no empalar das horas, estrebuchando no chão, víamos passar o que nunca fomos.
Sem o saber, fomos cuspidos para o chão por uma qualquer diva de um tempo perdido, como um espaço em branco entre duas notas. Sonhávamos com aquilo que nunca poderíamos ter, sabendo que, certamente, o iríamos conseguir alcançar. Não encontrando em nós forças para continuar a ser, decidimos desistir de toda e qualquer tentativa de sonhar. Hoje, vivemos apenas para pagar as dividas que nossos pais nos deixaram e aumentar aquelas que deixaremos aos nossos filhos. Ah o mal do mundo é ser mundo, tal como o mal do homem, é ser homem. Se nada fossemos, nada nos afectaria, e poderíamos, livres, estrebuchar no alheamento inerente à condição de nada sermos. A fama, meus amigos, é algo que se conquista. A dor, meus inimigos, é algo que oferecemos livremente a quem a quiser aceitar. Lembrai-vos, bíblicos seres que habitam este mundo cruel, que a dor é nossa, apenas se a quisermos. Nada que não desejemos nos poderá fazer sofrer. Ah quão bom é achar na dor apenas um estado de espírito e não ver nela a sua verdadeira essência : um modo de vida. Consumidos pela ganancia verde, somos cinzentos ao passar pela estrada negra da vida.(e aqui eis a verdadeira razão por detrás de tudo. Nada ser é tudo quanto faz tudo o que é, ser.).
Não, nunca fomos de verdade. No entanto, e sabendo quão frágil é a realidade, nada do que se diz pode fazer sentido. Eu não sou mais do que a sombra dos sonhos que tive num passado distante, e não desejo mais do que um dia, vir a fazer sombra aos sonhos que sonhei. Num mundo gélido, apenas o sol tocando-nos, quase eroticamente, nas costas, é real. Acreditem-me. Eu sei. E o amor. O amor.. Que dizer dele? É um Deus, num mundo onde os deuses morreram, um sonho, num mundo que perdeu o dom de sonhar, dinheiro para um pobre, e alegria para um rico. Sou feliz apenas por saber que poderia ser bem mais infeliz, ou serei infeliz apenas por saber que poderia ser bem mais feliz? Nada importa, bem vistas as coisas, porque no fundo, bem lá no fundo, onde realmente interessa:
não fomos.
[18|05|2006]
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