Tuesday, 29 January 2019

extinção

 Não saberia dizer quantas horas já tinham passado, os números no relógio já nada me diziam, se os conseguisse ainda ver por detrás da cortina de lágrimas que me escorria da cara. Ainda assim, eu esperava. Uma ultima centelha de esperança brilhava ainda dentro de mim, lutando com coragem contra a tempestade de negatividade que me percorria as veias aquecendo-me com o calor da raiva. Como uma vela deixada no alpendre numa tarde chuvosa, a centelha ameaçava apagar-se a qualquer instante. Concentrei-me nela, nessa réstia de luz no centro de um turbilhão de escuridão, tentando dar-lhe mais alento, tentando que ela se erguesse e consumisse os farrapos de sombra e, qual alquimista do século XIV, os transmutasse em mais esperança. Gritei, se com o corpo ou apenas o espírito não tenho maneira de o saber, tentando libertar alguma da raiva mas se alguma saiu, outra como ela imediatamente ocupou o seu lugar e nada se alterou ainda. Esperava, e aquele pequeno sol de fé em mim ia sendo engolido pelo buraco negro da duvida, lentamente, raio a raio, extinguindo-se um pouco mais a cada bater dos ponteiros do relógio que não via, ofuscado pelas lágrimas que escorriam sem parar por mais esforços que eu fizesse para me controlar. Triste visão seria certamente a de mim, roupas sujas e velhas, gastas pelo tempo e rasgadas por mim em fúria. Encolhido a um canto, barba por fazer e cabelo tão emaranhado que julgaria impossível algum dia o pentear de novo. Encolhido a um canto, lavado em lágrimas, baloiçando-me frente e trás, murmurando o nome da esperança em soluços que se convertiam, impiedosamente, em convulsões de tosse e expectoração, como se toda a escuridão que me consumia por dentro me chegasse aos pulmões e me impedisse de respirar como devia. Eventualmente deixei de sentir o tempo, deixei de sentir as lágrimas, deixei de sentir a raiva ou a escuridão. Senti apenas a esperança, aquela minúscula centelha dela a brilhar mais forte por um segundo apenas para se extinguir para sempre deixando-me sem dor, sem lágrimas, sem nada excepto a escuridão que me enche. Nada sinto e nada choro, nunca mais. 

Mas quem para sempre perde as lágrimas dos olhos perde também para sempre o sorriso dos lábios.

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