Wednesday, 7 February 2018
Ampulheta
Uma a uma as estrelas caiem, passando pela borda afunilada da ampulheta universal, como se grãos de areia. Deuses, sentados num chão inexistente, formam um circulo que olha fixamente para o centro, para o tempo que passa. "Repara nesta!" um dos Deuses diz, tocando ao de leve o que seria o ombro do outro se os seus corpos fossem. É uma estrela vermelha, ardendo com fúria, e dela ergue-se uma aura carregada de ódio, ouve-se quase uma voz, uníssona de biliões de inteligências que num piscar de olhos deixaram de existir, graças aos caprichos insondáveis de Deuses invisíveis. A voz berra, num sussurro, de medo e resignação, de dor e perda. Uníssona e dissonante, sem palavras perceptíveis, estendendo-se por centenas de anos e durando apenas um piscar de olhos. A estrela parece parar na garganta de vidro, como que resistindo à pressão inexorável do tempo, desafiando Deuses e a inevitabilidade do tudo, um último acto de força e coragem antes que o esquecimento a engula a ela e a todas as suas vozes. Um dos Deuses sorri, talvez o mesmo que há pouco falou, e num pequeno sopro empurra a estrela para o vazio que se estende sob a garganta de vidro da ampulheta. As vozes calam-se, calaram-se há centenas de milhões de anos mas só agora chegaram aqui e só agora se extinguiram. Um dos Deuses, talvez aquele que teria sido tocado no ombro se ombro tivesse, suspira uma palavra apenas, igual em todas as línguas e diferente em todas elas, forte, pesada, leve. Elogio e insulto ao mesmo tempo: "Linda". Como se a morte de biliões fosse uma obra de arte, como se as vidas e existências de todo um planeta nada mais fosse do que uma tinta, acrílica ou de óleo, que certo pintor demente espalha sobre uma tela. Esse dos Deuses que primeiro falara vira as costas à ampulheta e desaparece ainda mais. Nada mais existe que ele queira ver, o seu trabalho começou antes do universo mas acabou antes que este acabe e agora, cansado e velho e cheio de orgulho pelo que fez e cheio de remorso pelo que fez e cheio de si mesmo, ele deita-se sobre o nada e deixa-se dormir, eternamente dormir. Lentamente, as estrelas acabam : não há mais fogos no universo, não há mais vida nem Deuses. E, finalmente, em paz, o vazio é tudo e tudo é vazio e a existência pode recomeçar se assim desejar, para que tudo seja de novo como já foi. Deuses e estrelas morrem da mesma maneira, escorregando para o nada.
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