Sunday, 21 January 2018

asilo

somos todos prisioneiros da nossa loucura, aqui no asilo. Claro que podíamos sair. Alguns já tentaram. Saem porta fora, de armas e bagagens, jurando nunca mais cá voltar, rogando pragas as paredes velhas e a cair de podres, dizendo que nem o ar dentro do asilo é puro, que cheira a sexo, a droga, a veneno mesmo. Voltam sempre, excepto aqueles que caíram pelo caminho num outro qualquer asilo. Pode demorar dias, semanas, meses, mas todos voltam à maldita casa aonde a sua loucura os prendeu. As paredes dos quartos estão carregadas de marcas subtis, pequenos sulcos nos sítios onde um dos habitantes, rendendo-se à sua loucura completamente, tentou partir-las, achando que eram as paredes e não a sua cabeça quem o prendia. O meu quarto também têm dessas marcas. Já antigas, agora, de quando eu ainda achava que poderia escapar, que não estava condenado a esta prisão para o resto dos meus dias. Em certas noites passo a mão por cima dos sulcos e começo a rir incontrolavelmente até que as gargalhadas se tornam em soluços e dos meus olhos lágrimas caiem. O pátio está fechado há meses, e as janelas raramente abrem, o cheiro a tabaco velho já fazendo parte da mobília, das paredes, da minha pele. A luz de cima penso que está avariada. Ou então achei que sim e nunca a tentei voltar a abrir. A única luz do quarto vêm sempre do pequeno candeeiro. à luz dele leio e escrevo. Há um computador, aberto, componentes expostos ao pó. Penso que ainda funciona mas não lhe toco há meses, ou talvez anos. O tempo no asilo não faz sentido e no meu quarto, de estores sempre fechados, ainda menos. Certos dias acredito que já morri e que na realidade estou no inferno. Noutros dias acredito que morri mas, talvez por piedade de deus, vim parar ao céu. Na maioria dos dias acredito-me vivo e amaldiçoo o destino e a lenta marcha da vida. A caneta começa a morrer, mal escreve já...
somos todos prisioneiros da nossa loucura aqui no asilo e não há fuga para nós...

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