Friday, 18 April 2025

bárbaro

 Algures, por detrás do véu que separa as realidades, há um planeta em muito semelhante ao nosso: também ele carregado de muito mais água do que terra firme, também ele abençoado por uma lua morta e também ele habitado por criaturas várias e entre elas uma raça de primatas dotados de inteligência em tudo irmãos dos que escrevem e leem estas historias. Mas aqui começam a terminar as semelhanças e surgem as diferenças. Como se milhares de milhões de anos mais novo ou quem sabe eras mais velho, os seus continentes formam ainda uma pangea gigante, terra imensa que se estica no meio dos quatro mares que os sábios dessa terra sabem existir e para além deste apenas ilhas de diversos tamanhos lhes são conhecidas.

 Junto aos portos do mar do Este erguem-se os muitos castelos e torres de ErevZá, e é dentro de uma destas torres, ainda que debaixo do andar térreo, que dorme descansadamente na sua esparsa cela um jovem bárbaro, vestindo apenas uma curta saia que poderia ser de bisonte ou outro animal do seu tipo e das tatuagens vermelhas que lhe cobriam grande parte da pele. 

 O seu nome iremos descobrir em breve, mas a razão que aqui o trouxe é facilmente adivinhavel pelo sangue na espada que lhe pertence e pelos ricos farrapos de seda desse vermelho fluido encharcado que ninguém limpara ainda, encostada a uma mesa onde, adormecida, repousa a cabeça, elmo de metal e armadura completa, de um guarda. Junto à espada, em cima da mesma mesa, um punhal e uma bolsa de pele que presumivelmente andaria num dia normal a tiracolo do bárbaro.

 O sangue na grande espada de duas mãos e meia pertence, se é que os mortos podem ainda ter posses, a um nobre que cometeu o erro de insultar a coragem de um jovem guerreiro das tribos centrais em plena avenida principal. Pesará a favor do jovem o facto de não ter morto - ou sequer atacado - nenhum dos guardas que imediatamente correram para o prender, num futuro julgamento. A seu favor também as imensas testemunhas, todas elas cortesãs (que no nosso mundo seria um ponto contra mas neste em que as leis de honra variam bastante, um ponto a favor), que jurariam debaixo de uma égide da sua deusa do amor que o jovem havia dado tempo e hipótese ao nobre de se desculpar antes de defender o seu bom nome com dois grandes semicirculos da sua espada que cortaram, por esta ordem, o estômago e o pescoço do nobre, deixando-lhe ainda o sorriso que se achava superior nos lábios pintados, mesmo depois do corpo cair, de um modo quase plebeu, de costas no chão. 

 Foi já dois dias depois, passados entre dormir, comer o pão seco com água quase limpa e exercícios que deixariam um qualquer personal trainer do nosso mundo inchado de orgulho, que o jovem bárbaro foi levado a tribunal, arrastando consigo ainda o mesmo sorriso meio maroto meio inocente com que ele mesmo havia sido arrastado para dentro da cela que havia sido a sua casa no último par de noites. A nós, que lemos este relato deste lado do véu, o nome tribunal pode evocar certas imagens que não poderiam estar mais longe dá realidade de um tribunal em ErevZá. Esqueçam o juri sentado ordenamente a um lado, esqueçam um qualquer juiz de toga negra e ar sério: este tribunal é apenas uma sala bafienta no interior da torre da prisão, um guarda de capacete dourado - única insígnia do seu posto, sentado preguiçosamente de perna aberta ao lado de uma mesa carregada de papéis chama pelo próximo e o jovem bárbaro entra, sorrindo ainda e ladeado por dois guardas que carregavam nos olhos o medo de saber que teriam de o restringir se este discordasse do julgamento. 

 Sem olhar para o trio, mas antes com os olhos enfiados na folha que havia puxado do topo da pilha lê, de uma só assentada a acusação - morte sem provocação - e a defesa - o nobre havia insultado, em frente a testemunhas, o jovem bárbaro - e por fim movendo os olhos para longe do papel e na direcção do acusado diz: "É meu julgamento que a morte foi provocada e como tal não irei aplicar qualquer pena a Torl. O próximo!" - esta última palavra um grito já. Torl, pois é esse o nome do jovem bárbaro, sorri tão gentilmente quanto as suas feições o permitem e faz uma pequena vénia, deixando-se ser levado pelos guardas até aos seus pertences e dos para fora da torre e colocado, sem grande cerimónia ou pedido de desculpa, na ponta da grande praça central. 

 Horas mais tarde, na lampreia de ouro, uma taverna de aspecto sujo, cujas paredes os archotes haviam tingido de preto, sentado a um canto, de frente para a porta e com um jarro de cerveja quente à sua frente, Torl parecia imerso em meditação, os seus cabelos louros escorrendo pelos ombros quase até ao umbigo e os olhos semi-cerrados, os lábios finos e secos afunilados num esgar de concentração e a testa franzida. Com o afastar da imagem vemos nas suas mãos um cubo disforme de madeira que ele dextramente rodava entre os dedos puxando e empurrando as pequenas saliências, testando o puzzle das ilhas do sul. A sua concentração foi interrompida por duas vozes quase gritando "PERO COÑO, QUE DISSES?" "HOSTIA, QUE LOS DRAGONES SON ROJOS, CABRON"

 Torl suspirou e disse entre dentes "Orcs.." meio exasperado. Na sua terra acreditava-se que os orcs haviam sido homens antigamente, uma tribo nomada inteira amaldiçoada - por haver acordado do seu sono um poderoso feiticeiro - com as suas feições repugnantes e a incapacidade de baixar a voz por um segundo que fosse. E na realidade eram ainda visíveis, por debaixo dos olhos encolhidos e do narriz atarracados por causa da boca grotescamente alargada, parecenças claras com um humano : os braços ligeiramente mais compridos, as costas encurvadas como um corcunda e pernas que pareciam demasiado curtas para um tronco tão largo mas claramente humanoide. 

"NO ME TOQUES LOS COJOÑES!" A voz de um orc era como um trovão e apenas recentemente haviam sido considerados dignos de entrar em cidades, e mesmo assim não em todas. Estes interromperam a discussão para procurar alguém entre os clientes e Torl viu com desagrado que era ele quem procuravam quando se dirigiram até à sua mesa e, deixando a língua negra pela primeira vez desde que haviam entrado, lhe disseram, num ErveZaés passavel "Tu Torl barbaro? Nós emissários de JUAN CARLOS" - o nome do imperador orc soava abrasivo aos ouvidos de Torl -"e vir pedir ajuda" - incaracteristicamente calaram-se e olharam-no em silêncio. O bárbaro fixou os olhos no que parecia mais velho e grunhiu um "sim" inquisitivo. "JUAN CARLOS precisar FILIPÕLAS forte" - o termo usado era depreciativo mas Torl deixou passar com apenas um franzir de olhos - "para devolver nosso ídolo que tribos roubarem. Tu vir com nós e ir atacar eles." - A conversa terminada, tanto quanto lhes interessava, os orcs nem esperaram para ver se ele os seguia e saíram porta fora. O jovem bárbaro observou-os a sair, encolheu os ombros e enfiando o cubo numa bolsa, agarrou o jarro com as duas mãos e bebeu o conteúdo em três grandes golos. Atirando uma moeda de cobre para cima mesa agarrou a espada e saiu atrás dos orcs.

 Três dias depois, já ErveZa ficara há muito para trás e cavalgavam pelos campos de agricultura que alimentavam a grande cidade. Cruzavam carroças algumas vezes ao dia e viam familias a tratar da terra, mas a grande estrada estava deserta a maior parte do tempo. Os orcs, Pablo e Esteban, como qualquer outros da sua raça raramente se calavam entre si mas Torl pouco mais aprendeu sobre a missão excepto que quem roubara o idolo foram membros de uma outra tribo orc, Andales, das montanhas a norte. O jovem mantinha a pretensa de não falar a suja língua negra e cavalgava uns metros atrás para descansar os ouvidos quando subitamente os seus companheiros se calaram. Apesar da maldição os orcs eram guerreiros temidos e Torl seguiu-lhes a deixa quando os viu a soltar as espadas e preparar-se para a batalha. Metros a frente deles um pequeno bosque rodeava a estrada e quando Torl os apanhou eles apontaram para um rastro quase invisível a correr para dento das árvores. Surpreendentemente Pablo, o único dos dois que falava ErveZaniano, sussurou "salteadores" e desmontou em silêncio. Esteban e Torl fizeram o mesmo e os três seguiram o rastro até darem com as costas de um rapaz que não teria mais de 14 anos e que apontava uma besta em direcção à estrada. Pablo levantou a espada como para matar o jovem mas Torl segurou-lhe o braço e sacou de uma faca que encostou ao pescoço do salteador e sussurou-lhe ao ouvido "não grites e ainda podes voltar a casa". Levantando-o gentilmente levou-o até a estrada e disse em voz alta "Apenas queremos passagem segura e se isso acontecer soltamos aqui o rapazinho" - este, indignado, disse "sou um homem e o meu nome é Brendil Tirocerto!" 

 Dois homens vestidos da cor das arvores sairam de braços levantados e um deles respondeu ao barbaro "Tens a minha palavra que ninguém vos atacara enquanto tiveres o meu filho refem. E que se o libertares sem mazelas não vos atacaremos hoje. Juro pelos deuses que a terra guardam." Assim que Torl soltou o jovem, após passarem as árvores este pegou na sua besta e disparou, atingindo um passaro que passava a dezenas de metros de altura, sorriu tão arrogantemente quanto pode uma cara de adolescente sorrir e voltou a passos largos para junto do seu pai. O barbaro gritou-lhe "Fazes jus ao teu nome, Brendil Tirocerto! Da próxima vez que nos encontrarmos, que estejamos do mesmo lado!" e montando o cavalo fez sinal aos orcs para seguirem viagem. 

 Já tinha passado uma semana desde que saíram de ErveZa antes de encontrarem os rastos dos Andales: a relva pisada e restos de comida atirada ao calhas a volta da fogueira. Pablo, após inspeccionar os restos e conferenciar na língua negra com Esteban, disse "Ontem estarem aqui, hoje ali" - apontou na direcção do sol que ainda se erguia -"se rápido ainda apanhar hoje". A única resposta de Torl foi soltar a espada na bainha e dar a trote na direcção apontada. Os orcs seguiram logo atrás, berrando obscenidades na sua língua negra, até que o jovem bárbaro os silenciou, querendo apanhar os Andales de surpresa. Não foi muito depois que ouviram a tribo nómada, ainda antes de os conseguirem ver, berrando na sua versão da língua negra parecida mas ainda assim diferente da que Pablo e Estevan usavam entre si. Por gestos, pois a audição dos orcs era quase tão boa como a sua voz, Torl indicou um plano de ataque simples: seguir os nómadas até que a noite caísse (um círculo que os indicava aos três, uma mão aberta de lado na direcção pretendida e o símbolo universal do por do sol, uma mão aberta fechando-se) e depois atacar, um de cada lado (apontou cada um deles e três lados diferentes e depois fez como se desembainhasse a espada e com ela rachasse uma cabeça). Pablo respondeu em alta voz, como todos da sua raça falam "SIM FAZER ISSO".

 Suspirando Torl desbainhou a espada de verdade, agarrou o machado na mão esquerda e firmou os pés no chão, preparado para o inevitável ataque. Segundos depois os Andales estavam em cima do monte que os separara dos seus perseguidores, espadas em punho e gritos de morte nas bocas. Os companheiros do bárbaro perceberam rapidamente que os seus planos haviam sido frustrados e também eles se colocaram em posição para lutar. Mais de 20 Andales desceram a crista do monte mas nenhum a voltou a subir, quase metade cortada pelos golpes certeiros de Torl, a sua espada girando e espalhando sangue por todo o lado, o seu machado enfiado no crânio de um Andale especialmente grande. Quando se viu sem inimigos à sua volta o jovem olhou para os seus companheiros que, apesar de alguns cortes, provaram pertencer à elite de Juan Carlos, o maior dos reis dos orcs, ao dizimarem entre si 11 orcs Andales. Esteban sorria e Torl quase temeu os olhos sedentos de sangue deste mas os sons que vinham do outro lado da colina chamaram-lhe a atenção. Lá, os sobreviventes, diplomatas e mulheres, começavam a compreender que a sua escolta não tinha sido bem sucedida. Tentavam ferneticamente discutir o que fazer em tons que para orc eram quase sussurros mas claramente audíveis para Torl que entretanto subira à crista do monte e os olhava. 

'Eu aconselharia que devolvessem o ídolo e fugissem. Não é do meu interesse matar mulheres, velhos, cobardes e crianças". Se os Andales já estavam assustados ainda mais ficaram quando ao lado do bárbaro com a sua espada pingando sangue apareceram dois orcs usando as cores da corte, as caras pintadas com o sangue dos que haviam protegido a caravana. Sem grande debate um dos diplomatas, um velho de grandes barbas, retirou da sua bolsa uma imagem de uma mulher com uma criança aos braços, aparentemente feita de ouro puro, pousou-a no chão e apressadamente empurrou o resto da comitiva na direcção contrária dos guerreiros cobertos de sangue, gritando na sua variante da língua negra que bem tinha avisado que nunca deviam ter roubado o ídolo. 

 Cinco dias depois Torl recebeu das mãos do rei Orc em pessoa o seu pagamento e recusando delicadamente os avanços de várias mulheres orc, cavalgou do Castelo de MeahdRid para nunca mais lá voltar.