Friday, 7 September 2018

bala

Uma bala. Provavelmente no coração, ela sempre foi muito boa no tiro ao alvo e apesar de me apontar agora a arma que me vai matar em breve, afirma que gosta da minha cara e não acredito que ela me desfigure com o tiro entre os olhos. Não importa, para dizer a verdade. É assim que eu morro, aqui, agora. Gostava de ter tempo de me despedir de toda a gente, mas não vou conseguir. Estamos a quilómetros de toda a civilização, e duvido que mesmo fora deste armazém abandonado, penso que seria uma antiga fabrica de tijolos ou telhas ou ambas, se irá ouvir o tiro. A arma não tem silenciador, não faria sentido ter considerando que é suposto ser usada mais como uma ameaça do que uma arma, e se não fizesse barulho de um tiro ao disparar para ao céu, seria inútil. Não sei se ela irá chorar depois. Acredito, quero acreditar, que sim. Chorar um pouco, limpar as impressões digitais da arma e depois atirar a mesma para o pântano por onde ainda há pouco passamos a caminho daqui. Foi pelo menos esse o conselho que eu lhe dei. Talvez não o siga, só para ser do contra. Sempre foi muito. Quantas vezes não tive de pegar numa enciclopédia para lhe provar que estava errada! E nalguns casos acabei por me provar a mim mesmo que quem estava errado era eu. Devo ter sorrido ao lembrar-me disto porque ela olhou-me com um ar estranho durante uns instantes, antes de timidamente, sorrir de volta. Até aqui, agora com a arma apontada a mim, o sorriso me enche o coração.
 "Estás pronto?"
 A voz dela treme ligeiramente, e a minha deve tremer também quando respondo
 "Tanto quanto possível, diria eu."
 "Desculpa, eu..."
 "Não fales. Não vale a pena. Eu sei. E sim, também eu te amo."
 Ela dispara. Tudo fica lento, vejo a bala a ser ejectada em fúria do cano da arma e lentamente a dirigir-se a mim, e sinto que um milhão de anos separam o clarão do estrondo e outro isso de sentir a bala a tocar-me a pele. Sinto-me penetrado, "acho que nunca fui tão mulher como agora" penso. Assim que a bala passar a pele e os ossos, e como dói!, ira bater no coração e numa fracção de segundo, estarei morto. Tento sorrir, não sei se o consegui, mas tentei. Gostava que ela se lembrasse de mim assim, a sorrir-lhe. Ah, a bala chega e eu..
vou.

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