejo-te, mãe. Vejo-me tu, como sei que serei. Não quero ser tu, mãe, mas não posso fugir de ti em mim. A água treme, um pequeno suspiro hidráulico no espelho e volto a ser eu, reflectida. As rugas desaparecem e o meu sorriso nasce de novo dos cantos descaídos dos teus lábios. Já não sou tu, mãe, mas serei, em breve. Olharei-me noutro espelho e o peso dos anos será meu de novo, uma e outra e outra vez terei eu esse ar gasto, esses olhos tristes. Não queira ser tu, mãe, não quero carregar também esse sofrimento que me dizes ser tudo o que te sobra, mãe. Essas rugas que exibes quase com orgulho, o orgulho de quem aguentou. Esse esgar de desafio com que cumprimentas o mundo, mãe, será meu também, ao olhar-me num espelho. Mas eu, mãe, quero ser eu e não tu. Eu quero ser a pessoa que sou e não o teu reflexo, mãe. Quero ser os meus lábios arqueados num sorriso e não abobadados num trejeito de infelicidade. Quero ser a minha testa lisa e não essa tiara de rugas. Quero ser o meu cabelo longo, escuro, solto, não esse carrapito branco no topo da cabeça, mãe. Quero não sofrer o mundo como tu o sofres, mãe. Quero olhar-me numa poça de água e ver-me a mim olhando-me de volta. Não quero ser tu mãe, quero ser eu, quero ver tudo com os meus olhos e não os teus, mãe. Mas, mãe, estarás sempre em todos os meus reflexos, como se fosse a tua a minha verdadeira cara, como se por debaixo do que sou eu existisse o que és tu, como se eu fosse nada, para além da imagem reflectida de ti, uma imagem que ficou presa dentro do tempo até que eu a olhei. Mãe, sei que serei tu, que eu não ficarei por aqui muito mais, já te sinto puxando-me o sorriso, enrugando-me a pele, as minhas mãos já custam a abrir e fechar, mãe, é assim que doem as tuas mãos? É assim, desfocado, assim cinzento, assim frio, que vês o mundo, mãe? Este frio que sinto, mãe, é teu também ou sou eu a fugir daquilo que sou? Mãe! Não quero ser tu, quero ser eu! Mas não me serve de nada lutar, mãe, sei que não posso fugir, não consigo fugir, estás dentro de mim e em breve, mãe, eu serei tu, o meu corpo estará velho e cansado como o teu, o meu cabelo branco e frágil, os meus olhos velhos, sem cor e sem brilho, a minha testa enrugada, as mãos fracas, os dentes caídos, as costas arqueadas e este sorriso quer me dizem ser eu, vai desaparecer. Mãe, quero fugir de ti, do futuro, do destino fado maldição mas, mãe, não posso fugir de ti porque já sou tu.
Tuesday, 6 March 2018
Do espaço entre as palavras
é neste espaço, neste vazio que fica entre a letra que acaba uma palavra e a letra que começa a próxima, que existe o significado daquilo que se escreve. É o vazio entre os sons, o silêncio entre fonemas, que está realmente carregado de sentido. As palavras são, em si, ocas, sem qualquer peso ou substância, só letras atiradas ao papel que de nada servem e para nada servem. Mas nos espaços entre elas existe todo o universo. Um silêncio entre duas palavras comporta uma enciclopédia de possibilidades, uma possibilidade de tudo que uma palavra colapsará numa certeza de tão pouco quando ela abraçar.
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