Monday, 4 March 2019

saudades

Escrevo-te as minhas saudades onde nunca as irás ler, poemas para que a página os tenha e não para que alguém os leia. Deixo-te beijos em todo o lado, sabendo que não os irás ver. Pinto flores no teu cabelo, vejo-as florir, desabrochar, rebentar numa explosão de cores e cheiros, murchar, cair, desaparecerem. Sonho o teu sorriso, com outros ao meu lado, toco-te a pele nas bochechas de outra face, beijo-te os lábios, sofregamente, ardente, apaixonado. Mas ao abrir os olhos outros me olham e a vergonha ganha-me, a tristeza de me saber ainda teu quando tu não és minha. Quanto custa ter-te apenas como a memória de ti... Existes em tudo o que faço, oxigénio da minha atmosfera, casa, castelo do meu pensar. Quero esquecer-te, apago os traços da tua cara com outras caras, o sabor do teu nome com carnais oralidades, o toque da tua pele com mamas e caralhos e conas, mas debaixo de fluídos e suor e os gemidos de prazer, ainda te sinto subcutânea, entranhada em mim, a correr nas minhas veias e a fazer bater o meu coração. Vejo-te, saia preta, top simples, sem maquilhagem a esconder as pequenas rugas, a tua cara tal como foi oferecida ao mundo. Vestes, mais do que a roupa no corpo, o sorriso. Aquele maldito sorriso. Aquela luz que ilumina a mais escura das escuridões que há em mim. Aquele abismo onde me perdi e perderei e perco ainda só de o sentir longe de mim. Chamo-te, a essa visão de ti, fantasma insubstancial que parece perseguir-me para todo o lado, pelo teu nome, esse que não gostas e no entanto é tão doce nos meus lábios. Aquele que me ensinaste, qual código secreto, password de prazer em ti. Oiço-te responder, mas a tua voz é sempre triste, carregada de toda a beleza das ruínas, e o meu nome que nos teus lábios já me levou ao êxtase, arrasta-me para longe da ilusão, esbofeteia-me no amor que ainda te guardo, pontapeia-me na esperança e pega fogo à paz que a tanto custo consegui resgatar para mim nuns braços que não teus, numa cama que não a nossa, num beijo que quase me faz esquecer que é a ti, e apenas a ti, que desejo beijar.
 Escrevo-te aqui, onde nunca me irás ler, as tuas batalhas são tuas para travar e nas minhas só eu posso lutar.

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