Monday, 15 January 2018

visita

Ainda dormia quando senti que me olhavam. Abri os olhos lentamente e vi-a, deitada na cama, a cabeça levantada e encostada à mão. Sorria, as covinhas duas meias luas olhando-se de cada lado dos lábios vermelhos, ainda pintados (te-los-ia pintado de novo só para me acordar?), os dentes quase perfeitos formando uma pequena muralha entre o mundo e a sua boca. Os olhos, a pintura ligeiramente borrada, como se tivesse tido comichão no olho direito e o tivesse coçado ao de leve, estavam apontados à minha cara e deles partiam as pequenas rugas, prova única da sua idade para quem não a conhecia, que apareciam apenas quando lhe sorriam os olhos para além dos lábios.
 Deve ter reparado que os meus olhos se abriam lentamente pois o sorriso leve que tinha abriu-se um pouco mais, mas nada disse nem se mexeu até que abri completamente os olhos e estiquei a mão para lhe tocar a face. No mesmo instante em que os meus dedos sentiram a sua pele, suave e ainda fria do denso nevoeiro de inverno que se fazia sentir lá fora, falou 
 "Bom dia, meu amor."
Sorri, e murmurei uma resposta, a boca seca da noite, puxando-me ligeiramente para cima. Os seus lábios vieram de encontro aos meus, e beijaram o meu, possivelmente terrível, hálito matinal sem qualquer mostra de queixume. Senti-lhe o toque do whisky, já disfarçado pelo pequeno almoço e as horas. 
 Quando os seus lábios descolaram dos meus, voltou a endireitar-se enquanto eu procurava a garrafa de agua, e dela bebi sofregamente. Pedi-lhe licença para ir tratar das minhas necessidades pós-nocturnas e ofereci-lhe um café. Recusou abanando ligeiramente a cabeça, e deitou-se mais sobre a cama, ainda vestida. Ao levantar-me agarrei no caderno, abri na página onde tinha estado a escrever e entreguei-lhe.
 Disse qualquer coisa sobre mais tarde, mas quando voltei com um café e mais aliviado disse ter gostado das "súbitas e tremendas as pernas subindo" e "gastas as pedras tumulares com beijos e lágrimas". Entretanto deitara-se dentro da cama
 "Não te importas que fique a dormir aqui?" 
Sorri, "Não, adoro que o faças", pousando a caneca do café na mesa de cabeceira e sentando-me a seu lado, meio dentro meio fora dos lençóis. Puxou-me até si, as mãos esfomeadas enfiadas dentro do roupão, arranhando-me ligeiramente a pele, com carinho e vontade. Não disse nada e deixei-me ser puxado mais para dentro da cama assim que despi o roupão. Estava quase nua debaixo do cobertor, e as minhas mãos responderam as suas, correndo-lhe sobre a pele como se estivesse a cartografar o seu corpo, abrandando o passo ao subir-lhe os pequenos montes, apertando com um pouco mais de força ao contornar-lhe as curvas. Perdi-me um pouco ao sentir-lhe os cumes rijos da cordilheira central do seu peito, e a respiração dela alterou-se, ligeiramente mais rápida. Senti-me a crescer, a roupa interior a apertar-me, e deixando o indicador e polegar da mão direita rodando e apertando e acariciando, a minha mão esquerda desceu-lhe a barriga, descendo, descendo, até a ouvir suspirar, quase uma exalação de ar. Beijei-a, e a mão dela, ainda nas minhas costas, puxou o meu corpo para cima do seu e deixei-me ir, sentido-lhe a pele já quente na minha. 

 Não sei quanto tempo passou até que sai de cima dela, os nossos corpos cobertos de sémen e suor, ainda quase arfando. A voz dela, baixo, disse que me amava e eu respondi com um beijo e "tanto". Deitei-me ao seu lado e com a mão livre, a outra ainda pousada sobre o corpo dela, procurei o tabaco. Fiz um cigarro, endireitei-me e fumando bebi o café, em silencio. A respiração dela acalmou e chegou a um ligeiro ressonar. 
 Todo eu sorria ao levantar-me calmamente da cama para me ir vestir. Antes de sair do quarto beijei-a ao de leve. Entreabriu os olhos e desejou-me um bom trabalho. Desejei-lhe uma boa noite e abandonei o paraíso para voltar à terra. À porta parei e olhei-a. "amo-te" disse em surdina para a semi-escuridão do quarto enquanto fechava a porta.

 Sai de casa e fui a pé até ao cemitério, tendo decido que não conseguiria ir trabalhar, fumando compulsivamente, e subindo a passo rápido as ruas até lá chegar. O porteiro cumprimentou-me com um aceno de cabeça e dispensei a velha das flores com um gesto vago, como o tinha feito tantas vezes no ultimo ano. Dirigi-me sem pensar até à campa dela, e lá chegando sentei-me na terra, beijei a pedra tumular e disse-lhe, mais uma vez nesse dia "amo-te", gastando um pouco mais com as lágrimas o granito escuro.

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