A velha torre de mármore branco ergue-se solitária no meio da floresta, como um osso que caiu do céu e se deixou ali ficar. A esta distância consigo imaginar-lhe a pele porosa e ver-me subindo pela medula até ao topo, seria eu também tutano, cuspindo glóbulos, brancos e vermelhos, seria eu mesmo plaqueta estancando a hemorragia. Imagino-a como ela teria sido no auge de tudo, a torre branca, erguendo-se até que as suas antenas, hoje há muito enferrujadas pela chuva e quebradas pelos ventos, tocassem ao de leve nas nuvens, acariciando o paraíso celeste, como um ex-amante que anseia ainda pela pele de quem já não é seu. Milhões de pessoas devem ter subido os elevadores lá dentro, diariamente, provavelmente sem se aperceberem de estarem a trepar em direcção a Deus e à santidade com cada andar que passavam, sem saberem o quão impressionante é viver numa torre que liga a terra ao infinito. Hoje, a torre é apenas um osso no chão, mais uma fractura exposta, relato silencioso do que fora antes. O universo provou-se indiferente aquilo que um homem sente, fez-se faca, bisturi, e com um corte preciso, erradicou toda a humanidade num só gesto. Biliões de pessoas mortas, num minuto apenas. Safaram-se uns poucos, como os meus antepassados, que por acaso do destino se encontravam fora da terra nesse dia em que o Sol decidiu que chegava de ter vida junto a si, no dia em que o Sol decidiu nada existir ainda que valesse a pena manter e disse, de si para si, "está na hora de explodir". Em termos cósmicos, a explosão de radiação do Sol da Terra nem fora assim tão grande, diariamente acontecem, só na nossa galáxia, milhares de explosões mais fortes. Foi, no entanto, súbita. Inesperada. Entre os que ficaram, astronautas, uns quantos que por um acaso do destino ou outro, se encontravam num abrigo à prova de radiação (e como ficou provado que a paranóia dos humanos tinha razão de ser!) ou debaixo do mar, especulou-se, futilmente, durante largas dezenas de anos, sobre se de algum modo a explosão fora causada por pessoas. Existia o conhecimento teórico de como despoletar uma explosão de radiação e existia a tecnologia para o fazer. O que não devia nunca ter existido era a vontade de erradicar da terra toda a gente. De centenas de biliões de pessoas para pouco mais que meio milhar em segundos. E agora, descendentes dos descendentes da terra decadente, caminhamos por ai, quase primitivos, após perder tudo, pelas ruínas esquecidas do um mundo que já foi. A torra de mármore branco ergue-se, como um osso espetado na floresta e daqui, vejo-a e sonho com o que era junto à fogueira que aquece o fim da tarde. Dentro de uns dias chegaremos lá, a primeira excursão à torre desde que o mundo morreu...
Monday, 22 January 2018
torre
A velha torre de mármore branco ergue-se solitária no meio da floresta, como um osso que caiu do céu e se deixou ali ficar. A esta distância consigo imaginar-lhe a pele porosa e ver-me subindo pela medula até ao topo, seria eu também tutano, cuspindo glóbulos, brancos e vermelhos, seria eu mesmo plaqueta estancando a hemorragia. Imagino-a como ela teria sido no auge de tudo, a torre branca, erguendo-se até que as suas antenas, hoje há muito enferrujadas pela chuva e quebradas pelos ventos, tocassem ao de leve nas nuvens, acariciando o paraíso celeste, como um ex-amante que anseia ainda pela pele de quem já não é seu. Milhões de pessoas devem ter subido os elevadores lá dentro, diariamente, provavelmente sem se aperceberem de estarem a trepar em direcção a Deus e à santidade com cada andar que passavam, sem saberem o quão impressionante é viver numa torre que liga a terra ao infinito. Hoje, a torre é apenas um osso no chão, mais uma fractura exposta, relato silencioso do que fora antes. O universo provou-se indiferente aquilo que um homem sente, fez-se faca, bisturi, e com um corte preciso, erradicou toda a humanidade num só gesto. Biliões de pessoas mortas, num minuto apenas. Safaram-se uns poucos, como os meus antepassados, que por acaso do destino se encontravam fora da terra nesse dia em que o Sol decidiu que chegava de ter vida junto a si, no dia em que o Sol decidiu nada existir ainda que valesse a pena manter e disse, de si para si, "está na hora de explodir". Em termos cósmicos, a explosão de radiação do Sol da Terra nem fora assim tão grande, diariamente acontecem, só na nossa galáxia, milhares de explosões mais fortes. Foi, no entanto, súbita. Inesperada. Entre os que ficaram, astronautas, uns quantos que por um acaso do destino ou outro, se encontravam num abrigo à prova de radiação (e como ficou provado que a paranóia dos humanos tinha razão de ser!) ou debaixo do mar, especulou-se, futilmente, durante largas dezenas de anos, sobre se de algum modo a explosão fora causada por pessoas. Existia o conhecimento teórico de como despoletar uma explosão de radiação e existia a tecnologia para o fazer. O que não devia nunca ter existido era a vontade de erradicar da terra toda a gente. De centenas de biliões de pessoas para pouco mais que meio milhar em segundos. E agora, descendentes dos descendentes da terra decadente, caminhamos por ai, quase primitivos, após perder tudo, pelas ruínas esquecidas do um mundo que já foi. A torra de mármore branco ergue-se, como um osso espetado na floresta e daqui, vejo-a e sonho com o que era junto à fogueira que aquece o fim da tarde. Dentro de uns dias chegaremos lá, a primeira excursão à torre desde que o mundo morreu...
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