Wednesday, 27 March 2019

homem

vemos-nos todos os dias no autocarro. Quase todos. Há uns dias em que não o vejo e pergunto-me sempre se ele terá sido despedido, sempre com aquele fato velho, coçado, gasto. Enrola sempre um cigarro ao passar pelas ruínas da velha fábrica. Seria uma fábrica de que, não sei, já eram ruínas antes de lá passar pela primeira vez. Ele levanta-se, sempre na mesma altura, como se fosse um ritual que têm de cumprir, cigarro recém-feito, perfeitamente feito, parecendo quase um daqueles de maço, ele deve fumar tabaco de enrolar há muitos anos. Não sei dizer-lhe a idade, andará talvez pelos trinta, mas poderá ser mais um pouco ou menos um pouco. Nunca lhe ouvi a voz, está quase sempre ao telefone, quando não lê um livro velho qualquer, mas só escreve. Há dias em que tenho a certeza que troca mensagens com alguém que ama, os olhos dele sorriem nesses dias, sorriem cheios de luz e eu sinto uma inveja desmedida ao vê-lo assim, porque nenhuns olhos se iluminam assim quando lhes mando mensagens. Porque nunca fiz ninguém sorrir como ele sorri quando o telefone dele vibra, quase silenciosamente, na sua mão. Levanta-se, como sempre, o cigarro nos lábios, as mãos segurando os postes, o cabelo desalinhado caindo sobre os ombros, a mochila meio a tiracolo sempre a um milímetro de cair braço abaixo, aquele sorriso que tanto invejo nos olhos. O autocarro pára, ele aproxima-se da porta em pequenos passos largos e assim que ela se abre, ele dá um pequeno salto, pára logo ali na paragem e procura um isqueiro no bolso. Raramente o vejo a acender o cigarro, o autocarro acaba sempre por partir antes disso. E eu, olhando-o e invejando-o, esse homem que nunca conheci mas vejo todos os dias, fico a olhar para a feia paisagem industrial, a caminho do trabalho e a sonhar com um dia ter um sorriso como o que ele carrega naquele dias bons.

Monday, 4 March 2019

saudades

Escrevo-te as minhas saudades onde nunca as irás ler, poemas para que a página os tenha e não para que alguém os leia. Deixo-te beijos em todo o lado, sabendo que não os irás ver. Pinto flores no teu cabelo, vejo-as florir, desabrochar, rebentar numa explosão de cores e cheiros, murchar, cair, desaparecerem. Sonho o teu sorriso, com outros ao meu lado, toco-te a pele nas bochechas de outra face, beijo-te os lábios, sofregamente, ardente, apaixonado. Mas ao abrir os olhos outros me olham e a vergonha ganha-me, a tristeza de me saber ainda teu quando tu não és minha. Quanto custa ter-te apenas como a memória de ti... Existes em tudo o que faço, oxigénio da minha atmosfera, casa, castelo do meu pensar. Quero esquecer-te, apago os traços da tua cara com outras caras, o sabor do teu nome com carnais oralidades, o toque da tua pele com mamas e caralhos e conas, mas debaixo de fluídos e suor e os gemidos de prazer, ainda te sinto subcutânea, entranhada em mim, a correr nas minhas veias e a fazer bater o meu coração. Vejo-te, saia preta, top simples, sem maquilhagem a esconder as pequenas rugas, a tua cara tal como foi oferecida ao mundo. Vestes, mais do que a roupa no corpo, o sorriso. Aquele maldito sorriso. Aquela luz que ilumina a mais escura das escuridões que há em mim. Aquele abismo onde me perdi e perderei e perco ainda só de o sentir longe de mim. Chamo-te, a essa visão de ti, fantasma insubstancial que parece perseguir-me para todo o lado, pelo teu nome, esse que não gostas e no entanto é tão doce nos meus lábios. Aquele que me ensinaste, qual código secreto, password de prazer em ti. Oiço-te responder, mas a tua voz é sempre triste, carregada de toda a beleza das ruínas, e o meu nome que nos teus lábios já me levou ao êxtase, arrasta-me para longe da ilusão, esbofeteia-me no amor que ainda te guardo, pontapeia-me na esperança e pega fogo à paz que a tanto custo consegui resgatar para mim nuns braços que não teus, numa cama que não a nossa, num beijo que quase me faz esquecer que é a ti, e apenas a ti, que desejo beijar.
 Escrevo-te aqui, onde nunca me irás ler, as tuas batalhas são tuas para travar e nas minhas só eu posso lutar.