Wednesday, 5 August 2020

último

Alberto nunca mais escreveu um poema. Claro que o hábito de anos aparecia volta e meia e Alberto tinha de puxar do caderninho e de uma caneta para apontar três ou quatro palavras, soltas ou não, mas resistia sempre ao impulso de continuar e escrever uma quadra que depressa se tornariam duas três e por aí fora à medida que o poema deixava de ser seu e passava a existir como se tivesse vida própria.
 Algumas vezes acordou a meio da noite, encharcado em suor e com um verso a bater dentro da cabeça e combatendo valorosamente o desejo foi até à bacia enfiar a cara bem fundo na água gelada, até que o poema nascente se aborta-se em si.
 Anos mais tarde perguntaram-lhe uma vez se ele seria o mesmo Aberto Sobral que tinha escrito _aquele_ poema, _aquelas_ palavras que ressoavam ainda dentro de algumas almas mas ele fingia sempre que não, com algum embaraço por mentir das primeiras vezes, mas depois habituou-se a mais essa pequena traição à sua alma de poeta que tanto sofrimento lhe causara.
 Tinha começado como um amor de verão, daqueles que se querem sem consequência nem sequela, conhecerá o rapaz, como sempre acontece nestas coisas, por acaso. Umas amigas tinham-lhe marcado um encontro com um conhecido delas, crítico de literatura e professor de uma qualquer universidade, Alberto se alguma vez chegou a decorar qual há muito que o esquecera, recentemente solteiro e saído da prisão de um casamento sem amor e sem desejo. Alberto tinha-se banhado e vestido em tempo quase recorde com a excitação de ir conhecer alguém novo e, tudo apontava, interessante e deu por si fora da porta de casa horas antes do suposto, e por isso deambulou pelas ruas um pouco até parar numa esplanada junto à marginal para beber um café ou uma aguardente ou ambos. Nem tinha reparado no rapaz sentado na cadeira ao lado até depois de beber o café e estar a preparar um cigarro para fumar, quando ao seu ouvido sentiu uma voz que o fez estremecer por dentro, ou pelo menos ele assim o conta, pedindo-lhe educadamente a gentileza de um isqueiro para acender o seu cigarro.
 Não chegou a ir ao encontro e não voltou a casa nos próximos cinco dias, embrenhado em paixão e poesia, o rapaz era, nas suas próprias palavras, o maior fã de Alberto de todos e atingia um auge quase sexual só de o ver a escrever. Por sua vez Alberto sentia que tinha encontrado a sua musa, como se Renato tivesse saído directamente das águas de um qualquer rio grego para os seus braços, carregando em si a água ainda nova que os poetas clássicos haviam bebido. Debitava sonetos com uma agressividade quase bruta, chegando mesmo a rasgar algumas folhas na pressa de fazer chegar ao papel tudo quanto lhe transbordava. Renato atendia a todas as suas necessidades e só lhe permitia abandonar as folhas de papel para que ele fosse até à cama, e assim que Alberto se libertava da tensão erótica, voltava ao papel e escrevia, verso atrás de verso atrás de verso, comendo e bebendo apenas nos intervalos entre um poema e o próximo. Trocaram juras de amor eterno e fizeram planos para um futuro a dois, assim que a sociedade os deixasse fazê-lo, com direito a uma casinha nos montes e um pequeno cão que os seguiria para todo o lado.
  Ao sexto dia, quando as férias de Renato acabaram, voltou a casa com 600 páginas que nem chegou a rever antes de as enfiar num envelope para que fossem tipografadas e as poder entregar para publicação. 
  Voltou ao fim do dia e manteve essa rotina durante mais uma semana. Um sábado Renato avisou-o que nessa tarde teria de tratar de uns assuntos e por isso Alberto teria de ir para casa mas prometeu que lhe ligaria depois a combinar o próximo encontro. Alberto estava já a meio caminho de casa quando se apercebeu que deixará a sua caneta preferida em casa de Renato e voltou atrás. Quis o destino que chegasse ao portão à mesma altura que a mulher e a filha de Renato, que estavam a ser comprimentadas com um beijo cada. Alberto tentou ser pragmático, e pediu educadamente a Renato para lhe dar uma palavra rápida. Renato virou-lhe as costas e Alberto ouviu dizer à mulher :
   "É um paneleirote a quem cometi o erro de pedir lume no café o outro dia, o idiota deve ter achado que pego de empurrão como ele, não me largou durante o resto do tempo".
   Alberto chorou copiosamente até casa e dois meses depois quando recebeu a carta aceitando para publicação o Paraíso dos Sentidos, respondeu que o nome teria de ser mudado para Inferno da Emoção e exigiu que na última página antes do índice fosse incluindo um outro poema, intitulado "o fim". O editor não acreditou no que Alberto prometera nessas curtas cinco linhas, tão diferentes do estilo de tudo o resto e aceitou, relutante, as alterações de última hora achando que acabara de publicar o primeiro de muitos outros clássicos modernos da poesia, mas Alberto manteve-se fiel às suas palavras:

último:
(a R.)

no teu peito ergui meu castelo
mas tu o desmoronas em egoísmo
cabe-te então carregar a cruz
de saber que depois de te perder
não voltarei a escrever.

Friday, 26 June 2020

Colher

Havia uma colher de sopa que detestava sopa. A textura e o sabor da sopa, qualquer sopa, quando ela lhe passava sobre a pele metálica fazia-lhe.. Confusão, irritação, asco, nojo, impressão.. Ela nunca conseguiu decidir qual a palavra certa para descrever a sensação (o que não é de todo estranho ou incomum numa colher, não são e nunca foram conhecidos por ser especialmente fluentes ou dotados de vasto vocabulário. A uma colher não se quer nem deseja particular capacidade intelectual).
Soubesse a pequena placa de metal que seria prensada numa colher antes de o ser (algo no complicado processo de abençoamento reage melhor a matéria prima, nos casos de objectos compostos de um só material (várias tentativas foram realizadas para juntar mais de uma alma num só objecto, mas até coisas simples como um lápis eventualmente quebravam e rebentavam em revoluções internas, inutilizando-se no processo)) e ter-se-ia revoltado, berrado tão alto quanto possível. Mas não soube. Sabia que odiava sopa ainda antes de a provar, mas só percebeu que sentimento era esse que quase a corroía meses mais tarde (meses mais tarde pois passou ainda bastante tempo numa prateleira de um qualquer supermercado regional à espera de um cliente que a levasse (vários grupos de Direitos dos Objetos Abençoados Com Alma tinham já longamente chamado a atenção tanto para o direito à escolha de todos os O.A.C.A.s monomateriais a serem o que desejam ser como para a injustiça que era os OACA-mms Talheres (a nomenclatura usada para falar de objectos abençoados com alma era ainda extremamente recente, até poucos anos antes nunca ninguém havia tido tempo para se preocupar com eles o suficiente para os distinguir dos objetos sem alma) serem todos vendidos numa grande caixa com separadores individuais, obrigando-os a sofrerem sós o período que a recem-criada nomenclatura designara de "Período de Espera Pré-Escravatura", o PEPE, lê-se pêpe)).
 Durante todo o seu PEPE solitário a já colher sofreu uma ansiedade imensa, porque algo que sabia ser importante, grave, pesado (mais uma vez era uma palavra que ela não conseguia escolher) lhe doía mesmo no fundo da alma. De certa forma ela até agradeceu quando pela primeira vez, quase uma semana depois de ter sido comprada, foi pela primeira vez usada. Foi o pior momento da sua vida, saber que iria para sempre detestar a razão da sua existência mas ao menos tempo sentiu algo que não saberia dizer ser alívio (vocabulário curto, uma vez mais) mas que o era, finalmente percebeu que dor sentia, o que era aquele sofrimento que lhe esmagava a alma desde que primeiro fora abençoada.

Thursday, 20 February 2020

freedom

He runs, vigorously through the plantation's fields. The clock just banged six and the train will be passing the deep woods soon. He has but one chance, tomorrow the master will have returned and found the dead foreman, he will be lashed if not hanged for certain. The master always punishes him first. Thoughts run through his mind as he runs through the corn knobs, the first trees approaching and freedom just a train ride away. It has been planned, it has been decided, it has been prepared, all will happen as the Lord wills it, and the Lord surely wants his freedom. The trees grow less sparse and the ground more uneven, less than a mile to the tracks, he runs faster if faster is even possible, jumping logs and roots, dodging branches and looking always forward, towards the tracks he can't see, only sense. The night is calm all around him, no sounds but his footsteps on the dead leaves, the air feels paralyzed as he cuts it with his lean, muscular, well shaped body, years of work on it. The old used shirt hides the scars of the beatings, master always was careful not to hit his slaves on any visible place as that would lower their market value, he used to say, he will still say. He runs no more, the tracks are at his feet, the log he cut at his side. Pushing it into the track is no great workout for someone as used to carrying burdens as him, hiding on the right tree also a easy task, the hardest part was already behind him, now he only has to wait and jump. He thinks of all those he will leave behind. Maybe he can return, the war is approaching soon and he will be on the right side of it. His fantasies of killing master, dressed in the pretty uniforms of the Northern soldiers are interrupted by the long awaited trepidation of the tracks, the train comes finally, the five-thirty-five cargo is soaring through the endless plantations, the fields where uncountable brothers and sisters of his lost their lives, their dignity, their humanity. Soon he will be free. The white round light of hope starts shinning down the tracks, ir screams of freedom, his voice a mechanical thundering roar. The train is now within eyesight and he lets a small prayer out that the driver sees the log, and God answers in the form of a miracle, the miracle of freedom, he thinks, as the train comes to a full stop. In the dark he runs towards a carriage, slowly opening a door and jumping inside. He closes the door, careful not to make noise, even if the roaring of the great steam engine silences anything. He hides behind the crates and, for the first time in hours, breathes easily, his freedom a few stops away.