Tuesday, 14 August 2018

Fábrica

uma parede de pequenas janelas, não maiores que vigias de um navio, em silêncio imóvel enquanto o sol nasce lentamente, enchendo de luz as sombrias ruas, quarteirões atrás de quarteirões de pequenas vigias em grandes paredes de cimento nu. trezentas vigias em cada parede, 150 para cada lado, 10 paredes por quarteirão, 20 quarteirões por bairro. O sol vai a meio caminho do céu e a sirene ouve-se, correndo à frente da luz. A primeira fila de cada parede abre-se, e de lá cambaleia para fora uma pessoa por vigia, arrastando-se até a estrutura branca que existe em frente a cada parede. Lá dentro enfiam-se noutra caixa e são lavados, esfregados, curados de ressacas constipações prisões de ventre e outras pequenas imperfeições no seu bem estar físico. Lá fora as paredes já puxaram as cápsulas casas vazias para cima e quando saiem, vestidos, banhados, injeção de cafeína tomada, barbados, os habitantes das mesmas das wcs matinais já a próxima leva entra por lá a dentro. O processo continua durante meia hora, até que todas as 60.000 pessoas que ali vivem estejam nas passadeiras que os levam até à fábrica. Grupos de 4000 chegam de cada vez e dirigem-se as suas bancas de trabalho, sentando-se, ligando-se ao seu terminal, pousando os feios, toscos capacetes de plástico na cabeça. Tudo é feito quase automaticamente por cada uma das pessoas. A grande maioria deles não disse ainda uma só palavra desde que acordou, e irá passar o dia assim. Quando começam a tocar as sirenes de turno, uma a cada 15 minutos, as luzes das bancas acendem-se e dentro do mundo virtual, cada uma das pessoas começa a existir realmente. Alguns passeiam pelas praias paradisíacas que já não existem na Terra, outros em históricos monumentos que foram cuidadosa e metódicamente fotografados, registados e guardados no virtual antes de demolidos para criar mais fábricas e mais muros. Outros passeiam pelas grandes cidades, incertos sobre a realidade daquelas casas em que cabia mais de uma pessoa, sobre aquelas ruas em que as pessoas não podiam andar por lá passarem carros. Outros navegavam nos mares de iodo de um qualquer planeta recém descoberto, outros jogam em casinos do tamanho de cidades. Outros outros, outros tantos outros como possibilidades. Cada fábrica emprega 240000 pessoas, 4 bairros por fábrica. Toda a terra, quase, uma fábrica gigante e pouco mais. Lá fora, em satélites mais ou menos naturais, alguém há de se aproveitar desse dinheiro que é criado, sem que ninguém saiba muito bem como, porque ou para que. Mas as pessoas continuam a acordar com a sirene, trabalhar até à próxima sirene, dormir e repetir.

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