Tuesday, 5 February 2019

existência

eu não existo, sou apenas o passar do vento nas tuas folhas, o cair da noite de fora dos estores já fechados, o arrepio que te passa na espinha quando estás à porta de um cemitério, a outra pessoa que já não importa. Eu não existo, sou a cerveja que já esteve num copo agora vazio, a cinza que já foi um cigarro, o invólucro de um preservativo caído algures atrás de um armário. Eu não existo, sou o fosso entre duas escarpas, as flores debaixo do cimento de um parque de estacionamento, todas as palavras do dicionário que nunca são usadas. Eu não existo, fui o último dos sois nascentes antes da morte do universo, fui o poema que ninguém escreveu e ninguém irá escrever, fui Genghis Khan no leito de morte, fui o testamento de Napoleão, rasgado na hora da sua morte. Eu não existo, sou o 6o cavaleiro do apocalipse, sou  6o elemento, a 6a quina na bandeira de Portugal. Eu não existo, sou aquele match sem resposta no tinder, aquele pedido de amizade enviado há anos, um 404 na página que procuras. Eu não existo, mas há dias que sofro porque já acreditei que existia.

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