Thursday, 27 December 2018
lágrima
Ontem, quando ainda era inverno, deixei-te deitada na cama dormindo descansada e levantei-me, lavei-me limpei em mim o cheiro da noite e sai porta fora rumo ao dia que nascia. Hoje regresso e a primavera já se fez homem, a cama está vazia e a roupa que vestias atirada a um canto. Dentro do armário apenas aquela camisola que te ofereci, há tantos anos atrás, quando o verão ainda o era e o outono não ameaçava chegar ainda. Cheira ainda a ti, sinto o perfume do outro lado da porta de madeira e a acidez do tempo cai-me dos olhos, uma poça de arrependimentos no chão a meus pés. Deito-me sem me despir na cama que tão bem conhecia o teu corpo e fico a ver as horas a passarem lentamente no tecto do quarto, coberto apenas por esta fina camada de não estares aqui. O teu fantasma paira sobre a cama e não sei se te sonho ou se ainda te tenho aqui incorpórea e ausente mas aqui, bailando como quem não me vê, os teus pés de fumo massajando-me o peito. Acordo, sobressaltado, olhos bem abertos para ver o vazio que enche a cama, a ausência com tanto peso que me esmaga e prende aos lençóis encharcados de suor. Arrasto-me para fora da cama e tiro a roupa, ritualmente vou pousando peça atrás de peça na cadeira, tudo perfeitamente dobrado. Sigo, nu, pela casa adentro como que num trance, até me descobrir dentro da banheira, água correndo sobre o meu corpo que esfrego e esfrego e esfrego até que a pele se rasgue e saia sangue. A banheira muda de cor e eu esfrego-me ainda, sobre o coração, tentando chegar lá dentro e limpa-lo também, remover-te de lá qual mancha radioactiva que me consome. Não dou por mim mesmo a morrer, sinto que fiquei a eternidade inteira a esfregar-me e que ainda o faço, apesar de olhar de cima para o meu corpo inerte na banheira que transborda da água vermelha que ira furar por entre as tábuas de madeira velha do chão e alertar os vizinhos. Em breve, tudo é rápido e instantâneo para quem já está fora do tempo, alguém telefonará à policia, os bombeiros virão e deitarão a baixo a porta e verão o meu corpo como o vejo agora. Talvez alguém te ligue, para que saibas o que aconteceu. Talvez já me tenhas esquecido e nem saberás de quem falam quando te contarem a minha morte. Talvez celebres, um copo daquele champanhe de que tanto gostas e umas fatias de um qualquer queijo importado que o teu novo namorado, rico, te comprou. Talvez derrames uma lágrima, uma apenas, em memória de todas as vezes que sorrimos um para o outro. Eu não estarei lá para ver.
Friday, 7 September 2018
bala
Uma bala. Provavelmente no coração, ela sempre foi muito boa no tiro ao alvo e apesar de me apontar agora a arma que me vai matar em breve, afirma que gosta da minha cara e não acredito que ela me desfigure com o tiro entre os olhos. Não importa, para dizer a verdade. É assim que eu morro, aqui, agora. Gostava de ter tempo de me despedir de toda a gente, mas não vou conseguir. Estamos a quilómetros de toda a civilização, e duvido que mesmo fora deste armazém abandonado, penso que seria uma antiga fabrica de tijolos ou telhas ou ambas, se irá ouvir o tiro. A arma não tem silenciador, não faria sentido ter considerando que é suposto ser usada mais como uma ameaça do que uma arma, e se não fizesse barulho de um tiro ao disparar para ao céu, seria inútil. Não sei se ela irá chorar depois. Acredito, quero acreditar, que sim. Chorar um pouco, limpar as impressões digitais da arma e depois atirar a mesma para o pântano por onde ainda há pouco passamos a caminho daqui. Foi pelo menos esse o conselho que eu lhe dei. Talvez não o siga, só para ser do contra. Sempre foi muito. Quantas vezes não tive de pegar numa enciclopédia para lhe provar que estava errada! E nalguns casos acabei por me provar a mim mesmo que quem estava errado era eu. Devo ter sorrido ao lembrar-me disto porque ela olhou-me com um ar estranho durante uns instantes, antes de timidamente, sorrir de volta. Até aqui, agora com a arma apontada a mim, o sorriso me enche o coração.
"Estás pronto?"
A voz dela treme ligeiramente, e a minha deve tremer também quando respondo
"Tanto quanto possível, diria eu."
"Desculpa, eu..."
"Não fales. Não vale a pena. Eu sei. E sim, também eu te amo."
Ela dispara. Tudo fica lento, vejo a bala a ser ejectada em fúria do cano da arma e lentamente a dirigir-se a mim, e sinto que um milhão de anos separam o clarão do estrondo e outro isso de sentir a bala a tocar-me a pele. Sinto-me penetrado, "acho que nunca fui tão mulher como agora" penso. Assim que a bala passar a pele e os ossos, e como dói!, ira bater no coração e numa fracção de segundo, estarei morto. Tento sorrir, não sei se o consegui, mas tentei. Gostava que ela se lembrasse de mim assim, a sorrir-lhe. Ah, a bala chega e eu..
vou.
"Estás pronto?"
A voz dela treme ligeiramente, e a minha deve tremer também quando respondo
"Tanto quanto possível, diria eu."
"Desculpa, eu..."
"Não fales. Não vale a pena. Eu sei. E sim, também eu te amo."
Ela dispara. Tudo fica lento, vejo a bala a ser ejectada em fúria do cano da arma e lentamente a dirigir-se a mim, e sinto que um milhão de anos separam o clarão do estrondo e outro isso de sentir a bala a tocar-me a pele. Sinto-me penetrado, "acho que nunca fui tão mulher como agora" penso. Assim que a bala passar a pele e os ossos, e como dói!, ira bater no coração e numa fracção de segundo, estarei morto. Tento sorrir, não sei se o consegui, mas tentei. Gostava que ela se lembrasse de mim assim, a sorrir-lhe. Ah, a bala chega e eu..
vou.
Tuesday, 14 August 2018
Fábrica
uma parede de pequenas janelas, não maiores que vigias de um navio, em silêncio imóvel enquanto o sol nasce lentamente, enchendo de luz as sombrias ruas, quarteirões atrás de quarteirões de pequenas vigias em grandes paredes de cimento nu. trezentas vigias em cada parede, 150 para cada lado, 10 paredes por quarteirão, 20 quarteirões por bairro. O sol vai a meio caminho do céu e a sirene ouve-se, correndo à frente da luz. A primeira fila de cada parede abre-se, e de lá cambaleia para fora uma pessoa por vigia, arrastando-se até a estrutura branca que existe em frente a cada parede. Lá dentro enfiam-se noutra caixa e são lavados, esfregados, curados de ressacas constipações prisões de ventre e outras pequenas imperfeições no seu bem estar físico. Lá fora as paredes já puxaram as cápsulas casas vazias para cima e quando saiem, vestidos, banhados, injeção de cafeína tomada, barbados, os habitantes das mesmas das wcs matinais já a próxima leva entra por lá a dentro. O processo continua durante meia hora, até que todas as 60.000 pessoas que ali vivem estejam nas passadeiras que os levam até à fábrica. Grupos de 4000 chegam de cada vez e dirigem-se as suas bancas de trabalho, sentando-se, ligando-se ao seu terminal, pousando os feios, toscos capacetes de plástico na cabeça. Tudo é feito quase automaticamente por cada uma das pessoas. A grande maioria deles não disse ainda uma só palavra desde que acordou, e irá passar o dia assim. Quando começam a tocar as sirenes de turno, uma a cada 15 minutos, as luzes das bancas acendem-se e dentro do mundo virtual, cada uma das pessoas começa a existir realmente. Alguns passeiam pelas praias paradisíacas que já não existem na Terra, outros em históricos monumentos que foram cuidadosa e metódicamente fotografados, registados e guardados no virtual antes de demolidos para criar mais fábricas e mais muros. Outros passeiam pelas grandes cidades, incertos sobre a realidade daquelas casas em que cabia mais de uma pessoa, sobre aquelas ruas em que as pessoas não podiam andar por lá passarem carros. Outros navegavam nos mares de iodo de um qualquer planeta recém descoberto, outros jogam em casinos do tamanho de cidades. Outros outros, outros tantos outros como possibilidades. Cada fábrica emprega 240000 pessoas, 4 bairros por fábrica. Toda a terra, quase, uma fábrica gigante e pouco mais. Lá fora, em satélites mais ou menos naturais, alguém há de se aproveitar desse dinheiro que é criado, sem que ninguém saiba muito bem como, porque ou para que. Mas as pessoas continuam a acordar com a sirene, trabalhar até à próxima sirene, dormir e repetir.
Tuesday, 7 August 2018
férias
mas sem criar. absorver, esponja de histórias e conhecimentos e locais e sítios e estórias e factos e mitos, comer de tudo isso um pouco e deixar que a cabeça repousada os mastigue e rumine e digira, um caldo primordial, sopa da pedra de ideias e sons e palavras que serviremos no fim da refeição, empratada em papel sujo de pó de um qualquer caderno que conosco viajou.
descrever cada metro de linha do comboio como se o tivesse visto, como se tivesse olhado-o horas a fio contando as lâminas de relva, apontadas ao Céu, esperando talvez por aqueles que caem. escreverei-os exactamente como são, na minha memória que tenha deles, fraca, apagada, escura, cheia de detalhes quê não existiam lá e que por isso mesmo me são muito mais reais. contarei cada episódio, todos os montes subidos e os descidos, todos os mergulhos e todas as refeições! não esquecerei um único detalhe, até à cor dos olhos do quarto pescador (de lampreias) à esquerda na fila de baixo na foto pendurada no café da vila que não chegamos a encontrar. absorvemos então tudo, e mais tarde, suaremos e salivaremos sobre secretas sebentas sedentas de saber. come tudo o que te aparecer, vive o resto do ano inteiro nestas semanas, aproveita cada segundo e suga-lhe todos os milímetros de felicidade que neles encontrares, mas sem criar.
descrever cada metro de linha do comboio como se o tivesse visto, como se tivesse olhado-o horas a fio contando as lâminas de relva, apontadas ao Céu, esperando talvez por aqueles que caem. escreverei-os exactamente como são, na minha memória que tenha deles, fraca, apagada, escura, cheia de detalhes quê não existiam lá e que por isso mesmo me são muito mais reais. contarei cada episódio, todos os montes subidos e os descidos, todos os mergulhos e todas as refeições! não esquecerei um único detalhe, até à cor dos olhos do quarto pescador (de lampreias) à esquerda na fila de baixo na foto pendurada no café da vila que não chegamos a encontrar. absorvemos então tudo, e mais tarde, suaremos e salivaremos sobre secretas sebentas sedentas de saber. come tudo o que te aparecer, vive o resto do ano inteiro nestas semanas, aproveita cada segundo e suga-lhe todos os milímetros de felicidade que neles encontrares, mas sem criar.
Wednesday, 14 March 2018
Mãe
Olho-me neste espelho de água, e ao focar os meus olhos no reflexo, vejo-te, mãe. Vejo-me tu, como sei que serei. Não quero ser tu, mãe, mas não posso fugir de ti em mim. A água treme, um pequeno suspiro hidráulico no espelho e volto a ser eu, reflectida. As rugas desaparecem e o meu sorriso nasce de novo dos cantos descaídos dos teus lábios. Já não sou tu, mãe, mas serei, em breve. Olharei-me noutro espelho e o peso dos anos será meu de novo, uma e outra e outra vez terei eu esse ar gasto, esses olhos tristes. Não queira ser tu, mãe, não quero carregar também esse sofrimento que me dizes ser tudo o que te sobra, mãe. Essas rugas que exibes quase com orgulho, o orgulho de quem aguentou. Esse esgar de desafio com que cumprimentas o mundo, mãe, será meu também, ao olhar-me num espelho. Mas eu, mãe, quero ser eu e não tu. Eu quero ser a pessoa que sou e não o teu reflexo, mãe. Quero ser os meus lábios arqueados num sorriso e não abobadados num trejeito de infelicidade. Quero ser a minha testa lisa e não essa tiara de rugas. Quero ser o meu cabelo longo, escuro, solto, não esse carrapito branco no topo da cabeça, mãe. Quero não sofrer o mundo como tu o sofres, mãe. Quero olhar-me numa poça de água e ver-me a mim olhando-me de volta. Não quero ser tu mãe, quero ser eu, quero ver tudo com os meus olhos e não os teus, mãe. Mas, mãe, estarás sempre em todos os meus reflexos, como se fosse a tua a minha verdadeira cara, como se por debaixo do que sou eu existisse o que és tu, como se eu fosse nada, para além da imagem reflectida de ti, uma imagem que ficou presa dentro do tempo até que eu a olhei. Mãe, sei que serei tu, que eu não ficarei por aqui muito mais, já te sinto puxando-me o sorriso, enrugando-me a pele, as minhas mãos já custam a abrir e fechar, mãe, é assim que doem as tuas mãos? É assim, desfocado, assim cinzento, assim frio, que vês o mundo, mãe? Este frio que sinto, mãe, é teu também ou sou eu a fugir daquilo que sou? Mãe! Não quero ser tu, quero ser eu! Mas não me serve de nada lutar, mãe, sei que não posso fugir, não consigo fugir, estás dentro de mim e em breve, mãe, eu serei tu, o meu corpo estará velho e cansado como o teu, o meu cabelo branco e frágil, os meus olhos velhos, sem cor e sem brilho, a minha testa enrugada, as mãos fracas, os dentes caídos, as costas arqueadas e este sorriso quer me dizem ser eu, vai desaparecer. Mãe, quero fugir de ti, do futuro, do destino fado maldição mas, mãe, não posso fugir de ti porque já sou tu.
Tuesday, 6 March 2018
Do espaço entre as palavras
é neste espaço, neste vazio que fica entre a letra que acaba uma palavra e a letra que começa a próxima, que existe o significado daquilo que se escreve. É o vazio entre os sons, o silêncio entre fonemas, que está realmente carregado de sentido. As palavras são, em si, ocas, sem qualquer peso ou substância, só letras atiradas ao papel que de nada servem e para nada servem. Mas nos espaços entre elas existe todo o universo. Um silêncio entre duas palavras comporta uma enciclopédia de possibilidades, uma possibilidade de tudo que uma palavra colapsará numa certeza de tão pouco quando ela abraçar.
Monday, 26 February 2018
Profeta
Há quem o chame de profeta, há quem o chame de herege. Há quem o considere louco e há quem nele veja o único que não o é. Ele diz-se Quid'Est, Aquele-Que-Está e pensa-se, alternativamente, Deus, anjo, profeta, demónio ou apenas maluco.
Começara anos antes. Talvez cinco, dez ou vinte ninguém sabia ao certo. A quem vivia perto do monte parecia-lhe que ele sempre ali estivera, com a sua roupa velha mas ainda impecável, a sua barba comprida e os longos cabelos soltos, a sua voz calma e pesada murmurando e rezando. As crianças temiam-no, os adultos ignoravam-no e os idosos respeitavam-no, levando-lhe oferendas de comida semanalmente. Bom, alguns. Outros escreviam ao presidente da câmara pedindo-lhe que removesse dali o mendigo. Infelizmente para eles, o monte era propriedade privada e os donos do mesmo nunca fizeram qualquer questão de o remover de lá. Talvez por gostarem da ideia de ter um místico na sua propriedade ou porque com ele lá, ninguém se atrevia a assaltar a casa quase abandonada que lá mantinham. Os donos do terreno nunca confessaram a ninguém em qual das facções se encontravam, nem após a revelação, quando entrevistados por uma qualquer cadeia de televisão. Limitaram-se a dizer que como nunca tinham tido nenhuma razão de queixa com ele, o deixaram por lá ficar. Esse mesmo canal de televisão que tinha entrevistado, sem conseguir dai retirar grande coisa para uma manchete bombástica, os donos do terreno, em busca de um escândalo ou de uma tragédia para um cabeçalho daqueles que ficam em rodapé 90% do telejornal prendendo as pessoas ao ecrã na esperança de o entender, fizeram uma investigação a fundo (más línguas falam de contactos dentro da policia que teriam fornecido informação que deveria ser confidencial) e descobriram a história dele.
Conseguiram, para grande felicidade do director de programação, não só um escândalo como também uma tragédia. O que, obviamente, levou a acesas discussões sobre qual o ângulo que deveriam explorar. Eventualmente o lado da tragédia ganhou, e o cabeçalho de rodapé foi "Passado trágico leva homem para o monte durante 10 anos". Na realidade, 10 anos foi uma invenção (ou para ser mais simpático, uma aproximação) feita a partir das datas da tragédia. Podiam ser até 15 anos. Ou apenas 5. O 10 foi escolhido por ser um numero bonito e como ninguém sabia de qualquer modo não lhes pareceu importante a exactidão. Anos mais tarde, ao analisar a situação com a sabedoria da idade avançada, o director de programas admitiria que "dezenas de anos" ou mesmo apenas "durante anos" mas também que era indiferente. A audiência desse telejornal fora a melhor do mês e esteve no topo das do ano, só batida pelas eleições.
Não interessa qual a tragédia e muito menos qual o escândalo, basta saber que ele perdeu tudo o que tinha, família, bens, emprego, futuro. E ao encontrar-se assim, só, desesperado e sem muitas hipóteses de voltar a fazer parte da sociedade, graças ao escândalo, ele fugiu. Fugiu a pé, pelo pais adentro. E encontrou, num monte algures uma caverna onde se escondeu de tudo : da sociedade, da policia, dos jornais, até do seu nome. Se ele contasse algo sobre os primeiros tempos do seu exílio, contaria como passou os primeiros meses lavado em lágrimas, tremendo de medo e frio, amaldiçoando deuses e deusas em que nunca acreditou, rezando aos mesmos que tinha amaldiçoado e a outros novos que havia inventado só para os poder amaldiçoar de novo. Disse, berrando por vezes, sussurrando ou chorando noutras, todas as heresias quê conseguiu imaginar e recitou orações atrás de orações, umas curtas, de uma frase apenas, outras imensas de tal maneira que precisou de passar dias inteiros sem dormir para as terminar.
Um dia, contaria ele se relatasse alguma vez os seus tormentos no exílio, acorda no silêncio eterno da caverna, olha o sol subindo devagar no céu e na sua cabeça, no seu coração corpo alma já nada dói. Existe apenas um vazio, um buraco de nada que lhe enche o tudo, um silêncio tão grande e eterno dentro como o de fora. Nesse dia, e naqueles que se seguiram, não se mexeu mais do que uma curta viagem até ao topo do monte, onde se senta, pernas cruzadas "à chinês" como convém a qualquer místico que se preze, e deixa-se ficar, esperando algo que nem ele sabia o quê. Passa uma semana assim, comendo apenas ao fim do dia um pedaço das suas cada vez mais parcas reservas. Contou 7 nascimentos e 7 mortes do sol antes que algo acontecesse. Ao acordar com o oitavo nascimento, no vazio absoluto que carregava em si, a primeira palavra apareceu : "Deus". Repetiu os dias anteriores e a cada nascimento uma nova palavra "sou", "eu", "em", "mim", "está". Ao décimo quarto dia nenhuma nova palavra se juntou as outras, nem ao décimo quinto. Ao décimo sexto morrer do sol percebeu que não viriam mais palavras assim e após um breve período em que sentiu algo que antes teria sabido identificar como frustração mas para que agora já não tinha palavra que descrevesse, meditou sobre a frase que se tinha tornado o total do seu conhecimento : "Deus sou eu, em mim está". "O que está?" Perguntou-se, vezes e vezes sem conta até que, com uma gargalhada que ecoou na caverna percebeu : "em mim está tudo. O princípio, o fim, o conhecimento e a ignorância, a sabedoria e a ingenuidade, a dor e o prazer, a luz e a escuridão". Repetiu este mantra na sua cabeça vezes sem conta e depois, roucamente como quem reaprende a falar, em voz alta. E, de cada vez que o repetia, o seu vazio enchia-se um pouco mais de memórias, de coisas que soubera e esquecera, do nome das coisas, fórmulas, algoritmos, cores, sabores, imagens, sentimentos. Eventualmente o seu vazio estava cheio com tudo o que alguma vez soubera (e era muito esse tudo, fora sempre estudioso e curioso antes, daquelas crianças que se fechavam na biblioteca a decorar a enciclopédia enquanto as outras se divertiram jogando à apanhada ou à macaca ou à bola ou ao bate-pé ou a qualquer um desses jogos infantis) mas continuou a entoar o seu novo mantra e parecia-lhe que agora aprendia coisas que nunca havia aprendido, que conhecia, intimamente, sensações que nunca experimentara, livros que nunca lera, todo o curso da história de países dos quais nem o nome alguma vez ouvira. Parou apenas ao desmaiar de exaustão, não saberia dizer quanto tempo depois de ter começado. Ao acordar, ainda no topo do monte, a sensação de vazio que antes o enchera, fazendo-o sentir que poderia a qualquer instante colapsar sobre si mesmo, como um prédio a implodir, fora substituída pela sensação inversa; sentia-se cheio ao ponto de rebentar com tanta coisa. Desceu à caverna e comeu a última das suas refeições, sem medo de passar fome pois sabia, sem que conseguisse explicar porque, que em breve teria mais comida.
Nesse dia entreteve-se a percorrer os novos labirintos intermináveis da sua mente, tentado chegar ao fim do que agora sabia, mas por mais corredores pelos quais corresse, não encontrou nenhum fim. Nesse dia os idosos vieram pela primeira vez. Uma senhora, nos seus noventa e poucos anos (ele sabia dizer quantos mas não o fez) explicou que tinha tido um sonho em que uma luz descera do céu e incendiara o monte num fogo sem chama e, nesse sonho, uma voz lhe havia falado pedindo, "educada e formalmente" que levasse ao monte comida pois Deus escolhera aí habitar. Contou, a nonagenária, o sonho as suas amigas que a sabiam sensível a essas coisas (não havia ela sentido já anjos sobrevoando a pacata aldeia antes, no dia da morte de alguém?) e elas ajudaram-na, fazendo um cesto de comida e partilhando com ela o fardo de a levar até ao topo do monte.
Ele ouviu a idosa senhora e prostrou-se de joelhos ao agradecer. Soube, nesse instante, que a senhora morreria no seu sono nessa mesma noite, uma morte pacífica, uma viagem esperada até ao seu merecido descanso, e assim lhe o disse. A idosa, apesar de assustada a início, quando se lembrou de quanto já sofrera e de quanto já perdera (tendo sobrevivido aos filhos e aos netos) sorriu e agradeceu. Ele, mais por sentir que ela assim o desejava do que por vontade própria, abençoou-a, dizendo "vai em paz para junto daqueles que te ainda te amam até depois da morte".
Foi esse o primeiro sinal da sua divindade. Nessa noite, a idosa morreu em paz. Os mais cépticos dos aldeões disseram que adivinhar a morte de alguém com aquela idade não era nada de miraculoso ou fantástico, especialmente sabendo que ela tinha feito muito mais exercício que aquilo a que estava habituada. Entre os menos cépticos houve aqueles que começaram a tradição de todos os três dias levar uma cesta de comida ao sagrado homem do monte, como começaram a chamar-lhe.
Passou meses ou mesmo anos a catalogar, organizar, arquivar e memorizar cada cantinho do seu saber. Começou por libertar uma sala inteira e com o poder infinito que se têm nos sonhos, fez dela um gigante arquivo, à antiga, fileiras intermináveis de pequenos armários empilhados de metal, cada gaveta contendo uma centena de pequenos cartões com uma palavra seguida de números. Ou ficaram assim mais tarde, naquele momento estavam vazios, mas à medida que os dias meses anos foram passando ele ia escrevendo. Alguns genéricos "Alquimia, 23-26" outros mais específicos "Mercúrio no termómetro, 72, 33, 13, 88, 33-35": Alquimia da sala 23 à sala 26. Mercúrio, no termómetro: sala 72, estante 33, prateleira 13, livro 88, páginas 33-35.
No iniciou demorava um dia para conseguir encontrar e arquivar cada palavra mas a medida que foi avançando no labirinto da sua mente foi-se tornando mais eficaz e para o fim já enchia um armário inteiro num só dia. Quando sentiu que tinha terminado voltou ao topo do monte, pensando "e agora?". Da vez seguinte que os idosos apareceram com a comida fez um pedido: que lhe trouxessem meios para escrever. Um deles, ex-poeta, procurou na sua arrecadação por umas máquina de escrever e juntos compraram resmas de papel, que foram entregues três dias depois. Ele agradeceu, aconselhando ao ex-poeta que tentasse de novo publicar aquele livro que escrevera 20 anos antes, porque agora o mundo estaria preparado para o ler (o livro, "Sensações do Mar" foi publicado quase imediatamente e, ironia das ironias, o velho de quase oitenta anos foi considerado o melhor novo poeta do ano).
Ele começou a escrever. Folhas atrás de folhas atrás de folhas. A início ideias soltas que não tinham entre si qualquer ligação, tanto compunha uma ópera sobre uma fábrica de automóveis como uma dissertação sobre o verdadeiro significado da palavra "sentir" como um novo algoritmo para calcular números primos. Depois de retirar do seu sistema toda essa informação que considerava inútil, começou com os escritos místicos que eventualmente fariam dele o profeta de uma nova religiosidade.
Parábola do homem cansado, alegoria da fé impossível, metáfora do sono do demónio, hipérbole do deus ausente. Tudo isto ele escreveu nesses primeiros dias, batendo furiosamente nas teclas rijas da velha máquina de escrever, quase em transe, inundado de uma vontade de tudo dizer. Nunca fora escritor, mesmo na escola sempre detestara os exercícios de escrita de composições, sendo uma pessoa com pouco ou nenhum jeito para transpor em palavras o que sentia, e por isso esta nova sensação de quase dor que lhe apertava o coração se não escrevesse a cada segundo era para ele nova. Escrevia e, amarrotando as folhas atirava-as para um caixote de lixo (metafórico, na realidade um canto da caverna onde empilhava os restos e as caixas de ração), achando tudo digno apenas de se juntar ao esgoto. Infelizmente, um dos idosos que dali levava todo o lixo, guardou todos os escritos dele é, religiosamente os guardava numa pequena arca de madeira que estava em sua casa e só por isso sabemos hoje o que ele escreveu antes de finalmente se decidir a escrever aquela que seria a sua obra prima, a sua magnus opus, "de Deus".
[este texto encontra-se incompleto. É da natureza de todas as coisas humanas, e tendo sido escrito por um humano é humano também o texto, serem sempre incompletas até quando chegam a um fim. E seria divina blasfémia dar um fim a um texto que não o têm. Por isso acaba aqui, no meio de nada, entre uma ideia e a próxima, o relato de Quid'Est, aquele que é. Sem que se tenha aprofundado nada sobre a sua vida, a sua obra, a sua mensagem ou a sua história. De certa forma, ele próprio preferiria assim : que os outros que vierem depois se dêem ao trabalho de a acabar na sua mente se assim o desejarem. Que cada um busque e encontre em si o verdadeiro fim das palavras e da vida dele.]
Começara anos antes. Talvez cinco, dez ou vinte ninguém sabia ao certo. A quem vivia perto do monte parecia-lhe que ele sempre ali estivera, com a sua roupa velha mas ainda impecável, a sua barba comprida e os longos cabelos soltos, a sua voz calma e pesada murmurando e rezando. As crianças temiam-no, os adultos ignoravam-no e os idosos respeitavam-no, levando-lhe oferendas de comida semanalmente. Bom, alguns. Outros escreviam ao presidente da câmara pedindo-lhe que removesse dali o mendigo. Infelizmente para eles, o monte era propriedade privada e os donos do mesmo nunca fizeram qualquer questão de o remover de lá. Talvez por gostarem da ideia de ter um místico na sua propriedade ou porque com ele lá, ninguém se atrevia a assaltar a casa quase abandonada que lá mantinham. Os donos do terreno nunca confessaram a ninguém em qual das facções se encontravam, nem após a revelação, quando entrevistados por uma qualquer cadeia de televisão. Limitaram-se a dizer que como nunca tinham tido nenhuma razão de queixa com ele, o deixaram por lá ficar. Esse mesmo canal de televisão que tinha entrevistado, sem conseguir dai retirar grande coisa para uma manchete bombástica, os donos do terreno, em busca de um escândalo ou de uma tragédia para um cabeçalho daqueles que ficam em rodapé 90% do telejornal prendendo as pessoas ao ecrã na esperança de o entender, fizeram uma investigação a fundo (más línguas falam de contactos dentro da policia que teriam fornecido informação que deveria ser confidencial) e descobriram a história dele.
Conseguiram, para grande felicidade do director de programação, não só um escândalo como também uma tragédia. O que, obviamente, levou a acesas discussões sobre qual o ângulo que deveriam explorar. Eventualmente o lado da tragédia ganhou, e o cabeçalho de rodapé foi "Passado trágico leva homem para o monte durante 10 anos". Na realidade, 10 anos foi uma invenção (ou para ser mais simpático, uma aproximação) feita a partir das datas da tragédia. Podiam ser até 15 anos. Ou apenas 5. O 10 foi escolhido por ser um numero bonito e como ninguém sabia de qualquer modo não lhes pareceu importante a exactidão. Anos mais tarde, ao analisar a situação com a sabedoria da idade avançada, o director de programas admitiria que "dezenas de anos" ou mesmo apenas "durante anos" mas também que era indiferente. A audiência desse telejornal fora a melhor do mês e esteve no topo das do ano, só batida pelas eleições.
Não interessa qual a tragédia e muito menos qual o escândalo, basta saber que ele perdeu tudo o que tinha, família, bens, emprego, futuro. E ao encontrar-se assim, só, desesperado e sem muitas hipóteses de voltar a fazer parte da sociedade, graças ao escândalo, ele fugiu. Fugiu a pé, pelo pais adentro. E encontrou, num monte algures uma caverna onde se escondeu de tudo : da sociedade, da policia, dos jornais, até do seu nome. Se ele contasse algo sobre os primeiros tempos do seu exílio, contaria como passou os primeiros meses lavado em lágrimas, tremendo de medo e frio, amaldiçoando deuses e deusas em que nunca acreditou, rezando aos mesmos que tinha amaldiçoado e a outros novos que havia inventado só para os poder amaldiçoar de novo. Disse, berrando por vezes, sussurrando ou chorando noutras, todas as heresias quê conseguiu imaginar e recitou orações atrás de orações, umas curtas, de uma frase apenas, outras imensas de tal maneira que precisou de passar dias inteiros sem dormir para as terminar.
Um dia, contaria ele se relatasse alguma vez os seus tormentos no exílio, acorda no silêncio eterno da caverna, olha o sol subindo devagar no céu e na sua cabeça, no seu coração corpo alma já nada dói. Existe apenas um vazio, um buraco de nada que lhe enche o tudo, um silêncio tão grande e eterno dentro como o de fora. Nesse dia, e naqueles que se seguiram, não se mexeu mais do que uma curta viagem até ao topo do monte, onde se senta, pernas cruzadas "à chinês" como convém a qualquer místico que se preze, e deixa-se ficar, esperando algo que nem ele sabia o quê. Passa uma semana assim, comendo apenas ao fim do dia um pedaço das suas cada vez mais parcas reservas. Contou 7 nascimentos e 7 mortes do sol antes que algo acontecesse. Ao acordar com o oitavo nascimento, no vazio absoluto que carregava em si, a primeira palavra apareceu : "Deus". Repetiu os dias anteriores e a cada nascimento uma nova palavra "sou", "eu", "em", "mim", "está". Ao décimo quarto dia nenhuma nova palavra se juntou as outras, nem ao décimo quinto. Ao décimo sexto morrer do sol percebeu que não viriam mais palavras assim e após um breve período em que sentiu algo que antes teria sabido identificar como frustração mas para que agora já não tinha palavra que descrevesse, meditou sobre a frase que se tinha tornado o total do seu conhecimento : "Deus sou eu, em mim está". "O que está?" Perguntou-se, vezes e vezes sem conta até que, com uma gargalhada que ecoou na caverna percebeu : "em mim está tudo. O princípio, o fim, o conhecimento e a ignorância, a sabedoria e a ingenuidade, a dor e o prazer, a luz e a escuridão". Repetiu este mantra na sua cabeça vezes sem conta e depois, roucamente como quem reaprende a falar, em voz alta. E, de cada vez que o repetia, o seu vazio enchia-se um pouco mais de memórias, de coisas que soubera e esquecera, do nome das coisas, fórmulas, algoritmos, cores, sabores, imagens, sentimentos. Eventualmente o seu vazio estava cheio com tudo o que alguma vez soubera (e era muito esse tudo, fora sempre estudioso e curioso antes, daquelas crianças que se fechavam na biblioteca a decorar a enciclopédia enquanto as outras se divertiram jogando à apanhada ou à macaca ou à bola ou ao bate-pé ou a qualquer um desses jogos infantis) mas continuou a entoar o seu novo mantra e parecia-lhe que agora aprendia coisas que nunca havia aprendido, que conhecia, intimamente, sensações que nunca experimentara, livros que nunca lera, todo o curso da história de países dos quais nem o nome alguma vez ouvira. Parou apenas ao desmaiar de exaustão, não saberia dizer quanto tempo depois de ter começado. Ao acordar, ainda no topo do monte, a sensação de vazio que antes o enchera, fazendo-o sentir que poderia a qualquer instante colapsar sobre si mesmo, como um prédio a implodir, fora substituída pela sensação inversa; sentia-se cheio ao ponto de rebentar com tanta coisa. Desceu à caverna e comeu a última das suas refeições, sem medo de passar fome pois sabia, sem que conseguisse explicar porque, que em breve teria mais comida.
Nesse dia entreteve-se a percorrer os novos labirintos intermináveis da sua mente, tentado chegar ao fim do que agora sabia, mas por mais corredores pelos quais corresse, não encontrou nenhum fim. Nesse dia os idosos vieram pela primeira vez. Uma senhora, nos seus noventa e poucos anos (ele sabia dizer quantos mas não o fez) explicou que tinha tido um sonho em que uma luz descera do céu e incendiara o monte num fogo sem chama e, nesse sonho, uma voz lhe havia falado pedindo, "educada e formalmente" que levasse ao monte comida pois Deus escolhera aí habitar. Contou, a nonagenária, o sonho as suas amigas que a sabiam sensível a essas coisas (não havia ela sentido já anjos sobrevoando a pacata aldeia antes, no dia da morte de alguém?) e elas ajudaram-na, fazendo um cesto de comida e partilhando com ela o fardo de a levar até ao topo do monte.
Ele ouviu a idosa senhora e prostrou-se de joelhos ao agradecer. Soube, nesse instante, que a senhora morreria no seu sono nessa mesma noite, uma morte pacífica, uma viagem esperada até ao seu merecido descanso, e assim lhe o disse. A idosa, apesar de assustada a início, quando se lembrou de quanto já sofrera e de quanto já perdera (tendo sobrevivido aos filhos e aos netos) sorriu e agradeceu. Ele, mais por sentir que ela assim o desejava do que por vontade própria, abençoou-a, dizendo "vai em paz para junto daqueles que te ainda te amam até depois da morte".
Foi esse o primeiro sinal da sua divindade. Nessa noite, a idosa morreu em paz. Os mais cépticos dos aldeões disseram que adivinhar a morte de alguém com aquela idade não era nada de miraculoso ou fantástico, especialmente sabendo que ela tinha feito muito mais exercício que aquilo a que estava habituada. Entre os menos cépticos houve aqueles que começaram a tradição de todos os três dias levar uma cesta de comida ao sagrado homem do monte, como começaram a chamar-lhe.
Passou meses ou mesmo anos a catalogar, organizar, arquivar e memorizar cada cantinho do seu saber. Começou por libertar uma sala inteira e com o poder infinito que se têm nos sonhos, fez dela um gigante arquivo, à antiga, fileiras intermináveis de pequenos armários empilhados de metal, cada gaveta contendo uma centena de pequenos cartões com uma palavra seguida de números. Ou ficaram assim mais tarde, naquele momento estavam vazios, mas à medida que os dias meses anos foram passando ele ia escrevendo. Alguns genéricos "Alquimia, 23-26" outros mais específicos "Mercúrio no termómetro, 72, 33, 13, 88, 33-35": Alquimia da sala 23 à sala 26. Mercúrio, no termómetro: sala 72, estante 33, prateleira 13, livro 88, páginas 33-35.
No iniciou demorava um dia para conseguir encontrar e arquivar cada palavra mas a medida que foi avançando no labirinto da sua mente foi-se tornando mais eficaz e para o fim já enchia um armário inteiro num só dia. Quando sentiu que tinha terminado voltou ao topo do monte, pensando "e agora?". Da vez seguinte que os idosos apareceram com a comida fez um pedido: que lhe trouxessem meios para escrever. Um deles, ex-poeta, procurou na sua arrecadação por umas máquina de escrever e juntos compraram resmas de papel, que foram entregues três dias depois. Ele agradeceu, aconselhando ao ex-poeta que tentasse de novo publicar aquele livro que escrevera 20 anos antes, porque agora o mundo estaria preparado para o ler (o livro, "Sensações do Mar" foi publicado quase imediatamente e, ironia das ironias, o velho de quase oitenta anos foi considerado o melhor novo poeta do ano).
Ele começou a escrever. Folhas atrás de folhas atrás de folhas. A início ideias soltas que não tinham entre si qualquer ligação, tanto compunha uma ópera sobre uma fábrica de automóveis como uma dissertação sobre o verdadeiro significado da palavra "sentir" como um novo algoritmo para calcular números primos. Depois de retirar do seu sistema toda essa informação que considerava inútil, começou com os escritos místicos que eventualmente fariam dele o profeta de uma nova religiosidade.
Parábola do homem cansado, alegoria da fé impossível, metáfora do sono do demónio, hipérbole do deus ausente. Tudo isto ele escreveu nesses primeiros dias, batendo furiosamente nas teclas rijas da velha máquina de escrever, quase em transe, inundado de uma vontade de tudo dizer. Nunca fora escritor, mesmo na escola sempre detestara os exercícios de escrita de composições, sendo uma pessoa com pouco ou nenhum jeito para transpor em palavras o que sentia, e por isso esta nova sensação de quase dor que lhe apertava o coração se não escrevesse a cada segundo era para ele nova. Escrevia e, amarrotando as folhas atirava-as para um caixote de lixo (metafórico, na realidade um canto da caverna onde empilhava os restos e as caixas de ração), achando tudo digno apenas de se juntar ao esgoto. Infelizmente, um dos idosos que dali levava todo o lixo, guardou todos os escritos dele é, religiosamente os guardava numa pequena arca de madeira que estava em sua casa e só por isso sabemos hoje o que ele escreveu antes de finalmente se decidir a escrever aquela que seria a sua obra prima, a sua magnus opus, "de Deus".
[este texto encontra-se incompleto. É da natureza de todas as coisas humanas, e tendo sido escrito por um humano é humano também o texto, serem sempre incompletas até quando chegam a um fim. E seria divina blasfémia dar um fim a um texto que não o têm. Por isso acaba aqui, no meio de nada, entre uma ideia e a próxima, o relato de Quid'Est, aquele que é. Sem que se tenha aprofundado nada sobre a sua vida, a sua obra, a sua mensagem ou a sua história. De certa forma, ele próprio preferiria assim : que os outros que vierem depois se dêem ao trabalho de a acabar na sua mente se assim o desejarem. Que cada um busque e encontre em si o verdadeiro fim das palavras e da vida dele.]
Friday, 16 February 2018
Se..
E se na noite, fria, as minhas mãos tocarem o teu corpo e te abraçarem o peito, não me afastes. E se no calor da cama, o meu peito se encostar as tuas costas, não me afastes. E se, durante o sono, os meus lábios procurarem a tua pele, não me afastes. E se, enquanto nos amarmos, dos meus olhos lágrimas brotarem, serão de felicidade ou de medo e não te saberei dizer qual, que ambas sabem a sal. E se, durante um beijo, eu suspirar, não me afastes, suspiro por saber que um dia te perderei. E se, durante um abraço, sentires um toque de água nos ombros, não me afastes, choro por te ter. Porque aquilo que é nosso podemos perder. E se num dia, de manhã, me expulsares da cama e eu for sentar-me no chão olhando-te, não me ralhes, estarei apenas a fixar eternamente o teu sorriso pacifico no meu coração onde ele já vive.
Wednesday, 7 February 2018
Ampulheta
Uma a uma as estrelas caiem, passando pela borda afunilada da ampulheta universal, como se grãos de areia. Deuses, sentados num chão inexistente, formam um circulo que olha fixamente para o centro, para o tempo que passa. "Repara nesta!" um dos Deuses diz, tocando ao de leve o que seria o ombro do outro se os seus corpos fossem. É uma estrela vermelha, ardendo com fúria, e dela ergue-se uma aura carregada de ódio, ouve-se quase uma voz, uníssona de biliões de inteligências que num piscar de olhos deixaram de existir, graças aos caprichos insondáveis de Deuses invisíveis. A voz berra, num sussurro, de medo e resignação, de dor e perda. Uníssona e dissonante, sem palavras perceptíveis, estendendo-se por centenas de anos e durando apenas um piscar de olhos. A estrela parece parar na garganta de vidro, como que resistindo à pressão inexorável do tempo, desafiando Deuses e a inevitabilidade do tudo, um último acto de força e coragem antes que o esquecimento a engula a ela e a todas as suas vozes. Um dos Deuses sorri, talvez o mesmo que há pouco falou, e num pequeno sopro empurra a estrela para o vazio que se estende sob a garganta de vidro da ampulheta. As vozes calam-se, calaram-se há centenas de milhões de anos mas só agora chegaram aqui e só agora se extinguiram. Um dos Deuses, talvez aquele que teria sido tocado no ombro se ombro tivesse, suspira uma palavra apenas, igual em todas as línguas e diferente em todas elas, forte, pesada, leve. Elogio e insulto ao mesmo tempo: "Linda". Como se a morte de biliões fosse uma obra de arte, como se as vidas e existências de todo um planeta nada mais fosse do que uma tinta, acrílica ou de óleo, que certo pintor demente espalha sobre uma tela. Esse dos Deuses que primeiro falara vira as costas à ampulheta e desaparece ainda mais. Nada mais existe que ele queira ver, o seu trabalho começou antes do universo mas acabou antes que este acabe e agora, cansado e velho e cheio de orgulho pelo que fez e cheio de remorso pelo que fez e cheio de si mesmo, ele deita-se sobre o nada e deixa-se dormir, eternamente dormir. Lentamente, as estrelas acabam : não há mais fogos no universo, não há mais vida nem Deuses. E, finalmente, em paz, o vazio é tudo e tudo é vazio e a existência pode recomeçar se assim desejar, para que tudo seja de novo como já foi. Deuses e estrelas morrem da mesma maneira, escorregando para o nada.
Monday, 22 January 2018
torre
A velha torre de mármore branco ergue-se solitária no meio da floresta, como um osso que caiu do céu e se deixou ali ficar. A esta distância consigo imaginar-lhe a pele porosa e ver-me subindo pela medula até ao topo, seria eu também tutano, cuspindo glóbulos, brancos e vermelhos, seria eu mesmo plaqueta estancando a hemorragia. Imagino-a como ela teria sido no auge de tudo, a torre branca, erguendo-se até que as suas antenas, hoje há muito enferrujadas pela chuva e quebradas pelos ventos, tocassem ao de leve nas nuvens, acariciando o paraíso celeste, como um ex-amante que anseia ainda pela pele de quem já não é seu. Milhões de pessoas devem ter subido os elevadores lá dentro, diariamente, provavelmente sem se aperceberem de estarem a trepar em direcção a Deus e à santidade com cada andar que passavam, sem saberem o quão impressionante é viver numa torre que liga a terra ao infinito. Hoje, a torre é apenas um osso no chão, mais uma fractura exposta, relato silencioso do que fora antes. O universo provou-se indiferente aquilo que um homem sente, fez-se faca, bisturi, e com um corte preciso, erradicou toda a humanidade num só gesto. Biliões de pessoas mortas, num minuto apenas. Safaram-se uns poucos, como os meus antepassados, que por acaso do destino se encontravam fora da terra nesse dia em que o Sol decidiu que chegava de ter vida junto a si, no dia em que o Sol decidiu nada existir ainda que valesse a pena manter e disse, de si para si, "está na hora de explodir". Em termos cósmicos, a explosão de radiação do Sol da Terra nem fora assim tão grande, diariamente acontecem, só na nossa galáxia, milhares de explosões mais fortes. Foi, no entanto, súbita. Inesperada. Entre os que ficaram, astronautas, uns quantos que por um acaso do destino ou outro, se encontravam num abrigo à prova de radiação (e como ficou provado que a paranóia dos humanos tinha razão de ser!) ou debaixo do mar, especulou-se, futilmente, durante largas dezenas de anos, sobre se de algum modo a explosão fora causada por pessoas. Existia o conhecimento teórico de como despoletar uma explosão de radiação e existia a tecnologia para o fazer. O que não devia nunca ter existido era a vontade de erradicar da terra toda a gente. De centenas de biliões de pessoas para pouco mais que meio milhar em segundos. E agora, descendentes dos descendentes da terra decadente, caminhamos por ai, quase primitivos, após perder tudo, pelas ruínas esquecidas do um mundo que já foi. A torra de mármore branco ergue-se, como um osso espetado na floresta e daqui, vejo-a e sonho com o que era junto à fogueira que aquece o fim da tarde. Dentro de uns dias chegaremos lá, a primeira excursão à torre desde que o mundo morreu...
Sunday, 21 January 2018
asilo
somos todos prisioneiros da nossa loucura, aqui no asilo. Claro que podíamos sair. Alguns já tentaram. Saem porta fora, de armas e bagagens, jurando nunca mais cá voltar, rogando pragas as paredes velhas e a cair de podres, dizendo que nem o ar dentro do asilo é puro, que cheira a sexo, a droga, a veneno mesmo. Voltam sempre, excepto aqueles que caíram pelo caminho num outro qualquer asilo. Pode demorar dias, semanas, meses, mas todos voltam à maldita casa aonde a sua loucura os prendeu.
As paredes dos quartos estão carregadas de marcas subtis, pequenos sulcos nos sítios onde um dos habitantes, rendendo-se à sua loucura completamente, tentou partir-las, achando que eram as paredes e não a sua cabeça quem o prendia. O meu quarto também têm dessas marcas. Já antigas, agora, de quando eu ainda achava que poderia escapar, que não estava condenado a esta prisão para o resto dos meus dias. Em certas noites passo a mão por cima dos sulcos e começo a rir incontrolavelmente até que as gargalhadas se tornam em soluços e dos meus olhos lágrimas caiem. O pátio está fechado há meses, e as janelas raramente abrem, o cheiro a tabaco velho já fazendo parte da mobília, das paredes, da minha pele. A luz de cima penso que está avariada. Ou então achei que sim e nunca a tentei voltar a abrir. A única luz do quarto vêm sempre do pequeno candeeiro. à luz dele leio e escrevo. Há um computador, aberto, componentes expostos ao pó. Penso que ainda funciona mas não lhe toco há meses, ou talvez anos. O tempo no asilo não faz sentido e no meu quarto, de estores sempre fechados, ainda menos. Certos dias acredito que já morri e que na realidade estou no inferno. Noutros dias acredito que morri mas, talvez por piedade de deus, vim parar ao céu. Na maioria dos dias acredito-me vivo e amaldiçoo o destino e a lenta marcha da vida. A caneta começa a morrer, mal escreve já...
somos todos prisioneiros da nossa loucura aqui no asilo e não há fuga para nós...
somos todos prisioneiros da nossa loucura aqui no asilo e não há fuga para nós...
Monday, 15 January 2018
visita
Ainda dormia quando senti que me olhavam. Abri os olhos lentamente e vi-a, deitada na cama, a cabeça levantada e encostada à mão. Sorria, as covinhas duas meias luas olhando-se de cada lado dos lábios vermelhos, ainda pintados (te-los-ia pintado de novo só para me acordar?), os dentes quase perfeitos formando uma pequena muralha entre o mundo e a sua boca. Os olhos, a pintura ligeiramente borrada, como se tivesse tido comichão no olho direito e o tivesse coçado ao de leve, estavam apontados à minha cara e deles partiam as pequenas rugas, prova única da sua idade para quem não a conhecia, que apareciam apenas quando lhe sorriam os olhos para além dos lábios.
Deve ter reparado que os meus olhos se abriam lentamente pois o sorriso leve que tinha abriu-se um pouco mais, mas nada disse nem se mexeu até que abri completamente os olhos e estiquei a mão para lhe tocar a face. No mesmo instante em que os meus dedos sentiram a sua pele, suave e ainda fria do denso nevoeiro de inverno que se fazia sentir lá fora, falou
"Bom dia, meu amor."
Sorri, e murmurei uma resposta, a boca seca da noite, puxando-me ligeiramente para cima. Os seus lábios vieram de encontro aos meus, e beijaram o meu, possivelmente terrível, hálito matinal sem qualquer mostra de queixume. Senti-lhe o toque do whisky, já disfarçado pelo pequeno almoço e as horas.
Quando os seus lábios descolaram dos meus, voltou a endireitar-se enquanto eu procurava a garrafa de agua, e dela bebi sofregamente. Pedi-lhe licença para ir tratar das minhas necessidades pós-nocturnas e ofereci-lhe um café. Recusou abanando ligeiramente a cabeça, e deitou-se mais sobre a cama, ainda vestida. Ao levantar-me agarrei no caderno, abri na página onde tinha estado a escrever e entreguei-lhe.
Disse qualquer coisa sobre mais tarde, mas quando voltei com um café e mais aliviado disse ter gostado das "súbitas e tremendas as pernas subindo" e "gastas as pedras tumulares com beijos e lágrimas". Entretanto deitara-se dentro da cama
"Não te importas que fique a dormir aqui?"
Sorri, "Não, adoro que o faças", pousando a caneca do café na mesa de cabeceira e sentando-me a seu lado, meio dentro meio fora dos lençóis. Puxou-me até si, as mãos esfomeadas enfiadas dentro do roupão, arranhando-me ligeiramente a pele, com carinho e vontade. Não disse nada e deixei-me ser puxado mais para dentro da cama assim que despi o roupão. Estava quase nua debaixo do cobertor, e as minhas mãos responderam as suas, correndo-lhe sobre a pele como se estivesse a cartografar o seu corpo, abrandando o passo ao subir-lhe os pequenos montes, apertando com um pouco mais de força ao contornar-lhe as curvas. Perdi-me um pouco ao sentir-lhe os cumes rijos da cordilheira central do seu peito, e a respiração dela alterou-se, ligeiramente mais rápida. Senti-me a crescer, a roupa interior a apertar-me, e deixando o indicador e polegar da mão direita rodando e apertando e acariciando, a minha mão esquerda desceu-lhe a barriga, descendo, descendo, até a ouvir suspirar, quase uma exalação de ar. Beijei-a, e a mão dela, ainda nas minhas costas, puxou o meu corpo para cima do seu e deixei-me ir, sentido-lhe a pele já quente na minha.
Não sei quanto tempo passou até que sai de cima dela, os nossos corpos cobertos de sémen e suor, ainda quase arfando. A voz dela, baixo, disse que me amava e eu respondi com um beijo e "tanto". Deitei-me ao seu lado e com a mão livre, a outra ainda pousada sobre o corpo dela, procurei o tabaco. Fiz um cigarro, endireitei-me e fumando bebi o café, em silencio. A respiração dela acalmou e chegou a um ligeiro ressonar.
Todo eu sorria ao levantar-me calmamente da cama para me ir vestir. Antes de sair do quarto beijei-a ao de leve. Entreabriu os olhos e desejou-me um bom trabalho. Desejei-lhe uma boa noite e abandonei o paraíso para voltar à terra. À porta parei e olhei-a. "amo-te" disse em surdina para a semi-escuridão do quarto enquanto fechava a porta.
Sai de casa e fui a pé até ao cemitério, tendo decido que não conseguiria ir trabalhar, fumando compulsivamente, e subindo a passo rápido as ruas até lá chegar. O porteiro cumprimentou-me com um aceno de cabeça e dispensei a velha das flores com um gesto vago, como o tinha feito tantas vezes no ultimo ano. Dirigi-me sem pensar até à campa dela, e lá chegando sentei-me na terra, beijei a pedra tumular e disse-lhe, mais uma vez nesse dia "amo-te", gastando um pouco mais com as lágrimas o granito escuro.
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